sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS E UM FELIZ ANO NOVO!

Inequecível especial de Natal do Portal Cronópios, de 2005, do qual tive a honra de participar, confiram:

http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=851

domingo, 30 de outubro de 2011

O GOZO DA LETRA


Sem nenhum ritual de alfabetização, longe de qualquer testemunha, já lia aos quatro anos de idade. Tendo começado pelos cabeçalhos, logo me atirava, embora tateando, ao corpo das notícias de revistas e jornais. Percebia o quanto me fascinavam textos pouco ilustrados, justo o oposto do que crianças dessa faixa etária exigiam. Consumia com avidez as letras, seus arranjos, no que resultavam. E, à medida que ia captando – ou não – os significados, destilando-os, queria mais. Cedo divisei que é por cima de vastos espaços de ignorância, de uma realidade tectônica, nas entrelinhas, que se aprende. Antes que tivessem notado minha conquista, sorvi o Monteiro Lobato do meu irmão pouquíssimo manipulado. Ah o cheirinho de papel novo, afrodisíaco feito um bom vinho! No colégio, alguns professores me incentivavam a assistir aulas de séries mais adiantadas. Eram unânimes em afirmar: vá aonde o seu coração mandar, o desejo é soberano, o que for passível de compreensão será absorvido, o que não, expelido ou posto em reserva para um tempo futuro. Mais tarde, lendo numa língua estrangeira, não empacava se desconhecesse o que queria dizer uma palavra, continuava e interpretava pelo conjunto, deixando para esclarecer o detalhe depois – não foi Aristóteles quem disse que o todo é anterior às partes? Nicholson, curador do museu JJ, tem a mesma opinião. Ler (Joyce) é participar de uma corrida de cavalos: se houver um obstáculo, você pula e segue em frente.

Perguntava feito louca. Um dia, bem pequena, disparei: o que é fotossíntese? Minha mãe estranhou isso vindo de uma pirralha, não teve paciência para responder, ignorou. Eu tinha lido num encarte da floricultura e ficado curiosa, além de impressionada, com a sonoridade do vocábulo. O que é ressurreição da carne? Dessa vez tinha sido num opúsculo de catecismo, trazido da igreja. Deixe de ouvir conversa de adulto! Ela levantava a mão e eu me calava. Como se tudo o que quisesse saber fosse proibido. Teria, desse modo, atiçado minha sede de conhecimento? Papai, ao contrário, se estivesse presente (porque sempre fora, viajando a trabalho) sorria e me explicava. Quando não, dizia: vou me informar e lhe falo. Jamais deixou de cumprir o prometido. Estaria aí a origem do meu amor à literatura, às viagens e aos homens? (Não necessariamente nessa ordem) Ler me dá tanto prazer que muitos dizem invejar o desligamento, o abandono, a expressão de satisfação quando o faço. Considero, inclusive, um erro ensinar o bê-á-bá somente com objetivo pedagógico e não para a simples fruição. Lembro-me de pré-adolescente, com a mão esquerda segurar um livro e com a outra me masturbar. Nada de pornografia, sequer erotismo, não era nem – ainda – Lolita, de Nabokov ou a trilogia de Henry Miller, embora esses também sejam de boa safra. Podia ser um conto do Rosa, um romance de Machado, um poema de Pessoa. Com isso, talvez (quem sabe?) um palco seminal para a escrita estivesse sendo montado, pois as colheitas não tardariam: muito cedo começaria a escrever.

Não tinha sido apresentada aos dicionários, nem desconfiava de sua existência, e eis que, por acaso, xeretando na biblioteca, os vislumbrei. Agora, além dos óbvios rótulos, seria possível desarrolhar os mistérios da língua, experimentar seu bouquet e paladar, degustá-la até a última gota? (Tornou-se um hábito, consulto-os sempre, em vários idiomas, várias vezes ao dia) Conferia, satisfeita: “construção de grandes proporções” era mesmo “mole”, conforme tinha aparecido ao fazer palavras cruzadas (outra paixão) quando a empregada repreendeu-me: cuidado, não vá rasgar a página, não é caderno pra colorir! Saí correndo para contar a novidade, queria partilhar a descoberta com os meus amigos, mas – ó decepção – ninguém estava nem aí. De todo modo, o achado representou dois coelhos sob cajadada única: comecei a resolver sozinha minhas indagações etimológicas, parei de amolar os outros. Sim, pois querer saber sobre certos fenômenos, seu funcionamento, causava, no mínimo, embaraço. Escutava é porque é e pronto, tinha que calar a boca, sem maiores questionamentos. O não também era porque não, restava obedecer, mesmo na falta de um argumento lógico para a proibição.

Em 64, conscientizei-me do quanto a arte literária pode incomodar. Sob suspeita de serem subversivos, vi preciosos exemplares jogados no chão para serem apreendidos. Tive de refrear o reflexo de apanhá-los de volta e devolvê-los ao seu lugar na estante. E, embora impactada com aquela batida policial, sua brutalidade, o absurdo da situação (selvagens uniformizados de censores), enquanto eles armavam a patética cena, eu divagava... Alberto Manguel, em Uma história da leitura, relata um fato contado por Borges. Em 1950, em meio a manifestações contra a censura, populares gritavam nas ruas sapatos sim, livros não. Ao que os intelectuais respondiam sapatos sim, livros sim. Mas parece que não convenciam, como se o conflito entre realidade e ficção tivesse que ser mantido. Na verdade, o que se teme é o pensar que do ato de ler advém. O poder está na mente, e o leitor, tão ameaçador quanto o autor. Dar um sentido, quer dizer, o seu, pessoal, intransferível (quiçá provisório) e não aceitar um imposto como verdadeiro e eterno: coisa incompatível com certos regimes políticos. Raciocinar por conta própria, talvez diferente da maioria, pode desestabilizar o sistema, a história tem nos mostrado, às vezes é crime que se pune com banimento, exílio, prisão, tortura e até morte. Nossa família que o diga.

Ana Guimarães

domingo, 25 de setembro de 2011

FESTA DIFERENTE

Sem luzes
sem câmera
só ação

nem velas, apenas
o brilho das estrelas
e a música dos grilos

despidos
famintos
sem gala

não se quis comida
e sim saída
para uma parte: a arte

isso ainda nos resta
– uma fresta –
é dessa festa que falo

Ana Guimarães

Já publicado em http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=p05/p051003.htm&tipo=poesia

sábado, 10 de setembro de 2011

A FÉ NA FICÇÃO*

Pra sonhar não é preciso fechar os olhos e sim ler - Foucault

À parte as qualidades intrínsecas de cada um, a despeito de méritos literários, qualquer texto me seduz (como Cervantes, lia até nos papéis rasgados das ruas). Um livro sempre foi o meu melhor companheiro, alguém em quem podia confiar; um porto seguro, ou sólido navio na tempestade. Tormentas grassavam ao redor e, no entanto, quando começava a folheá-lo, tudo cessava, tudo se calava, tudo fazia sentido. Estimulantes desafios surgiam. Ora adentrava romances de cavalaria, lutava contra moinhos de vento, ora enfrentava poderosos jagunços. Temer algum mistério, terror ou sobrenatural nevermore, pelo menos não a ponto da paralisia. Desse modo, ia ampliando o campo do conhecimento, já que o que é conhecido não pode ser senão por palavras.

Fui aprendendo a relativizar, a me rebelar contra o habitual e dominante pensamento maniqueísta, a conviver com características complexas e organicamente opostas. A escutar e aceitar a polifonia do mundo: vozes, à primeira vista, irreconciliáveis. A trocar toscas certezas por infinitas dúvidas, porém vivificantes. A interpretar n personagens, como se reencarnasse n vezes. Pari passu, ia desfolhando a cebola até chegar ao miolo (qual?), ao que sou ou quero/posso ser. Ousava perguntar: preciso seguir a rota que me foi imposta? Satisfeita ao ver, sobretudo, como eu, viajante, me modificava durante a travessia: partia sendo uma e voltava sendo outra.

Apreciava habitar as entranhas monstruosas da fantasia. Tanto, que via mais verdade aí do que nos fatos, pessoas, relacionamentos. Crianças (suas brincadeiras), adolescentes (seus jogos), adultos (suas conversas), todos desinteressantes perto dessas viagens onde podia me soltar, soltar a imaginação – um exercício libertário por excelência. Parodiando Foucault: eu não condeno as pessoas à morte, simplesmente suponho que já estejam mortas. No mínimo, anestesiadas, em coma. Por outro lado, observo que o oposto da vida não é a morte, mas o medo. Viver é perigoso, poucos querem correr o risco de soltar as amarras, velas ao vento. Por que não reagir (ao menos) com arte às tragédias? Deveriam elas nos paralisar, bloquear nossa sensibilidade? Teríamos que nos curvar aos traumas que nos acometem? Rendermo-nos à afirmação de Adorno, segundo a qual escrever poesia após Auschwitz é obsceno?

O mínimo grau de dispersão ao ler era – e ainda é - motivo de riso. Certa vez, entretida nos Pequenos poemas em prosa, de Baudelaire, nem percebi que o cachorro de uma amiga, procurado à exaustão, tinha se instalado sob a minha poltrona. E quando um incêndio se alastrou numa casa de saúde próxima ao nosso prédio? Os vizinhos passaram a tarde assistindo a operação retira-doentes ser filmada pela tv, enquanto eu só fui ser informada do ocorrido à noite, pelo noticiário, lendo que estava, numa sentada, o Alienista, de Machado de Assis. Paixão não compartilhada, não compreendida: Larga esse livro, menina, vá brincar lá fora, tomar sol, fazer um esporte!...Vem ajudar aqui, já que você está à toa. (?) É trabalho escolar? Senão, pára pra fazer isso assim, assim... Trate de sair, ver gente, ir a festas! Rogo, até hoje, que respeitem meu jeito solitário de ser, sempre com um exemplar à mão (mesmo em trânsito), dois ou três iniciados na mesinha de cabeceira, e uma pilha deles, novinhos em folha, na estante.

