Sem luzes
sem câmera
só ação
nem velas, apenas
o brilho das estrelas
e a música dos grilos
despidos
famintos
sem gala
não se quis comida
e sim saída
para uma parte: a arte
isso ainda nos resta
– uma fresta –
é dessa festa que falo
Ana Guimarães
Já publicado em http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=p05/p051003.htm&tipo=poesia
domingo, 25 de setembro de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
DEPOIS DA MORTE* - uma homenagem
À luz de um abajur (a de cima, do lustre, queimou), tomo fôlego para embarcar nesse túnel do tempo, suportar as vertigens que me esperam ao me deparar com lembranças e reminiscências que povoam o espaço, hora solitária que não posso nem quero dividir com mais ninguém.
Da sala arrumada como se esperasse visitas, um inebriante e familiar cheiro de comida caseira sendo refogada na vizinhança quase me faz perguntar: o que é que vai ter pro jantar? Na cozinha, o silêncio. Tampa de fogão arriada. Tudo limpo como a faxineira deixou, só um pó fino que teima em penetrar pelas frestas das janelas e em tudo se depositar. O insistente e delicioso aroma que me invade as narinas transporta-me às delícias culinárias de minha mãe, nosso único ponto de identificação, mesmo assim tardio e com atritos: ela nunca se conformou com a invasão, senão superação de seus domínios pela filha mais afeita aos livros do que a qualquer outra coisa, que quando se casou nada sabia dessa prática e em pouco tempo a dominava, entregando-se de corpo e alma à culinária, fora os outros interesses que permaneceram.
Perco-me em memórias olfativas e gustativas que logo carreiam as visuais: o peixe frito da feira de 4ª feira, até hoje no mesmo lugar e no mesmo dia. Os incomparáveis bifes acebolados. O pernil de porco assado no Natal. O bacalhau da Páscoa. Sonhos polvilhados com açúcar e canela do lanche no meio da tarde. O imbatível bobó de camarão das festas de aniversário. Era uma cozinheira de mão cheia, daquelas que só sabem cozinhar com fartura, embora gostasse de alardear que era econômica porque considerava isso uma virtude e gostava de ser – ou de se pensar, ou ainda de ser vista como – virtuosa. E só usava ingredientes de qualidade, ficava doente quando dava sua receita a alguém e via esse alguém modificá-la, adulterá-la, visando um menor gasto.
Volto pelo corredor, com todo o barulho interno contrastando com o silêncio exterior, e no meu antigo quarto de solteira abro a escrivaninha com a fechadura emperrada, detendo-me em papéis que há muito não são mexidos. A poeira me faz espirrar sem parar. Um gaiato, de algum lugar, grita saúde. Respondo amém, rindo, em meio a mais espirros. De uma grande caixa amassada de papelão saem reclames os mais diversos, guardados não sei para que, os números de telefone ainda com sete algarismos. Meu convite de formatura, um santinho da primeira (e quase última) comunhão, uma tela desbotada, pintada por mim na aula de arte, uma tapeçaria não terminada, retratos em preto e branco. Na estante, minha coleção de Monteiro Lobato.
Empurrando com o dedo a porta apenas encostada, sinto-me como uma criança invadindo o quarto dos pais na sua ausência, violando sua intimidade. Quase posso me ver menina, brincando de mulher adulta, sapatos de salto alto, colares, batom vermelho borrado na boca infantil, bolsa maior do que eu (de couro de cobra morta na fazenda do meu avô), uma echarpe de plumas ainda não ecologicamente incorreta. Tudo isso está aqui, na minha frente, quieto, mudo, mas falando tanto!... remetem a um tempo até anterior a mim, quando só se ia ao centro – à cidade, como se dizia – de chapéu, luvas e meias finas. E de bonde. Era chic.
No armário de mamãe, entre cabides de soutache, velhos óculos de grau e uma pesada bola de marfim para cerzir meias descubro um baú cheio de cartas de amor de um para o outro. Jamais soube de sua existência, e minhas mãos se revestem de um respeito inimaginável ao tocá-las. Tamanho, que depois de ler o primeiro parágrafo da primeira resolvo fechá-la e ficar só – por enquanto – contemplando os envelopes sobrescritados. Aqui se trata da correspondência entre duas pessoas distintas, um homem e uma mulher, e não mais de meus pais. Recoloco com reverência o baú, como se fosse uma urna mortuária com cinzas dentro, no fundo da gaveta onde estava, como um tesouro escondido. Mais pra frente virei redescobri-lo. Não se pode viajar por vários países de uma só vez, a cabeça rodopia e você confunde tudo. Muita informação ao mesmo tempo.
