domingo, 28 de junho de 2009

BESTIÁRIO - A BESTA



O homem solitário é uma besta (Aristóteles)

Trata-se de um quadrúpede híbrido de jumento com égua ou de cavalo com jumenta. Ao contrário do que se imagina não é estéril, pois o que mais se observa, na atualidade, é que se reproduzem como nunca. Diga-me com que besta andas e dir-te-ei em que besta te tornarás, pois bestas fatalmente bestificam os amigos.
Sua sexualidade é bestial, grosseira, repugnante, degradada e degradante para os pobres dos animais com os quais pratica atos libidinosos. Obesa, aumenta seu perímetro de bestice: vira besta quadrada.
Além de estúpida e grosseira, toda besta que se preza é pretensiosa, soberba, pedante e arrogante, nenhuma rendilha parece subjugá-la. Alguns artistas parecem se encaixar nessa categoria, tamanho o ego.
A lenda da besta fera, muito comum no Brasil rural, diz que ela é a mais terrível das criaturas, um ser fantástico, metade homem, metade cavalo (sagitarianos, como eu, tomem cuidado, mais cedo ou mais tarde nela podem se metamorfosear).
Uma besta de carga só faz besteira: leva malas contendo dinheiro público ilegal, transporta dólares na cueca, saquinhos de droga no estômago ou explosivos amarrados ao corpo. Às vezes troca o nome – e até a categoria gramatical – para laranja. Noutras, transmuta-se em carro – se é que aquilo é um carro – usado como transporte público ilegal, comercializado de uma classe de bestas para outra que não se importa de viajar sem um mínimo de segurança.
Na política, costuma ter a faculdade da bestialogia, ou seja, proferir discursos asneirentos, disparatados, sem pé nem cabeça.
Adoram vestir uniformes: militar e religioso (os dois pilares do mundo, os dois podres poderes) são os campos de atuação, por excelência, das bestas. Sob a égide de qualquer instituição chegam ao paroxismo do radicalismo e da intolerância.
Antigamente, disparavam flechas. Hoje em dia, disparam balas perdidas. Ou pitbuls. Se gladiador, chamava-se bestiário, lutando no circo com as feras, todas, certamente, belas e menos selvagens que ele.
Quando de nacionalidade portuguesa vivem numa parte da Serra do Caramulo, a Serra dos Besteiros (ah, ah, te peguei, leitor! Pensavas, preconceituosamente, que eu ia escrever algo politicamente incorreto? Nem morta, até porque amo, respeito e admiro os portugueses, de quem, aliás, descendo).
No texto Apocalipse, da Bíblia, é um representante do dragão que, por sua vez, seria uma metáfora para satanás. Numa outra leitura é reconhecida como sendo o falso profeta, aquele que convoca todos a adorar aquela primeira besta, a viver a serviço dela.
Seus músculos cardíacos também não são utilizados tanto quanto sua massa cinzenta: nem coração, nem mente. Certas paixões humanizariam esse animal, mas ele não quer saber, foge das emoções como o diabo da cruz, bestificando-se através de drogas estupefacientes. Vira sombra humana deformada, mera caricatura. Zumbi. Morto-vivo.
O número da besta, pra quem deseja jogar, é 666.
Ê vida besta!, como diria o Drummond.


Ana Guimarães




domingo, 21 de junho de 2009

LÁGRIMAS e À DERIVA



LÁGRIMAS

Não me lembro mais de você
de sua figura
de seu rosto
só das suas lágrimas
profusas
banhando-o inteiro
tanto
que o pranto dissolveu
seus traços
seu cheiro
só não lavou minha alma
que
encharcada de ti
permanece
(como roupa molhada
sem sol)
e não esquece
Tentei vestir
outras sombras
outras vestes
mas nada tem o seu caimento
e sigo nua

Ana Guimarães

3º lugar no 1º Concurso de Poesias da Nova Literatura, realizado em abril de 2009
http://www.novaliteratura.com/visualizar.php?idt=1562452

À DERIVA

Nas tardes aveludadas de inverno
(sua estação preferida)
em águas luxuosas
onde a devassidão reina
você é leito que flutua
desancorado, à deriva
em confesso eretismo permanente
o desejo sempre roçando o interdito

Nesse cenário, sem destino
mais trilha, picada, que caminho
o amor é máquina de tortura

Ana Guimarães

2º lugar no 2º Concurso de Poesias da Nova literatura, realizado em maio de 2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