Como seria de se esperar, sou ambivalente em relação a hóspedes. Aqui damos de beber e comer, mas não de dormir: sábio lema dos albergues que abrigam os peregrinos em Santiago de Compostela, ao longo do caminho. Apesar de curtir o ambiente aquecido pela conseqüente troca de afeto, pelos causos contados por quem nos visita, pelas novidades, fico indócil, escrava de polidas sociabilidades, ansiando pela alforria do tempo que, inutilmente, escoa. Tal qual uma bailarina se exercitando, necessito de muitas horas diárias para me dedicar ao mal de Montano do qual padeço, meu vício, desde o início. Mas afinal, pra que serve tanta literatura? Nenhuma finalidade ou intenção, puro ludismo. Embora não deixe de ser um ato de esperança, pois a fantasia é a sustentação do desejo, é ver a mais graciosa das mocinhas onde há apenas um atleta peludo, brincou Lacan. Nem divertissement, nem evasão – uma outra forma de examinar a condição humana.

Deixo-me afetar pelo que leio. Assim como Borges, sinto que as letras, esse espaço da biblioteca entre os significantes – locus diabolicamente divino, que tanto prazer proporciona – se impõem a mim como um sonho que, ao despertar, temos necessidade de verbalizar e associar a partir dele. Dialogo com o autor, em intensa e constante interlocução, por vezes exaltando-o (na maioria), por vezes corrigindo-o (que pretensão!) tal qual um escriba da Idade Média. Grifo palavras, sublinho expressões, trechos, faço anotações em suas margens. Gostava de lê-los para alguém depois, compartilhar meu Eldorado, mas nem sempre era bem-vinda. Além do mais, o ouvinte se liga se quiser, pára de acompanhar, pensa em outra coisa (pelo olhar ele se trai), se fixa mais em você, no seu jeito de ser, do que no que está sendo dito.

Desisti. Uma ilusão pensar poder passar aquilo que sentira lendo (a emoção) através da leitura em voz alta. Era um gesto desesperado, reconheço, para ressuscitar os zumbis. Como naquele ditado, eu apontava a lua e eles só viam o meu dedo. Se tanto. Recordo-me de um ensaio de Montaigne, onde ele fala que devemos morar num lugar com vista para um cemitério porque mantém as prioridades da vida em perspectiva. Pois bem, meu lar voltado para a ficção me fez prestar mais atenção à realidade. Interna e externa. E, muito cedo ainda, permitiu descobrir-me além de sujeito, mulher, esse conceito impermeável a todo saber que se produza a respeito.

Ana Guimarães

*Já publicado em http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2108

domingo, 14 de agosto de 2011

DEPOIS DA MORTE* - uma homenagem


Hoje é a terceira vez que venho ao apartamento depois da morte de meus pais, há quinze dias mais ou menos. Nas duas primeiras não tive tempo sequer de olhar com mais atenção ao redor, preocupada que estava em pegar documentos com urgência para procedimentos burocráticos da ocasião. Agora venho também atrás de mais alguns, só que vou procurá-los com calma, não tenho idéia de onde estejam nem estou afogada na pressa de encontrá-los. Na verdade, aproveito para saborear ecos do passado.

À luz de um abajur (a de cima, do lustre, queimou), tomo fôlego para embarcar nesse túnel do tempo, suportar as vertigens que me esperam ao me deparar com lembranças e reminiscências que povoam o espaço, hora solitária que não posso nem quero dividir com mais ninguém.

Da sala arrumada como se esperasse visitas, um inebriante e familiar cheiro de comida caseira sendo refogada na vizinhança quase me faz perguntar: o que é que vai ter pro jantar? Na cozinha, o silêncio. Tampa de fogão arriada. Tudo limpo como a faxineira deixou, só um pó fino que teima em penetrar pelas frestas das janelas e em tudo se depositar. O insistente e delicioso aroma que me invade as narinas transporta-me às delícias culinárias de minha mãe, nosso único ponto de identificação, mesmo assim tardio e com atritos: ela nunca se conformou com a invasão, senão superação de seus domínios pela filha mais afeita aos livros do que a qualquer outra coisa, que quando se casou nada sabia dessa prática e em pouco tempo a dominava, entregando-se de corpo e alma à culinária, fora os outros interesses que permaneceram.

Perco-me em memórias olfativas e gustativas que logo carreiam as visuais: o peixe frito da feira de 4ª feira, até hoje no mesmo lugar e no mesmo dia. Os incomparáveis bifes acebolados. O pernil de porco assado no Natal. O bacalhau da Páscoa. Sonhos polvilhados com açúcar e canela do lanche no meio da tarde. O imbatível bobó de camarão das festas de aniversário. Era uma cozinheira de mão cheia, daquelas que só sabem cozinhar com fartura, embora gostasse de alardear que era econômica porque considerava isso uma virtude e gostava de ser – ou de se pensar, ou ainda de ser vista como – virtuosa. E só usava ingredientes de qualidade, ficava doente quando dava sua receita a alguém e via esse alguém modificá-la, adulterá-la, visando um menor gasto.

Volto pelo corredor, com todo o barulho interno contrastando com o silêncio exterior, e no meu antigo quarto de solteira abro a escrivaninha com a fechadura emperrada, detendo-me em papéis que há muito não são mexidos. A poeira me faz espirrar sem parar. Um gaiato, de algum lugar, grita saúde. Respondo amém, rindo, em meio a mais espirros. De uma grande caixa amassada de papelão saem reclames os mais diversos, guardados não sei para que, os números de telefone ainda com sete algarismos. Meu convite de formatura, um santinho da primeira (e quase última) comunhão, uma tela desbotada, pintada por mim na aula de arte, uma tapeçaria não terminada, retratos em preto e branco. Na estante, minha coleção de Monteiro Lobato.

Empurrando com o dedo a porta apenas encostada, sinto-me como uma criança invadindo o quarto dos pais na sua ausência, violando sua intimidade. Quase posso me ver menina, brincando de mulher adulta, sapatos de salto alto, colares, batom vermelho borrado na boca infantil, bolsa maior do que eu (de couro de cobra morta na fazenda do meu avô), uma echarpe de plumas ainda não ecologicamente incorreta. Tudo isso está aqui, na minha frente, quieto, mudo, mas falando tanto!... remetem a um tempo até anterior a mim, quando só se ia ao centro – à cidade, como se dizia – de chapéu, luvas e meias finas. E de bonde. Era chic.

No armário de mamãe, entre cabides de soutache, velhos óculos de grau e uma pesada bola de marfim para cerzir meias descubro um baú cheio de cartas de amor de um para o outro. Jamais soube de sua existência, e minhas mãos se revestem de um respeito inimaginável ao tocá-las. Tamanho, que depois de ler o primeiro parágrafo da primeira resolvo fechá-la e ficar só – por enquanto – contemplando os envelopes sobrescritados. Aqui se trata da correspondência entre duas pessoas distintas, um homem e uma mulher, e não mais de meus pais. Recoloco com reverência o baú, como se fosse uma urna mortuária com cinzas dentro, no fundo da gaveta onde estava, como um tesouro escondido. Mais pra frente virei redescobri-lo. Não se pode viajar por vários países de uma só vez, a cabeça rodopia e você confunde tudo. Muita informação ao mesmo tempo.

Na cômoda de papai, apetrechos masculinos largados, com displicência, como se o dono fosse ali e já voltasse: um barbeador prateado em seu estojo original, com nota fiscal, garantia e instruções de uso. Um pente de osso. Uma velha câmera kodac em excelente estado. Moedas as mais diversas, num saquinho de feltro. Uma calçadeira e uma piteira. Dessa me lembro bem: um amigo a presenteara, recomendando que a usasse com freqüência para reduzir a assimilação das substâncias nocivas contidas no cigarro. E junto com elas o gosto, o prazer de fumar, brincava papai. E o que ele fazia? Era só o amigo chegar de surpresa (é, isso acontecia), e ele pegar a bendita piteira e aparecer na sala como quem não quer nada, fumando seu cigarrinho devidamente encamisado, quer dizer, protegido. Impostura? Fraude? Não. Mentira que dizia a verdade. Um agrado, um mimo ao amigo, que ficava superfeliz e agradecido, crente que fizera uma boa ação. Que o presente emplacara. Que fora de muita utilidade. E fora, só que de outro jeito, para diverti-lo.

Não, ele não queria ser poupado dos estragos do fumo. Da pulsão de morte agindo, desse gozo. Que acabara, inclusive, conduzindo-o a um enfisema pulmonar progressivo que o faria passar, mesmo sem mais fumar, os últimos anos de sua vida dependente de uma bala de oxigênio instalada à cabeceira da cama. E quando ficava algum tempo sem, era horrível. A boca aberta como um peixe fora d’água, se debatendo, tentando respirar, com a gente impotente à sua volta.

Abrindo o emperrado gavetão inferior, no meio de tantos postais por ele recebidos, sinto a pele arrepiar e rodopiar a cabeça, precisando sentar-me para ler um amarelado cartão, datado de priscas eras. Na frente, um desenho de uma criança com um bebê de proveta nas mãos. Dentro, os seguintes dizeres, com minha letra miúda: pai, já sei como se faz um filho! É só criá-lo com o mesmo amor com que você me criou. Feliz dia dos Pais, sua filha querida.

