domingo, 26 de abril de 2009

Primavera de 2009 na Europa – FLORENÇA

Se a arte é um calabouço, essa visão é uma lição de liberdade
(Bruno Tolentino)

foto de Ana Guimarães



Começamos revendo Florença, um dos principais centros de cultura da história da humanidade, visitada por nós com brevidade no ano de 2000, o suficiente para deixar nossos corações iluminados pela esperança da volta um dia. A cidade, berço do Renascimento, desculpem o lugar comum: ‘verdadeiro museu ao ar livre’, agora rivaliza com Veneza nas minhas preferências; além de arte transpira elegância, estética e design através dos seus habitantes que desfilam como numa passarela em suas espaçosas piazzas sempre cheias de turistas, de manhã à noite.
Devidamente instalados no charmoso hotel Tornabuoni, zarpamos para o afamado Mercado de San Lorenzo: preços incomparáveis aliados a qualidade dos artigos em couro fizeram com que após alguma hesitação (a oferta é enorme) ali comprássemos nossos casacos.
Partirmos, então, para jantar na aconchegante Trattoria Za-Za, onde experimentamos a típica cozinha toscana e a sobremesa local, biscoitos cantuccini.
No dia seguinte, com reserva (sem isso também é preciso paciência para poder ver a famosa estátua David, não preciso dizer de quem, na Galeria Accademia, a fila é interminável) fomos conhecer as Galerias Uffizi, o museu de arte mais importante da Europa depois do Louvre. Primeiro procuramos e nos detivemos, olhar apaixonado, no que mais nos interessava: O Nascimento de Vênus, de Boticcelli, A Anunciação, de Da Vinci e a Sagrada Família, de Michelangelo. Daí em diante, sob o lema “o paraíso não tem pressa e te espera”, flanamos apreciando o resto (e que resto!), atravessando tons e silhuetas nascidos de privilegiadas paletas, na contramão do fluxo ondulante, seguindo só nossa própria correnteza, buscando captar nas telas a emanação do invisível.
Do alto e de longe fotografamos a Ponte Vechio (a única a escapar da destruição nazista, na 2ª guerra), antes de conhecê-la ‘pessoalmente’, dissolvendo-nos na multidão que por ela transita buscando jóias nas joalherias de vista mais privilegiada do planeta, ou apenas souvenires. O Rio Arno corria altivo e sereno, como sempre, emoldurando-a.
Na magnífica Piazza della Signoria, o coração de Firenze (onde fica o Palazzo Vecchio, antiga residência dos Médicis, ainda hoje palco dos eventos mais importantes do lugar), almoçamos uma autêntica bisteca florentina no Orcagna, apreciando de nossa mesa a fonte Neptune e a escultura Perseu, de Celini. Em seguida tomamos um incomparável gelato, numa das inúmeras sorveterias espalhadas por ali.
Na Piazza del Duomo, um ícone da cidade, fica a Catedral de Santa Maria Dei Fiori (em estilo gótico, com a fachada toda em mármore verde e rosa, formando desenhos geométricos), Il Campanile de Giotto e o Batisttero de San Giovanni (onde se batizavam os pagãos impedidos, na época, de entrar em qualquer igreja), obra de Lorenzo Ghiberti, com suas magníficas portas de bronze retratando cenas do Velho Testamento, chamadas Gates of Paradise, assim nomeadas por Michelangelo quando as viu; a luminosidade da hora dourava os reflexos de rara beleza. Um dos mais belos trabalhos de arte do período renascentista, dizem os entendidos.
Imperdível é a Basílica di Santa Croce, com sua beleza e imponência. Em seu interior, jazem os restos mortais de Ghiberti, Dante e Galileo, só para citar alguns nomes conhecidos. Suas capelas foram projetadas por Gioto e Bruneleschi. Mas muitos outros tesouros por mim não citados, de autoria de mestres – não foram poucos os que por aqui passaram – como Tintoretto, Veronese e Rubens merecem ser caçados.
Valeu a pena ainda ter visitado, nos arredores, o vilarejo de Lucca, um campo militar romano na sua origem, cercado de muralhas, bem preservado e tranqüilo, onde nasceu Puccini. E Pisa, com sua torre inclinada (hoje estabilizada) datada do século XII, no Campo dei Miracolo. Aqui, esfomeados pela tarde que avançara sem que percebecessemos, entramos despretensiosamente no primeiro restaurante aberto que encontramos, Il Campano, para logo nos encantarmos com prestimoso atendimento e a melhor massa caseira de todos os tempos, feita na hora, com farinha 00, levíssima.
De trem partimos para Veneza. Meu último olhar para trás, mesmo contido, sem lágrimas, é um gesto que dói pela saudade antecipada. Quando voltarei? Voltarei?

Ana Guimarães