BLOOMSDAY IN DUBLIN



O canto das gaivotas é ouvido do meu quarto, no hotel Blooms. Na verdade, por toda a parte. De qualquer ponto da cidade – estou em Dublin, assim nomeada porque a atravessa o Dubbh Linn (Lago Escuro, em irlandês), o rio Liffey, com suas águas escuras – posso vê-las fazendo acrobacias no céu, bem baixinho, num bailado circular cuja coreografia lembra os movimentos do marinheiro que Joyce pareceu ser a Nora, no seu deles primeiro encontro: aquele que vem e vai, que parte (e reparte, e fica com a melhor parte, pois tem arte), mas está sempre voltando. Ou volta, embora sempre partindo. Como a gente, à procura de terra firme, de um porto seguro, de uma calmaria ao menos, mesmo que quando com ela nos deparamos, assusta: prenúncio de tempestade.
Dezesseis de junho de dois mil e cinco. Do primeiro Bloomsday a gente nunca esquece. Existirão outros? Duvido, só mesmo as asas de um simpósio Joyce/Lacan para aqui me transportarem, que maravilha o Dublin Castle onde ele se realiza!
Percorro, passo a passo, os lugares mencionados nas andanças de Bloom naquele distante 1904, retratadas no Ulisses. Começo pelo banho de mar na minúscula praia (uma faixa de areia, na verdade) mais rochosa que do que qualquer outra coisa, de Sandycove Martello Tower, cheia de banhistas que se trocam à vontade, seus brancos bundões e melões de fora.
Adentro o museu JJ aí instalado e, depois de ver documentos, objetos pessoais, fotografias, primeiras edições dos livros, uma réplica de sua máscara mortuária, souvenires de todos os tipos, subo a estreita escada de pedra em caracol. Meus olhos lacrimejam, meu nariz funga, não só pelo pó que em tudo se deposita: deparo-me com o quarto onde Joyce viveu, ainda que por um breve período de tempo: a cama, a estátua de uma black panter, parece que estou vendo a famosa cena descrita no primeiro capítulo. Mais uns degraus e, no topo, uma estonteante vista da baía se abre em 360 graus. Para não sucumbir à emoção, utilizo-me desse artifício de afastamento e proteção contra a realidade: a câmera fotográfica.
A celebração continua como um festival, dizem-me. Toda a cidade é festa. Leituras e performances me esperam em cada esquina.
No JJ Centre mais taquicardia: uma belíssima casa do século XVIII abriga suas obras nas mais diversas línguas, e uma mostra de sua vida em vídeo, para aficionados que enchem a sala de silêncio e reverência. Eu, sempre tagarela, me calo também.
Na National Library uma exibição, com tecnologia multimídia interativa, de desenhos e manuscritos do escritor, ainda desconhecidos e recém-adquiridos (2002).
Uma visita guiada ao Clongowes Wood College, a escola jesuíta na qual ele estudou de 1888 a 1891, revela recantos onde aconteceram os conhecidos episódios do autobiográfico Retrato, com Stephen Dedalus.
Constatar que Joyce nunca será esquecido, ao contrário, para sempre lembrado, discutido, amado, não só por universitários que dele se ocuparão por séculos e séculos como ele próprio queria é um gozo extra: sua estátua quase na esquina de Earl Street North com O’Connell vive rodeada de irreverentes admiradores.
Fecho o dia (só escurece por volta de dez, dez e meia da noite) tomando uma Guiness no Davy Byrnes, o bar freqüentado por Joyce, lotado dentro e fora, mais parecendo o nosso baixo Gávea, aqui do Rio, com faceiras e corajosas moças usando chapéus a la Molly Bloom, em sua homenagem.
Trocando escuridão por luz é o título da exposição do Book of Kells, na Trinity College Library Dublin, um relato dos evangelhos criados pelos monges irlandeses do século IX, fartamente consultado por Joyce quando ainda muito jovem. Pudera. Aí vai um trecho que explica o porque:

Pángur Bán

Solemos yo y Pángur Bán, mi gato,
en lo mismo los dos pasar el rato:
cazar ratones es su diversión,
cazar más bien palabras mi passión.

Es preferible a todo aplauso humano
sentarse con papel y pluma en mano;
y Pángur no me mira con rencor,
siendo él también sencillo cazador.

Frecuentemente, um ratoncillo errante
cruza el camino de mi gato andante;
alguna idea más, frecuentemente,
coge en sus redes mi afilada mente.

Vigila el muro con sus ojos vivos,
redondos, maliciosos, agresivos;
escudriñando el muro del saber,
mi poca comprensión busco extender.