Ana Guimarães

*Já publicado em http://www.saldaterraluzdomundo.net/literatura_contos_.htm e http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=temdomes/2006/08/pai/tempro02.php&tipo=prosa





terça-feira, 9 de agosto de 2011

LONDRES ANTES DAS CHAMAS


Shakespeare, Virginia Woolf, Charles Dickens, Oscar Wilde, Lewis Carroll, Isaac Newton, Charles Darwin, Chaplin, Beatles, Fred Mercury, Mary Quant. Parodiando Woody Allen em Meia-noite em Paris, andar por Londres é esbarrar em personalidades inglesas de outras épocas sempre vivas na memória, para no final rendermos tributo ao presente ao constatarmos que a cidade, dona de irresistível charme, é uma metrópole moderna que soube resistir ao tempo, preservar seu incalculável legado histórico.

Heathrow é um senhor aeroporto: organização, atendimento e limpeza impecáveis. O metrô, detentor de um prêmio de design, eficiente. Os célebres ônibus de dois andares e as cabines telefônicas vermelhas, imperdíveis. Os tradicionais táxis pretos ultra-espaçosos valem uma corrida. Com um bom mapa nas mãos consegue-se caminhar sem tropeço nas ruas, mas lembre-se de que a mão é invertida, os carros andam pela esquerda, cuide de olhar nas duas direções antes de atravessar. Não deixe de conhecer a palpitante Oxford Street (com intenso comércio), as lendárias Baker Street (que abriga o museu Sherlock Holmes) e Abbey Road (onde o famoso quarteto posou para a capa do penúltimo disco da banda) e um lugar chamado Notting Hill, sua feira de antiguidades aos sábados.

Aos domingos, no Speaker’s Corner do Hyde Park, qualquer um em cima de um caixote pode fazer o discurso que quiser. Embora a maioria interprete como exercício de democracia, de liberdade de expressão parece que o costume remonta há séculos atrás quando prisioneiros sentenciados à morte proferiam suas últimas palavras antes de serem enforcados num patíbulo instalado nesse exato local.

Principais pontos turísticos: o Parlamento e seu relógio, o Big Ben, emblemático da cidade. A Torre de Londres. A ponte sobre o rio Tâmisa. A Catedral de St Paul. A Abadia de Westminster. A troca da guarda do Palácio de Buckingham, residência oficial da monarquia. A Tate Gallery. O museu de cera Madame Tussauds. London Eye (a roda-gigante). Trafalgar Square (a praça mais importante da City). Piccadilly Circus. Marisfield Garden, 20 (um ilustre endereço, a casa onde Freud viveu e trabalhou depois que, foragido, deixou Viena ocupada pelos nazistas). E o mais deslumbrante: o colossal acervo do museu Britânico, com preciosidades tais como a Rosetta Stone (a pedra a partir da qual Champollion traduziu os hieróglifos), a bíblia de Gutenberg (o primeiro livro impresso), a sala de leitura da Biblioteca (frequentada por Bernard Shaw, Lenin e outros notáveis) e vasta coleção de antiguidades gregas, egípcias e romanas (o espólio do império foi grande, até hoje fonte de atrito entre os governos que exigem a devolução das relíquias).

Diversos entretenimentos noturnos estão à disposição do visitante: ópera, balé, sinfônicas, grandes espetáculos teatrais. Se a obra de arte há muito deixou de ser só objeto de contemplação para tornar-se também motor de inquietude, perco-me nesse redemoinho de imagens, deixo-me inundar por uma chuva de impressões que logo sulcam e fertilizam todo o meu ser, culminando numa verdadeira experiência estética de abandono e pacificação.

Por fim vou às compras na Harrods, loja de departamentos com 90 mil metros quadrados de espaço de venda, cujo lema é Omnia Omnibus Ubique (todas as coisas, para todas as pessoas, em todo lugar). Dizem que a primeira escada rolante apareceu aqui, em 1898, e os clientes eram esperados no topo com uma bebida, para acalmá-los; o Food Hall é uma atração à parte. Aliás, contrariando o estereótipo, a gastronomia muito tem a oferecer: fish&ships, chá das cinco e pubs, típicas e deliciosas instituições inglesas. Os restaurantes étnicos também são dos melhores, sendo a comida indiana a mais popular entre as estrangeiras, talvez porque a Inglaterra seja a segunda pátria dos hindus. Aproveite.

Ana Guimarães

sábado, 30 de julho de 2011

POEMAS

FORÇA DE VONTADE

Força
se faz
para não se entregar
logo
(como o coração)
um seio
à mão
para que o aperte
muito
pouco
importa
que queira
ou não
apertá-lo
para sempre

Nesse limite
invisível
palpável
entre a intenção
e a contenção
da vontade
(pura hesitação)
vive-se

SEIS

Daria as vidas
que lhe restam
por minutos
em seus braços

Cinderela
sem queixume
à meia-noite
de volta pro borralho

Mulher-gato
retornaria, todo dia,
só pra lamber sua boca
de Batman

Cravaria o gatázio
em sua carne:
quem sabe alcançaria
um coração, no peito?

Pois quem gateia é ele
foge
negaceia
brinca de gato e rato

Diante disso
ela se contenta
em gatafunhar
seus escritos

VOCÊ E EU

não passamos
de fios
encaracolados
aos demais
não tecemos
mantas
agasalhos
sapatinhos
nem somos varais
estendidos
secando roupa
só nos enroscamos
e formamos
nós
quando muito juntos
como finos cordões
de ouro

Ana Guimarães

Já publicados aqui: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=1842

sábado, 23 de julho de 2011

ADIÇÃO

Todos os excessos são condenáveis, até mesmo os da abstinência (Voltaire)


Seus companheiros
de ilusão
quem são?

Com o que combate
o horror à solidão
e tenta esquecer
que não tem mais sonhos?

Como lidar com o real
cada vez mais
avassalador?

Ao mal estar
você soma
a dependência
de algum paraíso artificial?

Crê precisar
de subterfúgios
para criar?

Só assim
as portas da percepção vão se abrir
céu e inferno
se intercambiar?

O que a literatura pode
(meio ou fim)
significar?

De que modo atravessa
o crespo do seu sertão
esse deserto da alma:
o liso do Sussuarão?

Se embriaga
se entorpece
quando não consegue
dizer não?

Que veredas percorre
em busca da fantasia
de completude?

Diga-me onde te abasteces
e dir-te-ei
quem não és

Na boca de fumo?
Num Mc da vida? (a droga do junkie food)
Na farmácia?
No botequim?

O que o ajuda a encarar
a falta, o excesso
o lusco-fusco da alma
seu Diadorim?

Tal linha de fuga
que prazeres
proporciona?

Estados alterados lhe dão (ou tiram)
vontade de que?
Que tonalidades o mundo perde
ou adquire?

E depois, o que suas sábias vísceras
denunciam?
Espasmos de culpa ou remorso
revém?

Ana Guimarães

segunda-feira, 6 de junho de 2011

BRUXELAS

Pense numa linda praça. Pensou? Piazza San Marco, em Veneza? Plaza Mayor, em Madrid? Place de Vosges, em Paris? A Grand Place, também chamada de Grote Markt, em Bruxelas, proclamada patrimônio mundial da humanidade pela Unesco, em 1998 é a mais bonita do continente, Victor Hugo tinha razão. Assim que cheguei, parti para conhecê-la e não me decepcionei. Em minha estadia na capital da Bélgica, para lá ia todo dia, nem que fosse só para beber um café ou degustar uma cerveja Du Vell, mais forte do que as que estamos acostumados a tomar no Brasil, devido ao seu alto teor alcoólico (as produzidas por seis mosteiros trapistas também são especiais) com as célebres patats frites embaladas em um cone de papel. Exuberantes prédios antigos de estilo barroco em perfeito estado de conservação resplandecem ao sol, extasiando os visitantes. Mercadores, artesãos e ourives foram seus proprietários, competindo entre si construindo fachadas decoradas em ouro, um verdadeiro esplendor. No século XII ela era o centro político e econômico da cidade, hoje ainda abriga órgãos do governo, museus e lojas. À noite ferve, com apresentações culturais e shows de luzes e música. Já o Manneken-pis, a cem metros daí, não justifica a fama: trata-se de uma pequena estátua de bronze de um menino urinando, datada de 1619 (no Mourisco, no Rio, há o Manequinho, certamente nele inspirado, maior e bem mais expressivo).
Era fim de junho, o tempo estável e a temperatura amena, estimulando passeios a pé (com calçados confortáveis para andar em ruas com paralelepípedos). No início as placas confundem um pouco por causa dos dois idiomas utilizados, o francês e o flamengo, mas depois você se acostuma e outras belezas podem ser apreciadas. A Cathedrale Saint-Michel, em estilo gótico. O Atomium, planejado para a Expo 58, sobreviveu tornando-se visita obrigatória, um símbolo nacional. O Mini-Europe, um parque com miniaturas dos pontos turísticos mais famosos do mundo. O Royal Museum of Fine Arts e o Royal Palais. A Place Grand-Sablon. Murais com quadrinhos são encontrados em vários quarteirões, fazem parte da cultura belga, mas o museu dedicado a eles, a 30 quilômetros, na vizinha Louvain-la-Neuve, vale uma visita. Quem não conhece Tintin, desenho em quadrinhos criado por Georges Remi, mais conhecido como Hergé, um trocadilho com as iniciais do seu nome, considerado o Walt Disney europeu? O herói Asterix, dos gibis da minha infância, também é originário daqui.
Maravilha gastronômica, a Rue de Boucheurs é muito freqüentada graças aos excelentes restaurantes; mexilhões pescados no mar do Norte são a especialidade do lugar. Outro alimento típico, ideal para um lanche, é o waffle (originalmente produzido como hóstia, para missa), mais volumoso e macio do que o tradicional por ser muitas vezes fermentado, assim me explicaram. E o chocolate é um capítulo à parte, trazido pelos espanhóis quando estavam sob o domínio dos Habsburgos e depois aperfeiçoado quando o cacau era transportado da colônia africana Congo Belga; deliciosos são os pralines (recheados).
Não deixe de ir a Bruges, cidade medieval, em seus primórdios com poderosa indústria têxtil e fértil contato comercial com a Inglaterra. Reza a lenda que no fim do século XV chegou a ter o dobro dos habitantes de Londres, porém o canal que a conectava ao mar estrangulou, deixando-a isolada, paralisando-a por mais ou menos quatrocentos anos. Os guias contam a seguinte história: turistas ingleses começaram a chegar depois de Waterloo, (ali perto, onde Napoleão perdeu a guerra, lembra?) e depois também que um romance foi publicado (Bruges, a morta). Tudo isso acabou por ressuscitar o turismo que a movimenta até hoje.
Um intelectual quando ouve falar em charuto, pensa em Freud. Quando ouve “cachimbo” pensa no surrealista Renée Magritte, pintor belga cuja tela-ícone é de um cachimbo com a inscrição “isso não é um cachimbo”, lembrando que não se trata de um cachimbo real e sim de sua representação. Ele salientava que não importa o quão perto a arte realista chegue, nunca alcança a coisa propriamente dita. “As pessoas que procuram significados simbólicos não conseguem captar a poética e o mistério inerentes à imagem. Ao perguntar ‘O que isso significa?’, elas expressam o desejo de que tudo seja compreensível”. Quem quiser procurar, o quadro se chama A traição das imagens. E a quem interessar possa, a taverna Greenwich é uma parada obrigatória, ele costumava frequentar o local para jogar xadrez. No Musée d’Art Modern encontra-se a extensa coleção de obras do pintor.
Uma homenagem a um dos meus artistas preferidos, mais especificamente à minha pintura favorita, denominada O Filho do Homem:

