quarta-feira, 3 de julho de 2013

O ÚNICO


O ÚNICO

Eu era pessimista. Ou melhor, assim me considerava. Diante dos fatos atuais, nem realista mais sou. Irreconhecível, brotou-me algo não semeado, muito menos cultivado. Mágica, surgiu que nem coelho da cartola. Como aquela outra da caixa, a de Pandora, quando tudo o mais voou. Sorrio enquanto escrevo. Um sorriso que não precisa de espelho para ver sua veracidade, tanto quanto no escuro do sono tenho gargalhado, dizem. Dialogo com lembranças e registros de memória etalvez porque mau arquivistanada encontro que se assemelhe a isso.

Retalhos de uma utopia ainda me vem à mente. Do que mais me recordo é do cheiro e da cor do sangue. Não é uma metáfora: na tortura, como preso político. Também de mornas e solitárias lágrimas diárias, quando meu microcosmo sumiu. E eu, junto. Exilado, principalmente de mim. A distância (física e geográfica) mais do que a dor, levou-me a outras fronteiras, as da razão. Só depois de muito enlouquecer me curei, como num processo analítico. No estrangeiro, o conforto de assim me sentir. Depois de amargar o nada ter, a descoberta de que só(?) queria ser: que pretensão, o luxo do consumismo! E a literatura, parte de minha salvação. Onde me ancoro e navego. Amarro-me e me solto, body jump na vida. Aqui tudo posso e experimento, mais corajoso e permissivo ainda.

Acredito no amor. Aliás, amar é que é acreditar. No outro. É a própria esperança. Minha única fé, desde então, meu único partido, a mulher que eu amo. Independente por natureza, sempre à margem, na terceira via, sem obedecer a ninguém, até que ela apareceu. Por ela ajoelho e rezo. Com ela me acalmo e durmo. Narradora de mim, mesmo em silêncio. Dos vários mins que existem, e que ela – ó glória – nunca tentou classificar, rotular, muito menos unificar. Sem pretender, assim que chegou calcificou a fratura de que eu padecia. Foi o sol eparadoxo, a não imobilização de que precisava para melhor consolidá-la. Sem gesso algum. Poder me movimentar livremente, partir e voltar, se e quando quiser. Enquanto ela me fizer sentido. A leitora privilegiada que termina o livro que sou, sempre em edição.

Ana Guimarães


segunda-feira, 10 de junho de 2013

NETOS II

NETOS II

"Só sei ser íntimo ou não sei ser/ o que escrevo me ameaça de tão perto" (Armando Freitas Filho)

O luto pela saída dos netos da minha casa já data de um mês, quando soube que isso aconteceria a partir de três de junho.

Depois do choque inicial, achei que seria melhor para todos, inclusive para mim que andava cansada e estressada com a rotina doméstica de crianças&babá em regime de horário integral.

Agora que o fato se concretizou estou triste sem eles aqui, a casa vazia, silenciosa.

A única coisa boa é não ter mais que assistir/ouvir o Discovery Kids ou, pela milésima vez, Madagascar. Minto, tem mais: poder me atracar, sem interrupções, com o Toda poesia, do Leminski que ganhei no dia das mães, ainda sequer iniciado.

Ana Guimarães


NETOS


NETOS

O que diria sobre meus netos - a falta que eles me farão, apesar de todo stress e cansaço que cuidar deles resulta - periga arder na fogueira da auto-censura. 

Pensei poder estar para sempre presente no seu dia a dia, a fim de melhorar a qualidade de vida dessas pessoas queridas. Mas "pra sempre sempre acaba".

A dor e o vazio que me foram bruscamente impostos pelo (justo e honroso) pedido de de demissão da mãe das crianças que agora assumirá sua função por completo cabe a mim, só a mim, prantear. Choro como nunca em demorados banhos de chuveiro.

De "vãe" (neologismo que criei para designar o ofício que vinha exercendo com dedicação e amor, desde o término da primeira licença-maternidade da minha filha, há cinco anos) passarei a avó que dizem ser alguém que freqüenta uma maravilhosa zona de conforto porque não lhe cabe responsabilidade alguma, só fruição. Talvez.

Uma esperança: que antigos laços renasçam em novos contextos e perspectivas.

Uma constatação: escrever é mesmo um sintoma: depois de longo hiato, a escrita ressurge, ainda que sob a forma de um textìculo.

Ana Guimarães

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