Dia tras dias, a Pángur su ejercicio
lo ha hecho ya perfecto en el oficio;
yo noche y dia alcanzo más verdad,
trocando en clara luz la oscuridad.

(Escrito en el siglo IX por un monje irlandes en St. Gallen, Suiza)

Pángur Ban

I and Pangur Bán my cat
`Tis a like task we are at:
Hunting mice is his delight,
Hunting words I sit all night.

Better far than praise of men
`This to sit with book and pen;
Pangur bears me no ill will
He too plies his simple skill

Oftentimes a mouse will stray
In the hero Pangur`s way;
Oftentimes my keen thought set
Takes a meaning in its net.

`Gainst the wall he sets his eye
Full and fierce and sharp and sly;
`Gainst the wall of knowledge I
All my little wisdom try.

Practice every day has made
Pangur perfect in his trade;
I get wisdom day and night
Turning darkness into light

(Written by a ninth-century Irish monk in St Gallen, Switzerland)

Ana Guimarães

quinta-feira, 11 de junho de 2009

DESCAMINHOS



... O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa... Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães...

(Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)


Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

(Drummond, 1967, três dias após a morte de João Guimarães Rosa)

Não os conduziria por caminho algum que não fosse o do desejo e sua relação com a linguagem, é o único peixe que tenho para lhes vender. O saber é mera suposição que não se sustenta, o que não impede que avancemos um pouco em nossas questões. Inicio com uma de nebuloso semblante, já que a ficção – como o sonho – é tecida no inconsciente, esse bastidor da criação: Para quem o escritor escreve? Ele sabe do que se trata, desde o início? No fim, ao menos? Ou tudo o que ele tem em mente é que não pretende corresponder a expectativas, está se lixando para demandas, despreza aquela afirmação segundo a qual a leitura, para despertar interesse, tem que ser lúdica e prazerosa? (Os interesses do escritor e o do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso - W. H. Auden). E ainda, que está disposto a encarar a força da dissociação a que está submetido. Não se deve confundir, no entanto, ignorância primária com ausência de conhecimento, o que há é uma paixão de ser, a prevalência do (ainda) não articulado. Suas pegadas (sua “assinatura”) dirão mais dele do que ele próprio é capaz.

São íntimas as relações entre produção e endereçamento. Ambos estão no mesmo lugar; este último, o destinatário, é quem alavanca a primeira, no entanto, só podemos deduzi-lo pelos efeitos que provoca. Imprevisíveis, por sinal, mas bem melhores do que os colaterais de certos remédios que tomamos. Um escrito é o enlace de algo até então desatado, mudo. Representa a admirável ação do ser sobre si mesmo (Cortázar), a salvação de uma experiência perdida (Benjamim), para ser compartilhada, acrescenta Borges: seremos parte de um discurso que nos escreve enquanto pensamos redigi-lo? Associei ao seu O Livro de Areia, no qual o número de folhas é infinito, nenhuma é a primeira, nenhuma a última: apenas janelas que se abrem.

É possível hierarquizar as literaturas? Estabelecer valores sem cometer injustiças? Existem critérios únicos ou determinados? Um selo de garantia pode ser dado por uma minoria abalizada ou seria melhor assumir que não se tem pares, só se tem ímpares quando se é escritor? Fundamentar-se numa alteridade que dê mais consistência porque heterogênea? O que designaria, afinal, uma obra de arte? Tem pregnância visual a excelência de um texto? Já vai longe a época em que sua definição seria “poder sustentar encantamento”? As soluções estéticas teriam se esgotado, substituídas pela est’ética do bem-dizer? (Que, ao contrário do que parece, subsume o enfrentamento do não senso, do paradoxo)

Quando Alice (de Carroll), vendo uma mesa tão grande, posta para tantas pessoas, quer saber se a razão disto é porque é sempre hora do chá, o Chapeleiro responde: Sim, nós não temos tempo para lavar a louça nos intervalos (que, logicamente, não existem). E ela conclui: “Vocês vão mudando de lugar, eu suponho... Mas o que acontece quando vocês começam tudo de novo?” Então a Lebre de Março se intromete e diz: Suppose we change the subject (“suponha que nós trocamos o sujeito” e “mudemos de assunto, estou cheia desse chá maluco!”). Como se vê, atribui-se qualidade artística a um texto se ele se serve da língua para significar algo diferente do que ela habitualmente diz, não nos deixa aprisionados num comunicado qualquer, se ele não só aceita diversas leituras, mas resulta da intenção deliberada do autor que assim seja – isso é sabido e notório, página menos cinco, nunca démodé.