O FILHO DO HOMEM

Conserva alguma lucidez
– só alguma –
na hora de criar

não te queixes de condições adversas
elas são um bom fermento
e a liberdade
o único fanatismo permitido

mima a tua loucura
não encarcerada:
o filho do homem
(veio para nos salvar)

para que ela te renda bons frutos
tapa a boca
de todo controle exercido pela razão

Ana Guimarães

domingo, 1 de maio de 2011

NOME DO PAI

Um pai – disse Stephen, batalhando contra a desesperança – é um mal necessário.
(Joyce - Ulisses)

Em que a arte pode desmanchar o que se impõe pelo sintoma?
(Lacan - Seminário James Joyce, o Sintoma)

Não me falte, senão enlouqueço. Preciso de um corte. De barreira que me segure. De fronteira, pra cruzar. Limite, pra transgredir. Regra, pra fazer exceção. Necessito de um nó pra me sustentar, do contrário descosturo. De um ponto de basta pra por termo a tanto revirão. De lei, que determina o desejo: foi proibido, eu quero. Dela me sirvo pra não ficar à deriva. Minha âncora, quando desgarrado.
Deixo-me interrogar, uma vez que a ignorância tem um preço e é alto. Entrego-me a essa dolor, douleur, pain. Ela resulta de estímulos pulsionais que irrompem na mente, atestando o fracasso das instâncias protetoras, só isso. Tudo isso, quando dói, e é quase sempre. Dor também é desafio, em espanhol: duelo, derivado do latim: duelum. Se parece que não agüentamos mais é porque aí está quente, estamos perto de algo que nos concerne, de um lugar sensível qualquer, nevrálgico, ali onde o Real nos reclama se lhe damos dignidade de chamada e ousamos responder. Se assim não for ele fica solto, e com o imaginário longe periga correr fora do enlace da palavra. Sem sutura. Sem sentido.
Você não veio, eu escrevo. Produzo meu próprio nome. Teço ali onde o tecido está esgarçado, cirzo. As linhas arrancadas da carne, feito Bispo do Rosário que desfazia o uniforme para com os fios coser o seu manto. Estou nu. Despi um santo ego para vestir outro, de autor, pois apontar toda a verdade não equivale a bem dizê-la, como se pensa, ao contrário, dessa forma ela está mal dita. Maldita! Ela tem que ser parcial para ser bem-dita, senão é o caos, suporto até certo ponto, a partir daí me desestruturo.
Éramos bestas, e a evolução (o sopro divino) – com a dádiva da construção do pensamento e seu corolário, a linguagem – nos humanizou. Resta, porém, um gap entre enunciado e enunciação. Penso, "logro sou" é a crítica ao cogito de Descartes, esse engano. Somos sujeitos letrados, mas a letra é quem nos soletra. Tive que traçar muita leitura pra saber, ao menos, quem não sou. Quem sou sigo (des)cobrindo pela vida afora, cada texto re-vela (vela de novo) minha identidade, ao mesmo tempo em que a expõe, em diferentes escritas de imagem. Num constante endereçamento a um outro ausente, faltoso, ainda que presente.
Escrevim. Vim, vi e escrevi. Só assim venci: através da literatura, artifício que compensa aquela falha, suplência à falta do nome-do-pai, ao seu rateio. Trançado graças ao qual não sucumbo. Um achado, onde me encontro e me autor’izo por mim mesmo. Laço finalmente dado. Simbolização alcançada ainda que tardia e fadada ao insucesso, já que escrever é um ato impossível. O que não impede que se continue tentando, como Beckett: Fail. Fail again. Fail better.

Ana Guimarães

Texto já publicado em: http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=2506

domingo, 17 de abril de 2011

AMSTERDAM

AMSTERDAM
O pintor persegue a linha e a cor, mas sua meta é a Poesia. (Rembrandt)

Embora a Holanda esteja mais associada a tulipas, moinhos de vento, tamancos e ao delicioso queijo lá produzido, jurei conhecer Amsterdam no dia em que li Anne Frank, o Diário de uma jovem, escrito por uma garota judia da minha idade no tempo em que ficou escondida junto com a família para não ser deportada para os campos de concentração da Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, cá estou eu, nem acredito, na capital e maior cidade dos Países Baixos! Seu nome é derivado de uma represa (dam) no rio Amstel.
A chegada foi no aeroporto de Schipol, cujas pistas ficam a cerca de cinco metros abaixo do nível do mar. Sua funcionalidade se traduz no trem que o liga à Estação Central, construída numa ilha artificial. Saindo daí, olhando-se de frente, o traçado da cidade é feito por cinco semicírculos concêntricos de canais por onde se navega (algumas embarcações servem como moradia). Podem ser vistas elegantes mansões bem preservadas que ricos mercadores construíram às suas margens, na época de ouro para esse porto considerado o mais próspero do mundo, no século XVII.
A dica de um amigo foi valiosa: hospedagem no pequeno e simpático Leidse Square Hotel, localizado em uma tranqüila zona residencial a poucos metros das principais atrações, leia-se museus, pois aqui é o país com o maior número deles por metro quadrado do planeta, dois de reconhecimento internacional: o Rijksmuseum e o Vicent Van Gogh Museum.
O primeiro, fundado em 1808, exibe, além de obras de grandes mestres da pintura como Rembrandt, Vermeer e outros, uma vasta coleção de esculturas, gravuras, desenhos, móveis, cerâmicas e antiguidades. O segundo, com o maior acervo de Van Gogh, apresenta por ordem cronológica e temática os períodos holandês e francês (o estilo sombrio das telas do início gradualmente substituído por pinceladas de cores vibrantes), além de trabalhos de artistas que tanto o influenciaram quanto foram influenciados por ele.
Para os amantes das belas-artes um terceiro é imperdível: o Rembrandt, numa casa restaurada, onde o pintor viveu. As águas-fortes – desenvolvidas por quem pensava a gravura como meio artístico independente, ao qual dedicou anos de experimentação – e os numerosos auto-retratos valem cada hora despendida.
Com reverência e emoção contida chego ao museu administrado pela Fundação Anne Frank, uma organização que combate o anti-semitismo, o fascismo e o nazismo. Percorro o espaço onde exposições em áudio e vídeo, com fones em várias línguas, revelam os detalhes da história. Vejo com os meus próprios olhos, agora em lágrimas, o refúgio onde a menina escreveu o diário (é possível ver os originais), a crônica da perseguição aos judeus por Hitler: uma falsa estante dava acesso ao pequeno cômodo onde ela e a família se escondiam até que foram encontrados, em 4 de agosto de 1944, presos e enviados a Auschwitz; só seu pai sobreviveria para publicá-lo (o livro foi traduzido para mais de cinqüenta idiomas).
Sonho realizado, parto para novas conquistas. Visito a badalada Dam Square (antigamente os pescadores vinham negociar produtos, hoje é um agitado cruzamento). Caminho pelo Begijnhof (um pátio cercado por casas antigas). Compro souvenires na Kalverstraat (a rua para pedestres). Faço um piquenique no Vondelpark (49 hectares de área). Passeio de barco para apreciar a arquitetura dos armazéns e residências com as características fachadas estreitas (há atracadouros por todo lado, placas indicam os horários das excursões). Relembro meu tempo de criança no Rio, andando de bonde. Degusto uma de minhas cervejas preferidas, a Heineken (sob explicações detalhadas sobre o processo de fermentação, nas instalações da fábrica e no museu dedicado a ela). Perco-me nas ruelas do Jordaan (outrora povoado pela classe trabalhadora, nos anos 70 tomado por estudantes e artistas). Rendo-me à beleza das tulipas de todas as cores.
Come-se muito bem em qualquer estabelecimento, inclusive, se tiver pressa, nas ruas, em carrinhos ambulantes. O turista encontra pratos que cobrem quase todas as geografias, mas a comida Indonésia parece ser a dominante (prove um jantar rijstaffel, com mais de vinte pratos diferentes bem temperados e servidos em pequenas tigelas). Se gostar de doces, peça como sobremesa poffertjes (panquequinhas) ou oelie bols (sonhos) com os mais diversos recheios e coberturas.
Não busquei conhecer o processo de lapidação de diamantes. Não fui a nenhum café marrom (assim chamado pela cor das paredes por causa do fumo em seu ambiente; o consumo de cannabis, a popular maconha, é legalizado em lugares credenciados) nem ao bairro da luz vermelha (onde mulheres ficam expostas em vitrines, para prostituição). Não pedalei (as bicicletas são o meio de transporte favorito dos cidadãos, e, cuidado, elas tem preferência). Mas se você se interessa por algum desses itens, será fácil encontrar o que procura.
Por fim, aceitei um convite para desfrutar de uma visita à pitoresca zona rural, Zaanse Schans, linda vila a 24 quilômetros ao norte de Amsterdam, onde se pode observar o lado tradicional do país: vacas no pasto, moinhos (é permitido conhecê-los por dentro, se assim desejar) e fábricas mostrando o passo a passo da confecção dos famosos tamancos. Seus habitantes vestem ainda o traje nacional. Mais à frente, Volendam, pequeno vilarejo com colorido casario histórico de madeira, à margem do maior lago holandês, o Ijselmeer, procurado por velejadores e praticantes de pescaria.
O vento constante que sopra desde que cheguei já apagou qualquer rastro de solidão, e não há lamento que tenha resistido. Ressuscito a alegria, canto o meu contentamento. Abraço estranhos. Dou informações recém-adquiridas com a maior paciência, ludicamente, até. Por tudo isso, constato, ao menos em parte, a sabedoria do conhecido ditado: Em Rotterdam, trabalha-se; em Haia, governa-se; em Amsterdam, vive-se.

