
Trata-se de um quadrúpede híbrido de jumento com égua ou de cavalo com jumenta. Ao contrário do que se imagina não é estéril, pois o que mais se observa, na atualidade, é que se reproduzem como nunca. Diga-me com que besta andas e dir-te-ei em que besta te tornarás, pois bestas fatalmente bestificam os amigos.
Sua sexualidade é bestial, grosseira, repugnante, degradada e degradante para os pobres dos animais com os quais pratica atos libidinosos. Obesa, aumenta seu perímetro de bestice: vira besta quadrada.
Além de estúpida e grosseira, toda besta que se preza é pretensiosa, soberba, pedante e arrogante, nenhuma rendilha parece subjugá-la. Alguns artistas parecem se encaixar nessa categoria, tamanho o ego.
A lenda da besta fera, muito comum no Brasil rural, diz que ela é a mais terrível das criaturas, um ser fantástico, metade homem, metade cavalo (sagitarianos, como eu, tomem cuidado, mais cedo ou mais tarde nela podem se metamorfosear).
Uma besta de carga só faz besteira: leva malas contendo dinheiro público ilegal, transporta dólares na cueca, saquinhos de droga no estômago ou explosivos amarrados ao corpo. Às vezes troca o nome – e até a categoria gramatical – para laranja. Noutras, transmuta-se em carro – se é que aquilo é um carro – usado como transporte público ilegal, comercializado de uma classe de bestas para outra que não se importa de viajar sem um mínimo de segurança.
Na política, costuma ter a faculdade da bestialogia, ou seja, proferir discursos asneirentos, disparatados, sem pé nem cabeça.
Adoram vestir uniformes: militar e religioso (os dois pilares do mundo, os dois podres poderes) são os campos de atuação, por excelência, das bestas. Sob a égide de qualquer instituição chegam ao paroxismo do radicalismo e da intolerância.
Antigamente, disparavam flechas. Hoje em dia, disparam balas perdidas. Ou pitbuls. Se gladiador, chamava-se bestiário, lutando no circo com as feras, todas, certamente, belas e menos selvagens que ele.
Quando de nacionalidade portuguesa vivem numa parte da Serra do Caramulo, a Serra dos Besteiros (ah, ah, te peguei, leitor! Pensavas, preconceituosamente, que eu ia escrever algo politicamente incorreto? Nem morta, até porque amo, respeito e admiro os portugueses, de quem, aliás, descendo).
No texto Apocalipse, da Bíblia, é um representante do dragão que, por sua vez, seria uma metáfora para satanás. Numa outra leitura é reconhecida como sendo o falso profeta, aquele que convoca todos a adorar aquela primeira besta, a viver a serviço dela.
Seus músculos cardíacos também não são utilizados tanto quanto sua massa cinzenta: nem coração, nem mente. Certas paixões humanizariam esse animal, mas ele não quer saber, foge das emoções como o diabo da cruz, bestificando-se através de drogas estupefacientes. Vira sombra humana deformada, mera caricatura. Zumbi. Morto-vivo.
O número da besta, pra quem deseja jogar, é 666.
Ê vida besta!, como diria o Drummond.
Ana Guimarães