A capacidade de permitir sua releitura, sua reconstrução – parâmetro de peso – envolve, indiretamente, o conceito de morte do autor, entendido como pai, proprietário e guardião do sentido do texto, escondido, sempre a ser decifrado. Acontece que entre os romanos, auctor era aquele que aumentava o território: o general vencedor. A fonte da palavra já desfaz a premissa da originalidade na escrita: não passamos de involuntários “cut-upeiros”, só fazemos anexar escritos que conquistamos. Por isso Foucault nem teria, propriamente, discordado de Barthes: não morre porque nunca existiu, chega desse idealismo da criação individual a partir do nada. Resultando daí a mudança da idéia, referida agora como destruição de toda voz, procedência e identidade, restando a linguagem vista como potência, aquela que fica de pé sozinha.

Essa constatação não exclui o reconhecimento da passagem do autor por um texto, não mais senhor absoluto, ausenta-se de fato, mas s’obra (obrou, se obrou e finalmente sobrou), deixa marcas de um trabalho, institui-se como agente de um discurso. Se não há intenção de comunicar nada, também não há recusa de fazê-lo. Mito do espaço do autor ultrapassado, chegamos à outra ponta: o leitor. Seria ingenuidade e um erro considerá-lo tabula rasa: ninguém lê sem recordar, sem associar, sem transpor sua experiência para a leitura. É preciso que se dê alforria às letras, devolvê-las ao seu devir: de onde vieram, para onde vão: isso é problema delas. Aceitar o riverrun. Um texto, depois que nos abandona (a gente é que pensa que se livra dele) começa a azucrinar os outros, seus leitores. Mas o que milhões de sedentos estariam procurando? ... Aquilo que revela e ao mesmo tempo redime a desolação da vida ordinária (Henry James). Cazuzeando: um veneno antimonotonia.

Ana Guimarães


Texto já publicado no site Cronópios: http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=1198


domingo, 7 de junho de 2009

LIBERDADE, LIBERDADE



De que amanhã se trata? (Victor Hugo)

De três feridas narcísicas padecemos. Primeiro tivemos que reconhecer, graças a Copérnico, que a Terra não é o centro do universo. Depois veio Darwin, com a revelação: descendemos dos macacos. A terceira devemos a Freud e sua descoberta do inconsciente: não somos amos e senhores em nossa própria casa. Agora, um quarto golpe parece ter se abatido sobre a humanidade, especialmente sobre aqueles que fazem arte e literatura, deixando alguns senão desiludidos, perplexos, pois segundo um pensamento já dominante todos somos artistas e escritores se assim nos denominarmos: autorizamo-nos por nós mesmos, não mais dependemos de critérios canônicos pré-estabelecidos para definir nossas produções. Se as Brillo Boxes de Warhol eram arte, e as caixas normais de palha de aço não, meros objetos utilitários, qualquer coisa poderia ser arte, não haveria nenhum modo especial de ser da obra de arte, concluiu, em entrevista à Folha, Arthur C. Danto, filósofo, crítico de arte. E à pergunta de Giovanna Bartucci (psicanalista, ensaísta) Literatura com ele maiúsculo ou com ele minúsculo? Silviano Santiago, assim respondeu: As duas, ou as três ou as cinco manifestações de literatura, porque há que levar em conta também os produtos artesanais, os da Internet e as mercadorias da grande indústria editorial. Vivemos uma época de inclusão e não de exclusão... Finalmente o leque das possibilidades literárias foi aberto... Sua adjetivação (feminino, gay, étnico) coloca contra a parede a instituição ocidental conhecida como Literatura, que sempre teve pretensões universalistas, etnocêntricas e falocêntricas.

No princípio era o verbo. Nonada. Não há nada que não seja linguagem. Não nos servimos dela, só existimos através dela, e em seu cárcere somos prisioneiros. Vozes dos outros nos habitam desde sempre. É possível ignorá-las, refutá-las, rebatê-las? Delas desviar, depois de devidamente digeridas, cuspido seu bagaço, com ele construído uma singularidade? Ser mais do que uma câmara de ecos? Ator ao invés de simples reator de energia poética? Se estamos vivendo um desbloqueio da noção de literatura (como Santiago disse em A boa literatura incomoda) tanto que se fala mais em produção textual, também é certo que isso levanta um problema, o da qualidade (e enfatizá-la significa dar mais importância ao leitor do que ao consumidor): como reconhecê-la? Precisaríamos de um distanciamento histórico – que já se mostrou tantas vezes falho – para fazê-lo? Quem estaria apto para identificá-la? Os críticos? Os teóricos? Os professores? Tarimbados escritores de outras gerações? (Ezra Pound dizia que um poeta mais velho não devia opinar sobre os trabalhos dos jovens porque tenderia a gostar dos que são mais parecidos com os seus)