Ana Guimarães

quarta-feira, 30 de março de 2011

VOCÊ JÁ FOI A PARIS, NÊGA? NÃO? ENTÃO VÁ.

Placa no lado direito da parede exterior da Livraria Shakespeare&Company, com um dos versos mais famosos do poeta

Viajar é como ler, sempre nos acena com promessas de mudança de ponto de vista. Sobre o outro, sobre nós mesmos. Aumenta a tolerância com o diferente. Demove estratificações de mitos. Derruba preconceitos tão tenazes quanto ocultos. Restabelece a pluralidade do ser. Porém, mal começo a organizar as recordações de Paris em forma de narrativa hesito diante da questão que me acossa: você tem coragem? Será que o fato de tê-la visitado em duas ocasiões apenas a autoriza a escrever sobre uma cidade desse porte, dessa importância?
Sim, não tardo em responder, porque ela é como a escrita de Joyce: ninguém pode dizer que a conhece, no máximo consegue-se captar alguns traços característicos e se deixar impregnar, enfeitiçar, surpreender. No máximo, posso falar da ‘minha’ Cidade Luz (assim chamada por sua efervescência durante o Iluminismo). Mesmo amparada em depoimentos de viajantes que me antecederam, em fotos, filmes, livros que poderiam passar uma ilusão de verdade, de exatidão fiz a castração do saber e aceito que o desejo de total conhecimento está condenado ao fracasso. Uno cree conocer París, pero no hay tal; hay rincones, calles que uno podría explorar el día entero, y más aún de noche (Julio Cortazar, em Rayuela).
Às vésperas da primeira ida à charmosa capital, refletia: o estudo de mais de sete anos de francês, nunca mais exercitado, serviria para alguma coisa? Sempre que estou em lugares cuja língua não domino, logo que surge uma dúvida pergunto se o interlocutor fala inglês (um pouco menos enferrujado), mas disseram-me que isso seria considerado ofensivo pelos parisienses, cuja fama já é de antipáticos e impacientes com estrangeiros. Não foi o que vivi, ao contrário, quando o tatibitate me traía esforços não pareciam ser poupados para que eu fosse bem compreendida e atendida.
Tanto vindo de trem de Londres por debaixo do canal da Mancha, o Eurostar, quanto pousando no Aeroporto Charles de Gaulle, num vôo de Bruxelas, confusa, rodopio como um pião, contudo ambos os locais mantém pequenos escritórios de informação que auxiliam os turistas. Entre janeiro (pleno inverno) e início de julho (quase verão) uma grande diferença, com vantagem para a temporada com termômetros em torno dos cinco graus. Como diz o alemão, nunca está frio demais, você é que não está bem agasalhado. Temos que nos embalsamar como múmias, mas o investimento compensa: menos filas, atendimento qualificado, ambientes devidamente climatizados.
Em 2000 hospedei-me na Place de la Republique, o que resultou em deliciosos jantares ali no Leon de Bruxelas. Em 2005, na Place de la Madeleine, da igreja com o mesmo nome e da Fauchon. À porta dessa outra perdição gastronômica, na manhã da chegada, cruzo com ilustre escritor carioca. Un encuentro casual es lo menos casual en nuestras vida (Cortazar). Vendo nossos calçados imundos pela chuva que caía, lembro-me de fragmentos de um texto seu, O suor e a lágrima: “... Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão”. Sem pensar, o interpelo como se nos conhecêssemos: Cony, você por aqui? E ele, mesmo surpreso, responde afetuoso, apertando-me a mão, sinalizando o guarda-chuva: oui, en Paris, sous le parapluie! A epifania de um breve instante. Instantâneo que não empalidece com o tempo. Cada um pro seu lado, mas colhi a flor daquele encontro fortuito como bom agouro da minha estadia.
No mapa oferecido na recepção do hotel, o layout da cidade mostra arrondissements (bairros) marcados de 1 a 20, no formato de uma espiral, começando pelo centro velho em torno do Louvre. É pra lá que eu sigo. A entrada, uma enorme pirâmide de vidro de design arrojado (desenhada pelo arquiteto chinês I. M. Pey, projeto aprovado pelo então presidente Miterrand e realizado em 1989) não se choca com as clássicas linhas de sua arquitetura. Quer você privilegie trabalhos, autores ou períodos quer apenas aja como flanêur, passeando nas galerias, o esplendor é o mesmo (a Mona Lisa, a Vênus de Milo e as antiguidades do Egito acenaram-me, nas duas vezes em que lá estive, para conferi-las). Fique o tempo que puder. Volte, se assim desejar, nunca é demais (diz-se que se a gente permanecer cinco minutos apreciando cada obra desde o momento da abertura até o horário do fechamento precisará de dez anos para ver tudo). Saindo, encontra-se o Jardin des Tuileries, assim denominado pela terra argilosa usada para fabricar telhas, tuiles. O entardecer aí é extraordinário, o olhar quase não suporta o impacto dessa visão.
Mais três museus devem ser incluídos em qualquer itinerário: o d’Orsay (situado numa antiga estação ferroviária, contém uma extraordinária coleção de arte da segunda metade do século XIX), o Picasso (numa belíssima mansão que abriga o maior acervo do artista) e o Rodin (além de O Pensador, várias obras-primas do mestre e de Camille Claudel, sua discípula nas artes e no amor; o jardim das esculturas é lindo e propicia boas fotos).
Seus principais ícones são: Torre Eiffel, construída para a Feira Mundial de 1889, acabou tornando-se o símbolo de Paris. Arco do Triunfo, monumento dedicado a Napoleão. Catedral de Notre-Dame, imponência gótica erguida numa época em que a maioria da população era analfabeta, conta histórias bíblicas através de seus portais, pinturas e vitrais. Sainte Chapelle, não perca a chapelle haute (capela superior): cenas do Velho e do Novo Testamento são retratadas em quinze janelas de vitrais. Basílica de Sacre-Coeur, no topo de uma escadaria ou, se preferir, vá de funiculaire, a vista é soberba; no em torno há exposições de pintores e caricaturistas. Centre Pompidou, de linhas arrojadas: o exterior coberto de um emaranhado de tubos coloridos e escadas rolantes que levam de um andar a outro. O rio Sena, por onde se pode navegar de bateaux mouche ou descansar em suas margens.
Outras atrações: o Cemitério de Père-Lachaise (Chopin, Oscar Wilde e Isadora Duncan, embora aqui não tenham nascido foram enterrados ao lado de Molière, Proust e Edith Piaf). O Panthéon (encomendado por Luis XV após recuperar-se de grave doença, em tributo à Santa Genoveva, padroeira de Paris) também abriga os túmulos de Voltaire, Rousseau e Zola. Conciergerie (uma prisão durante a Revolução Francesa; Maria Antonieta esteve aí detida). Hotel des Invalides (hospital e residência para os feridos de guerra, hoje comporta vários escritórios e um museu que expõe toda a parafernália militar). Les Egouts de Paris (os esgotos: há quem goste de apreciar essa maravilhosa obra de engenharia).
Vagabunda andarilha, caminho sem cessar por ruas, passeios cobertos, praças, parques e bairros e, incrível, são eles que me deixam suas pegadas. Parodiando Mario de Andrade, adoçam-me que nem verso de Rilke. Place de la Concorde. Champs-Elysées. Boulevard Saint-Germain. Place de Vosges (a mais antiga e a mais bonita, com a singela casa número seis, onde morou Victor-Hugo). Parque Bois de Bologne (no passado, floresta e reserva de caça da realeza). Quartier Latin. Marais. St-Germain-des-Près. Montmartre. Jardin du Luxemburg (o preferido das crianças). Place Vendome (um dos endereços mais sofisticados, com o hotel Ritz e lojas de grife). Se quiser compras mais econômicas procure Galeries Lafayette, La Samaritaine, Printemps ou ainda visite o Marché aux Puces (mercado de pulgas).
Os aficionados por literatura tem de marcar ponto na Livraria Shakespeare&Company, outrora freqüentada por Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein e outros eruditos; no comando de Sylvia Beach foi responsável pela primeira edição do Ulysses, de James Joyce.
Na Comédie Française clássicos são encenados. Se gostar de ópera: Bastille é seu principal palco. Um tanto decadentes, cujos dias de glória lá se vão, mas ainda há quem não perca seus espetáculos: Lido, Folies Bergère e Moulin Rouge.
Nos arredores, a 23 quilômetros de Paris encontra-se o Château Versailles, palácio edificado por Luis XIV, o Rei-Sol, patrimônio mundial da Unesco, com seu famoso Hall dos Espelhos, local em que foi assinado o acordo para o fim da segunda guerra mundial. Prepare-se para um dia inteiro de visita, guiada, de preferência.
Cidade-sedução. Histórica. Romântica. Sua graça, beleza e mistério penetram nos catres mais escuros do meu ser, iluminando-os. É “voltar aos dezessete anos, depois de viver um século”, como cantava Mercedes Sosa a composição de Violeta Parra. Razão e sensibilidade juntos muito podem: transpassa-me a ilusão de paz e completude. Canto, desde então.

Sem a melancolia dos instantes perfeitos
sem os rios de luz colorindo os cristais,
sem a agonia luminosa do fugaz
é impossível cantar
(Bruno Tolentino)

Ana Guimarães

quinta-feira, 24 de março de 2011

O ESCRITOR E O KAXINAWA

O que faz, afinal, um escritor quando escreve?
Um kaxinawa, tribo do Alto Rio Purus, na Amazônia, quando faz um desenho no próprio corpo é um agente produzindo outro sujeito. Mediado por imagens gráficas, outro kaxinawa surge no ritual de passagem de criança para adulto, via contornos mais finos e delicados, diferentes dos traços grossos que antes o adornavam - assim registram etnógrafos que estudam esses índios.
Mesmo não sendo considerado de bom tom explicar o que se passa na cabeça de alguém se ele não se deitou no nosso divã, já nos advertia Lacan ao estudar Joyce e sua obra, pois só temos acesso ao que sobra do ato criativo, a produção final, os restos, as ruínas que tombam na folha em branco, sabemos que um escritor quando escreve sai de uma protetora estagnação estéril em que estava imerso para lamber, sem risco de vida (ou de morte, como modernamente se diz), a total falta de fixidez que o ameaça; o meio-termo é a escrita, fronteira entre sanidade e sandice.
Libertador parto sem dor, mas também carícia sem toque, um abraço em quem não pode mais ser abraçado. Aí, indivíduo e autor realizam trocas com relativa segurança em seus respectivos lugares, o que era antes e o que passa a ser durante e depois se interpenetram, à total anarquia sucede uma temporária organização: o “desenho verdadeiro” começa a ser delineado.
O que parecia só tautológico (O que faz um escritor? Escreve, ora!), é mais: o escritor se escreve e se inscreve no mundo. Linha por linha, alinha o que lhe parece/soa desalinhado, na nova leitura de si. Ao contrário do detetive, nada procura: acha, se encontra.
Na voluntária óbvia primeira pessoa (aí talvez seja aonde ele menos se revela) ou refugiado no aparente distanciamento da(o) terceira(o), ele, ainda que de maneira inconsciente, sensível aos ruídos internos, ainda que em atenção flutuante (a escuta atenta, objetiva é surda), desova suas dores, exorciza o horror pelo qual se sente atraído, seu lado b, aquele insalubre da vida, do que poderia ser, mas não é.
Sem esquecer a multiplicidade de vozes que perfazem o seu território cultural, até porque elas que o constituíram, primordialmente. Embora alguns pensem que produzem efeito sem causa, que criam do nada!... (Essa, muitas vezes, costuma ser sua teimosa versão). Quanto mais racional, mais ‘profissional’: mais pesquisas, projetos, roteiros, e nobres influências declaradas fixam residência em suas letras. Não adianta: um romance é o mais autobiográfico dos textos (Madame Bovary c’est moi, dizia Flaubert). Sem correspondência linear, não confundir, apenas cartografia peculiar de outras trajetórias possíveis.
Eis um depoimento contemporâneo: em entrevista recente, à pergunta O que existe do protagonista em Silviano Santiago, ele assim respondeu: "Tudo e nada. Se eu descrever o personagem por substantivos abstratos (sedutor, ambicioso, perdulário, canalha, etc.), tudo. Se descrever o personagem pelas ações concretas que ele vivencia no romance, praticamente nada. Ficção é o salto do abstrato da experiência para o concreto da trama romanesca. Entre um e outro, a imaginação em delírio”.

“Quem aceita frustração, espera. Quem espera, pensa, Quem pensa, sente. Quem sente, vive o tempo e sabe que ele está passando, portanto, fica mais velho” (O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda). A literatura enganaria o tempo ou, ao contrário, por fazer as pessoas pensar as faria envelhecer de fato?

Ana Guimarães

quarta-feira, 16 de março de 2011

NUM PISCAR DE OLHOS

Sagitário, seu verbo é ver, me informa a astróloga de plantão sem que eu nada pergunte ou informe, em pleno elevador comercial vazio, só ela e eu. Você enxerga as coisas de longe, como uma águia, com precisão. Cuide da responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam, como Saramago observou em Ensaio sobre a cegueira. E continua, bla-bla-bla.
Um insight e começo a divagar. Perco-me numa sucessão de reflexões e associações-livres de sentido contrário: preciso é exercitar o não ver. Usar mais as pálpebras que quando baixadas servem para a não visão, tão essencial quanto o próprio sentido. Não escurecemos um cômodo para dormir? Relaxar? Meditar? Revelar fotos? Para confessar, na penumbra do confessionário? Não sonhamos dentro das brumas do sono? Não precisamos do contraste do chiaroscuro para definir, conceituar?
Ver menos significa ser menos amargo, menos crítico, menos observador da realidade do mundo para melhor suportá-la. Compreender menos e aceitar mais. A visão excessiva mata os afetos incipientes, acaba com a poesia, com a ilusão. Cria céticos, cínicos, pessimistas. Tem coisa melhor do que acreditar piamente em alguém? Entrar nos relacionamentos às escuras, sem idéias preconcebidas? Arriscar se enganar inclusive, ser ingênuo, morder a isca, sem se importar em ser fisgado, em ser pescado. Cair como um patinho. Cair no conto do vigário. O conto já não é uma ficção? E o que é a vida senão uma sucessão de ficções, de versões, oficiais ou não?
Que mania de verdade! Dela só se pode chegar perto, bordeá-la talvez, e novamente, pelo escuso, pelo sombrio, pelo pouco inteligível. Através do negativo, do engano, da mentira. Deixar-se guiar de olhos fechados, não é assim com a justiça? A fé também não é cega, não é o que se diz? Olhar só na justa medida para desculpar, perdoar, abençoar. O bom olhado, aquele que engorda. Olhar em demasia afasta, separa, é artificial. Olhando pouco, modifico e sou modificada. Não de fora, de dentro. Influenciando, sendo influenciada. Enovelada naquilo que observo.
Melhor ainda trocar a voz do verbo, de ativo para passivo: ser vista, me expor sem medo do ridículo, aceitar ser tola aos olhos alheios. E aprender com quem me olha, às vezes torto, com quem não gosta de mim. Com quem critica, aponta, vê algo de que talvez precise me conscientizar. Se o mantiver à distancia, o ignorar, perco essa chance de clarear o horizonte com a lanterna tão fundamental do olhar do outro, do diferente. Porque o igual, o conhecido, o amigável é a paralisia. O dejà-vu. A morte.

Ana Guimarães

quarta-feira, 9 de março de 2011

CINZAS

Quando o dia
parecia um deserto
e à noite
desperto
esperando
em caravana seguia
você chegou
trazendo folia
música
fantasia
lançando perfume
às minhas cinzas
que rubras ficavam
e renasciam
O carnaval acabou
seu bloco passou, se foi
deixei de brincar
e me pus a dormir
para não mais sonhar

Ana Guimarães

sexta-feira, 4 de março de 2011

SAMBA-ENREDO*

Tantos abraços abracei
(hoje me quedo a lembrar)
poucos carinhos refutei
amor foi mesmo feito pra se dar

ano após ano me envolvi
sempre com mais alguém
meu coração só entende de adição
divisão não, de visão sim

sempre visionário
São Tomé ao contrário:
crer pra ver tudo acontecer
o que sonho logo realizo, fazer o que?

antes que a morte surja mascarada
num de seus disfarces infinitos
mais fantasias terei eu criado
pra brincar na folia dessa vida
muito carnaval terei pulado
entre a porta de entrada e a de saída

Ana Guimarães

*Já publicado em imperdível edição pelo portal Cronópios, confiram: http://www.cronopios.com.br/carnaval/

sábado, 26 de fevereiro de 2011

COISA DE LOUCO*

Escrever é uma maluquice. Quem – senão um louco – pegaria numa pena (ou num teclado) e criaria outro mundo ao invés de se adaptar a esse já criado? Criado desse imundo, não! Subalterno de imposições, nunca! Quando se é exilado de si mesmo parte-se logo para outras praias, as do desterro da ficção. Ou não. De todo modo, não se trata de qualquer tipo de escrita, evidentemente, mas daquela que tem valor de escritura do traço que marcou primordialmente o sujeito. De uma autoria. E, conseqüentemente, do gozo obtido com isso. Escrevo para me estabilizar. Meus personagens são vis para que eu não precise sê-lo.