Não há mais limites para o texto literário? Urge uma reflexão sobre o seu estatuto na atualidade? E qual o seu futuro? A herança, é possível desprezá-la? A literatura encontrar-se-ia em estado de crepúsculo? De desconstrução, como postulou Derrrida, desenvolvendo (a partir da célebre frase de Victor Hugo citada no início) o conceito de herança como escolha, filtragem, interpretação? Não como algo que se recebe pronto e acabado, e sim com brechas onde se pode batalhar e desfazer os chamados momentos dogmáticos dos escritos anteriores. Tudo o que um verdadeiro mestre quer não é que o discípulo deixe de ser discípulo, o ultrapasse, o renegue, o esqueça? Aliás, até o mestre, de tempos em tempos tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas? (Assim falou Zaratrusta) Também não se trata de dizer o que ainda não foi dito, é pouco, talvez uma bobagem que vínhamos repetindo, visto que a verdade não é um fruto que se encontra em algum lugar só esperando para ser colhido; ela é, como o sujeito, um efeito do discurso.

A pergunta “o que é literatura?” é feita para se efetivar, a cada instante, uma resposta diferente. Escrever é produzir onde tudo apontava para uma impossibilidade; é não desistir, é insistir, ousar. Encarar, corajosamente, o que os gregos chamavam de borboletas (psyché) e MD Magno (psicanalista, doutor em letras) cunhou como borboletras, aquilo que bate asas, às vezes não tão graciosamente, dentro da cabeça. Mudar fronteiras de lugar (entre a loucura e a sensatez): pra cima e pra baixo bordando a terceira margem do rio, seja na forma ou no conteúdo do texto. Equi-vocar, chamar igualmente os opostos – aí é o espaço, por excelência, da criação, sempre visitado por Machado de Assis, por exemplo, (explicitamente, em O Alienista), por Octavio da Paz: Tristeza de ter vindo/alegria de estar aqui, bem lembrado por Carlito de Azevedo no seu artigo Dia da Poesia: num minuto a poesia me devolvia a alegria, e o melhor, sem me roubar a tristeza. Num minuto eu podia ser a mosca e a aranha na teia ao mesmo tempo.

O inevitável mal-estar na civilização, percebido de modo errôneo como um vazio a ser preenchido, leva a adições, drogas literárias de auto-ajuda, essas que grassam nas livrarias, com uma demanda absurda: ao sistema interessa reabilitar o indivíduo para que ele, engrenagem, volte a mover a roda do espetáculo. Mas existem outras. Literaturas, digo. Aposto na que preserve a liberdade do leitor e não o deixe esperando do outro, neuroticamente, a “solução”. Difícil, porém, competir com aquela que apazigua, que anestesia, que não traz horror algum. O melhor, os bons livros estão no limbo, na obscuridade... Não são populares e nem estão atingindo o mercado (Santiago, ainda). Prefiro os polêmicos, os que dão mau exemplo, os que não impingem nenhuma ortopedia social, como dizia Foucault, nada de persuadir, adaptar ou oferecer-se como imagem ou modelo. Nada de submeter-se à censura de qualquer espécie, ao contrário, dar voz ao desejo: é na impossibilidade de se imaginar e verbalizar a violência – Sade nos mostrou – que corremos o risco de fazê-la se cristalizar no real. Cultivar o dissenso. A palavra é pluralidade, cada um que encontre a sua, a reinvente. É não seguir caminhos, trilhar os próprios, eles são tantos quanto os escritores. Grande Ser: tão veredas. (MD Magno)

Ana Guimarães


Texto editado a partir do original publicado em: http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=1173
Também está na chamada de capa do site Ver-o-poema, confiram:

quarta-feira, 3 de junho de 2009

SEGUNDO DEGRAU

Não há nada mais a dizer, embora nada tenha sido dito (Beckett)

“Manchando a folha branca com o falo da caneta, com o sêmen da tinta...” Um verso (sua lembrança), lido não sei mais onde, deflagra as primeiras indagações do dia. Existe escrita masculina? (Formulada dessa maneira para inverter a habitual, melhor seria perguntar se existe uma escrita distinta por gênero) Já vai longe o tempo da folha em branco, da tabula rasa? De certa maneira, tudo já foi dito e só nos resta copiar? Contentarmo-nos em criar segundo aquela frase de Pascal: nada de novo, somente “... la disposition des matières est nouvelle”? Tradução: o jeito é fazer uso da tríade permutação, arranjo, combinação. Com sorte, repetir com alguma diferença. Dialogar com a produção literária anterior e, dessa fricção, tentar fabricar alguma pérola, como Haroldo de Campos disse que Guimarães Rosa fazia.