A literatura é uma tampa de ralo de banheira que se coloca, rapidamente, para que a água não escoe toda e deixe a gente a seco, nu, tremendo de frio, com a sensação de que o líquido amniótico se foi, escorreu (não se diz que o tampão se rompeu?) e o parto começou: vamos ter que respirar por conta própria, pagar essa conta, o ar entrando, queimando os pulmões. Sangue, suor e (ainda por cima) sem cerveja. Sem ser, veja. Dor. Separação.

É uma rolha que tampona o buraco que é sempre mais embaixo – ou acima, não importa. O que há é que não se consegue determinar o lugar, seu espaço, seu diâmetro, o que se sente é a espessura de sua borda. É um risco que se borda (e se corre), que se segue, de um bordado, uma abordagem, no máximo. Um recorte num mapa, litoral. Literalmente. Sempre mente, só aí se chega (próximo, e olhe lá) à verdade: pela mentira. Literariamente também. E principalmente. É quando mais se mente: pela letra, essa inscrição de nossa mentira primeira, a fantasia. Literatura não é isso? Ilusão. Elisão da verdade. Qual? Essa. Todas. Que a vida não tem sentido, não tem objeto, não tem closura, boa forma, gestalt. A relação sexual não há, nada de metade da maçã, nem nirvana. Só uma banda, de cada lado: você pra lá eu pra cá, até quarta-feira.

E se não há nada que tampone esse furo, essa falta, nada que sossegue o leão, o facho, acho, então deveria servir literalmente (de novo) tudo. Mas nem com isso me satisfaço, com esse desfilar metonímico de objetos na cadeia significante. Que situação, que prisão, eu não! Prefiro a liberdade do criar. Do pensar. Do re-significar. Do inventar. Uma outra vida, mesmo que seja só no papel.

Domingo era dia de pescaria. Hoje em dia, é dia de virtual. Todo dia era dia de índio, agora, de aldeia global. Sem pajé. Falo de Internet. O falo da Internet. A Internet como falo. (Como falo, putz, pareço uma matraca!) Cair na rede (como peixe) pra não se sentir muito solto. Algo que dê lastro a essa insuportável leveza do ser. Domingo é dia nacional, internacional, cósmico de angústia, como se sabe. Se como – mastigando ou só engolindo – o ‘se sabe’ fico com o saber que angustia, esse despertar para a possibilidade de liberdade. Sem a prisão do trabalho, do estudo, de (alguns dos) relacionamentos obrigatórios. Com a soltura do tempo escorrido. Da alforria. E, tal qual um escravo, não sei o que fazer com isso. Ainda. Sempre. Nunca. Dá um vazio...

Igual a Adão e Eva depois da expulsão do paraíso. Por isso a gente vive dizendo: Para iso. Digo, para isso que eu quero descer, tá muito estressante, me arranja um calmante, porque sem a cachaça ninguém segura esse rojão. Isso é livre-arbítrio. Não quis provar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? Decidir? Optar? Quem mandou? Agora agüente. Melhor quando se era criança, tutelado. Ou pra quem acredita em horóscopo, tarot, búzios, vidente: tudo determinado. Previamente. Viu? O prévia também mente, mas me engana que eu gosto. E preciso. De controle. De conclusão. De limite. De fim, da história.

Ana Guimarães

*Texto publicado em Germina Literatura: http://www.germinaliteratura.com.br/ana_guimaraes.htm

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O CORPO É A ALMA

Cabana de um curandeiro Zulu em estilo colméia no horto de plantas medicinais (muthi) do Jardim Botânico Nacional da Cidade de Natal.

Conta-se que, entre os zulus, os entes queridos de um enfermo compreendem e aceitam que não podem pedir ao curandeiro da tribo que expulse o espírito portador da doença, pois ele traz uma mensagem e recusar-se a recebê-la pode fazer com que a pessoa permaneça doente pelo resto da vida. Do mesmo modo, entre os psicanalistas há um consenso segundo o qual um sintoma jamais deve ser abolido, calado através de medicação (seja ela ansiolítica, antidepressiva, pró-libido, indutora do sono, etc), porque se considera que ele não se reduz a um mero processo fisiológico, não é algo indesejável a ser combatido e sim o primeiro passo na direção da cura. É preciso que se reconheça o seu significado, o que sinaliza. Falar dele claramente, sem reservas, com ele dialogar. Eu com-ele e não contra-ele. A questão é: quais são seus dizeres e silêncios? O que representam?

Um sintoma assinala o enquistamento de uma crise. Se se der atenção a ele e não tentar erradicá-lo de imediato, uma mudança – que já está em curso – pode ser facilitada. Nada de se retornar a um estado anterior, ao que se era antes, tampouco de se adequar a algum parâmetro de normalidade. Falo de autoconhecimento. De estrucura: assumir o que realmente se é, a estrutura da qual se estava distanciado, a única cura, aliás, possível de ser alcançada. Temos que refutar a mentalidade da medicina ocidental vigente que quer o indivíduo logo “consertado” para poder voltar a funcionar na engrenagem. Rechaçar essa idéia de mal estar como um vazio que precisa ser “resolvido” com uma adição qualquer (drogas legais ou ilegais, consumismo desenfreado, conquistas amorosas em série) quando o importante é fazê-lo restabelecer suas linhas de comunicação interna. O ponto congestionado interrompe a circulação da energia, indica que nós precisam ser desatados, laços refeitos.

Se, em priscas eras, esforços foram concentrados na descoberta, com êxito, de causas orgânicas para certos distúrbios mentais, nas últimas décadas uma novidade possibilitou o controle da sintomatologia de pacientes psicóticos, ocasionando uma modificação na assistência a eles: a “cadeia-hospital” foi substituída pela prisão farmacológica, sem que se admita que esses medicamentos psicoativos – além dos efeitos colaterais que provocam – estão longe de exercerem alguma conseqüência efetiva sobre o desequilíbrio propriamente dito. Mas, o pior: afastam o sujeito dele mesmo. Parece que a principal queixa atual (senão denúncia) é a de que não se trata mais o doente, pouco importando se sua subjetividade é exterminada junto com os sintomas combatidos, tamanha a virulência do tratamento imposto. Enquanto o modelo biomédico predominar (o pensamento cartesiano, a separação entre corpo e mente) o quadro persistirá.

Por que o fluxo parou de fluir? Por que a estagnação? Quando nossa história nos é negada, outra nos é imposta, adoecemos. É preciso redescobrir-se. Reinventar-se. E a palavra é a grande aliada. Como bem observou Dostoievski: o sofrimento é a origem da consciência. Se ele impede ou dificulta, por um tempo, sua livre movimentação no mundo, respeite-o. Não fuja da dor a qualquer preço, não se esconda, ouça o que ela tem a lhe dizer. Lembre-se do círculo aberto do zen-budismo, a brecha que é, ao mesmo tempo, entrada e saída. Costuma-se ficar acomodado ao sintoma, a essa forma de gozo, até o senso comum diz que quem gosta de troca é bebê com fralda molhada, mesmo assim só depois que ela esfria... Ao contrário, podemos descobrir que é possível capitular, com prazer, diante da seqüência infindável de transformações em que a existência se constitui. Acabar com a fixação no circuito pulsional. Entregar-se à liberdade do imprevisível.

Chega de culpar apenas um agente externo, objetivo, a falta ou o excesso de uma substância! E a nossa parte nisso? Também somos responsáveis pelo que nos acontece. Impulsos sexuais e/ou agressivos inadequados, talentos desperdiçados são determinantes (Guimarães Rosa disse: tive que escrever Grande Sertão: Veredas, senão um trombo me entupiria a veia). Sabemos que o timo é a glândula central que regula o sistema imunológico, e se uma das origens possíveis do vocábulo é o grego thumós = espírito/coração, feri-lo é desestabilizar esse sistema. A desesperança, a perda do sentido da vida (particular, único), a tristeza contida, a percepção de falta de solução para um conflito vivenciado abrem as portas para a enfermidade entrar. O problema não é a emoção (toda ela é válida), mas a incapacidade de externá-la, de simbolizá-la de maneira criativa.

Consta da sabedoria popular o conhecimento de que uma cegueira pode ter sido causada pela recusa de se ver tal ou qual coisa, uma dor de garganta, pela dificuldade de engoli-la. Onde está o sintoma, aí está você. Ele é letra tatuada no corpo e como tal deve ser lida, embora nem sempre tão simples e linear assim, às vezes está mais para hieróglifo a ser decifrado. Deixe-se guiar e encontrará sua autodireção. O corpo não nos diz só o que é a alma, o corpo é a alma. O sujeito é encorpado, as histéricas, as doenças psicossomáticas evidenciam isso, de maneira aguda.

A condição psíquica é crucial tanto no adoecer quanto no processo da cura. Em oposição aos antigos curandeiros que tratavam os males físicos por meios psicológicos, os mudernos psiquiatras, cansados de serem considerados médicos de segunda em sua própria classe reagiram a essa discriminação tentando explicar a doença mental em termos orgânicos, como uma perturbação dos mecanismos cerebrais. Isto é, inverteram as coisas. E mais: só fazem debelar a fumaça, nunca indo até o fogo e ainda agravando o incêndio, uma vez que acabar com o sintoma é acabar com o único jeito que o organismo tinha, até então, para expressar o seu desconforto. Posso curar quem deseja a cura, mas não quem a rejeita (Freud). Se você tivesse febre alta todo dia contentar-se-ia em tomar um antitermico ou iria pesquisar a causa?

Ana Guimarães

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

SEMICONTRAFACÇÃO*


O tempo se gasta. Rumino o que digo e penso como baba de boi: cai e não cai. Quem-quem remexendo no esterco, pra lá e pra cá. Ando caçando errado, quanto mais procuro, menos acho. Canso de vigiar, de perseverar, e nada. Corre o coração a ajudar o pensamento, a confundi-lo, para melhor conhecer: a gente só sabe bem aquilo que não entende. Deus (o inconsciente) é que me sabe. Deixo-me penetrar por esse conhecimento maior. Vem, me ensina o que eu já sei.
Amanheço toda e cada manhã num pouso diferente. Virgem, tabula rasa, página em branco. Nenhum juízo pré-concebido, pura interrogação. Ensolarado dia, chuva, tanto faz. O rio só parece ser o mesmo, acaso ele parou de correr? Espia a terceira margem. No entanto, tréguas são necessárias. Que se revezem com as tormentas – uma calmaria, vez em quando, é bem-vinda.
A hora em que o meu ser tão veredas mais se revela a mim (e, quando consigo, transcrevo-o, deixando-me cavalgar pelo diabo da inspiração, afinal a vida também é para ser lida) é no lusco fusco entre o sono e a vigília, na frente do acordar. No nada. Quando os olhos ainda nem se abriram para o exterior é que eles mais vêem o de dentro. Não temo ter medo, aprendi, porque não adianta dar as costas, ele volta. Receio apenas cansaço de esperança.
Há que frear a excitação. Fazer silêncio e reverência, igual ao momento em que o peixe vai fisgar a isca, na pescaria. Cuidar de anotar de imediato, todavia com delicadeza (é todo um equilíbrio instável), senão a clareza se esvai feito nuvens desmanchadas pelo vento, a visagem se desfaz como um sonho que escapa nas asas do instante. Depois, só acionando hábeis sentinelas da memória, com sorte, de prontidão.
Estendo tapete vermelho, ladrilhos, seixos, pedrinhas de brilhante para o meu amor (a palavra) passar. Ah se essa rua já fosse minha, mas não, autorizo-me ao longo do caminho (e existe outra maneira de?), uma viagem intima, narcisicamente falando. Elíptica, sinuosa, não em linha reta. Viator ao centro do meu mundo (no meio do redemunho), ou ao mais próximo que dele possa chegar. Desejo fáustico porque impossível de ser realizado, tem sempre um resto que resiste.
O fenômeno é espontâneo, porém precipitá-lo é possível. Começo por espera ativa, embora sem contornos definidos. Não me deixo enganar, toda quietude é aparente – águas paradas escondem correntezas no fundo. É só ficar de ranger rede, a ver ou fazer coisa nenhuma, a aguardar, como dia de véspera, que acontece: o sertão vem. Aí é aproveitar. Escrever é duro, penoso, mas inevitável: põe grades entre mim e as feras, amortece o contato com o Real.
Cerzidor, aquele que costura estórias, era um dos apelidos de Riobaldo. Cerze-dor, quem tapa com a linguagem os buracos abertos pelo sofrimento. Talvez o leitor distinga, mais do que o escritor, a verdade: são muitas, são meias. Meu monólogo é diálogo, tantas sou, tantas vozes me habitam. Fora visitantes mariposas e borboletas voando de passagem, além das que batem temporárias asas para, em seguida, retornar ao solo de onde saíram, feito tanajuras.
Dou de comer à fantasia, sem pressa. Associação-livre a meio-galope. Permite o reconhecimento do terreno e seu registro, com o paroxismo que só a liberdade carreia: sensação de proteção debaixo de árvore galhuda a conviver com a inquietude da vastidão de sítio aberto, quase agorafobia. Viver não é caminhar alegre, inda que descalço sobre espinhos? É isso ou ter a consciência pesando que nem saco cheio de pedras, por nada ter feito, arrependido.
Curvo-me à equivocação das nuances do sentir: nem amor nem ódio (também não indiferença), nem bem nem mal (e não se trata de neutralidade), nem grito nem sussurro: falo, e não é tão simples como parece encontrar o tom. Em todo caso, é preferível procurar do que achar – esse último verbo cheira à morte.

*Guimarães Rosa justificava assim nomear seus textos por considerá-los plágios dos escritos que os antecederam e influenciaram.

Ana Guimarães

domingo, 23 de janeiro de 2011

A ETERNA CONFUSÃO




“Queira ou não queira, o autor é um personagem de sua obra” (Lêdo Ivo)


Às vezes me pergunto pra que se dar ao trabalho de separar o autor do narrador, dos personagens, o eu lírico da pessoa do poeta, descaracterizar o autobiográfico, tentar um mergulho o mais fundo possível na opacidade da ficção (como se a realidade fosse menos opaca, como se lembrança fosse fidedigna e não seletiva e assaz distorcida, como se quem escreve soubesse onde está o scriptor (falo de fronteiras, limites) - espero, somente, da memória que possibilite uma recomposição fecunda e criativa do que aconteceu) para no fim, leitores e críticos especularem feroz e talvez, equivocadamente, sobre a relação entre vida e obra. Será que todo o processo (incluindo aí poética, metáforas e tudo o mais, os recursos disponíveis de praxe) seria apenas (?!) como disse Barthes, para se sofrer menos? Seria esse, afinal, o poder (para não falar função, porque isso seria reduzi-la) disso que se denomina uma 'linguagem inútil'? (Aliás, costuma-se atribuir tal adjetivação a Manoel de Barros, que muito bem a utilizou, diga-se de passagem, embora tenha sido Leminski quem primeiro cunhou o termo).

Que necessidade será essa de se esmiuçar um texto, de se especular sobre a possível relação entre ele e fatos concretos (chega-se ao cúmulo de se entrevistar um escritor com o objetivo de “esclarecimento”!), cotejá-lo com a realidade? Vã tentativa de aprisionamento. Pode até servir para aumentar nossa compreensão sobre o universo objetivo do sujeito, mas não necessariamente atestar alguma correspondência, mais provável que revele uma descontinuidade: não só não há reciprocidade, como escrever costuma ser a resposta da fantasia diante da indigência do real. Pior, em alguns casos, pode sim correr o risco de acabar com a mágica, revelar o truque, e, ainda por cima, dar um atestado de baixa potência das letras em questão, de sua incapacidade de cantar novos mundos, enfim, da dificuldade delas falarem por si só.

Por outro lado, será mesmo que quanto mais ficção mais literatura com L maiúsculo? O artista, como o Deus da criação, permanece dentro, junto, atrás ou acima da sua obra, invisível, clarificado fora da existência, indiferente, raspando as unhas dos seus dedos (Joyce, em Retrato de um artista). Estaria ele falando de uma meta a ser atingida, de um ideal? Pois é sabido que, não se considerando um deus da criação ex-nihilo (era mais adepto do nada se cria, tudo se transforma), usava e abusava em seus livros de nomes de pessoas com quem convivia, seus perfis de personalidade, de situações vivenciadas, claramente reproduzidas. Chega ao extremo de numa determinada passagem do Ulisses, num funeral, quando um tal de senhor Dodd é avistado, por na boca de Stephen, a seguinte afirmativa: “O diabo quebre suas costas”, agressividade injustificada e ininteligível dentro do contexto, até que Richard Ellman, seu biógrafo, explicasse que Dodd cobrava, com insistência, um dinheiro emprestado ao pai de Joyce, na chamada vida real. Diz ele: A verossimilhança é tão forte que Joyce tem sido ridicularizado como mais um mímico do que um criador, acusação que, sendo falsa, é o maior de todos os elogios.

Ilusão. Quando penso que falo/escrevo disso, na verdade, falo daquilo, de Outra coisa. Impossível distinguí-las: verdade e ficção encontram-se amalgamadas, fundidas. O escritor é mentiroso por vocação. E acredita em mentira, mesmo sabendo que mentira é. A literatura é um discurso que se alimenta da dúvida, da interrogação, pleno de uma ambigüidade que permite a confusão entre a invenção e a verdade. Tratamos o verídico como se da ordem do ficcional fosse, e damos voz de veracidade à fantasia. Como conseqüência, a certa altura, ficamos sem saber distinguí-los. Além do mais, é bom lembrar, assim como um lapso, a palavra-sentimento que desejamos reter, não externar é exatamente aquela que irrompe de forma abrupta e involuntária, contra a nossa vontade, e passa ao leitor (não a qualquer um, é claro, mas ao atento, ao privilegiado).

Escrevo para tecer e destecer a mesma e enigmática trama: minha história. Não o que vivi, no sentido de experiência, mas o que senti, os fantasma que me perpassam, identificações parentais. Ponho, conscientemente ou não, uma nova roupagem (tradução: fantasia, máscara, disfarce) a cada tentativa, para camuflá-la e, ao mesmo tempo, por mais paradoxal que seja, para desvelar seu sentido – para mim, inclusive. Enquanto viver permanecerei escrevendo, montando esse interminável quebra-cabeça, cujo número de peças é infinito. Não conhecerei sossego algum da idéia, nada me aquietará o espírito, eterna escrava da inspiração. Patrão risca, a gente corta e cose (Guimarães, em Cara de bronze). O produto final será, sempre, um verdadeiro rizoma, na concepção deleuzeana: pontos aparentemente soltos que se inter-relacionam. Se quiser estar certa do caminho a percorrer tenho que fechar os olhos e tatear no escuro, tendo como bússola a intuição. Desprezar o racional, seguir os sinais que a percepção captar. Parodiando Sócrates, ao contrário: só sei que tudo sei, embora seja um saber que não se sabe. Ainda.

Ana Guimarães