E o produto final é mesmo o que importa? É possível, ao menos, minimizar sua importância? Romper com a noção teleológica? Continuar o pensamento de Valéry (um poema nunca está acabado, fica apenas abandonado) onde fazer seria o principal, e a tal coisa feita mero acessório? Ultrapassar a velha equação: obra de arte igual à finalização sobre uma elaboração? Ela não seria o próprio processo criativo, em movimento? Também não se trata de “compreender” nada através de anotações, esboços e cadernetas dos escritores, e sim da concepção do resultado final apenas como uma das possibilidades, uma das potencialidades da operação em curso. Nenhum trabalho de decifração, repito, nada a ser des-coberto (consultado por um tradutor para dar o exato significado de uma passagem de um texto seu, Rosa negou-se: o autor não dá conta de sua obra). Falo de uma opacidade permanente, e não de um véu que, se retirado, tudo se explicaria (nenhuma charada a ser decifrada: Stephen, no Ulisses, mostra como uma mensagem decodificada pode, ainda assim, permanecer um enigma). De uma prevalência do sugerido, deixando espaço para aquele que lê exercitar sua imaginação. De elementos apresentados sem que se estabeleçam relações fixas e precisas entre eles: o leitor é quem construirá as conexões. De uma suspensão do sentido dado, seu deslizamento no discurso.

Embora isso não seja, propriamente, uma novidade, pois que indefinições, equívocos (de lugar, nome, autoria) já tecem a prosa moderna desde sempre. Só pra lembrar: em épocas distintas Don Quixote faz o elogio da incerteza: “En um lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...” e Malone morre sepultando com ele objetividade, enredo linear, caracterização de personagens, romance com as pontas amarradinhas. Mas a maior oferta desse tipo de texto, atualmente, poderia significar uma aposta no novo leitor. Aquele sonhado, acometido de uma insônia ideal, nada ingênuo, que encara com jogo de cintura recursos literários tais como ausência de fronteiras entre autor e narrador, confusão entre passado e presente, memória e ficção, e as chamadas bonecas-russas (um livro dentro do outro, do outro, do outro). Que suporta contradições, fissuras e chiaroscuros. Percebe que certos escritos são para serem lidos e não compreendidos. Aceita suas limitações na leitura, admite que sempre se pega o bonde andando, e corre atrás, então, das citações que desconhece, procurando – aí sim – esclarecê-las. Considera a estória uma opção para a história. Uma compensação, o que poderia ter sido. Uma espécie de universo paralelo. A resposta da fantasia diante da indigência do real. Sua salvação.

Leandro Konder sugere que se ofereça, naquilo que escrevemos, um mínimo de incitação à rebeldia, um estímulo às inquietações, o que dificultaria, senão impediria, que se reduzam leitores a meros consumidores, sem nos deixarmos tomar pelo desalento quando constatamos que até os textos mais subversivos são transformados em mercadoria: os versos do poeta engajado, as frases escatológicas ou de palavreado chulo que se julgam transgressoras, logo são estampados em alguma t-shirt ou aproveitados em jingles publicitários.

Tempo, tempo, tempo, tempo. Escuto Caetano e de novo essa questão me assalta. Acabei de rever Capote: o cara levou mais de três anos escrevendo A sangue frio (Joyce teria levado dezesseis em Finnegan’s). Ainda se faria alta costura, como antigamente, ou estamos mais para prêt-à-porter? Havia um esforço de mobilização à procura da mot juste, de imagens, metáforas, e uma espera (leia-se pesquisa) para a construção da trama. Uma linguagem nascida de um efeito de abandono. Isso levou a grandes momentos da literatura. Tirar medidas, fazer o molde, cortar o textu (tecido, em latim), alinhavá-lo, provar, costurar – uma técnica de artesão não mais cabível no presente, quem ainda faz roupas em costureiras e alfaiates? Compramos pronto, aqui e ali; no máximo, customizamos.
Ana Guimarães