Na cômoda de papai, apetrechos masculinos largados, com displicência, como se o dono fosse ali e já voltasse: um barbeador prateado em seu estojo original, com nota fiscal, garantia e instruções de uso. Um pente de osso. Uma velha câmera kodac em excelente estado. Moedas as mais diversas, num saquinho de feltro. Uma calçadeira e uma piteira. Dessa me lembro bem: um amigo a presenteara, recomendando que a usasse com freqüência para reduzir a assimilação das substâncias nocivas contidas no cigarro. E junto com elas o gosto, o prazer de fumar, brincava papai. E o que ele fazia? Era só o amigo chegar de surpresa (é, isso acontecia), e ele pegar a bendita piteira e aparecer na sala como quem não quer nada, fumando seu cigarrinho devidamente encamisado, quer dizer, protegido. Impostura? Fraude? Não. Mentira que dizia a verdade. Um agrado, um mimo ao amigo, que ficava superfeliz e agradecido, crente que fizera uma boa ação. Que o presente emplacara. Que fora de muita utilidade. E fora, só que de outro jeito, para diverti-lo.
Não, ele não queria ser poupado dos estragos do fumo. Da pulsão de morte agindo, desse gozo. Que acabara, inclusive, conduzindo-o a um enfisema pulmonar progressivo que o faria passar, mesmo sem mais fumar, os últimos anos de sua vida dependente de uma bala de oxigênio instalada à cabeceira da cama. E quando ficava algum tempo sem, era horrível. A boca aberta como um peixe fora d’água, se debatendo, tentando respirar, com a gente impotente à sua volta.
Abrindo o emperrado gavetão inferior, no meio de tantos postais por ele recebidos, sinto a pele arrepiar e rodopiar a cabeça, precisando sentar-me para ler um amarelado cartão, datado de priscas eras. Na frente, um desenho de uma criança com um bebê de proveta nas mãos. Dentro, os seguintes dizeres, com minha letra miúda: pai, já sei como se faz um filho! É só criá-lo com o mesmo amor com que você me criou. Feliz dia dos Pais, sua filha querida.
Ana Guimarães
*Já publicado em http://www.saldaterraluzdomundo.net/literatura_contos_.htm e http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=temdomes/2006/08/pai/tempro02.php&tipo=prosa
terça-feira, 9 de agosto de 2011
LONDRES
LONDRES
Shakespeare, Virginia Woolf, Oscar Wilde, Lewis Carroll, Chaplin, Beatles, Fred Mercury, Mary Quant. Parodiando Woody Allen em Meia-noite em Paris, andar por Londres é esbarrar em personalidades inglesas de outras épocas sempre vivas na memória, e no final rendermos tributo ao presente ao constatarmos que a cidade que soube resistir ao tempo e preservar seu incalculável legado histórico é também uma metrópole moderna, de irresistível charme.
Heathrow é um senhor aeroporto: organização, atendimento e limpeza impecáveis. O metrô, detentor de um prêmio de design, eficiente. Os célebres ônibus de dois andares, um acontecimento (tente conseguir ficar na parte de cima, e na frente, para ter uma visão privilegiada durante os passeios). As icônicas cabines telefônicas vermelhas, agora desativadas, só mesmo para uma foto. Os tradicionais táxis pretos ultra-espaçosos, valem uma corrida.
Com um bom mapa consegue-se caminhar sem tropeço nas ruas, mas lembre-se de que a mão é invertida, cuide de olhar nas duas direções antes de atravessar. Não deixe de conhecer a palpitante Oxford Street (com intenso comércio), as lendárias Baker Street (que abriga o museu Sherlock Holmes), Abbey Road (onde o famoso quarteto posou para a capa do penúltimo disco da banda), Trafalgar Square (a praça mais bela da city, com seus quatro imponentes leões) e Piccadilly Circus (bem no centro, rodeada de bares, restaurantes, bom comércio e teatros, o ponto mais animado da noite).
Há um lugar imperdível, programa para o dia inteiro: Portobello Road Market, um fervilhante mercado a céu aberto, cheio de brechós, antiguidades, lojas diversas, com suas casas coloridas, músicos de rua, além de batatas fritas peculiares, em espiral, no palito, uma gostosura. Ainda no bairro (Notting Hill, do filme homônimo), o Recipease, do chef Jamie Oliver, a Cookery School, numa cozinha aberta, central. Se disposto a enfrentar fila, os comes e bebes (e os merengues coloridos) justificam.
Aos domingos, o Hyde Park, no trecho perto do Marble Arch transforma-se no Speaker’s Corner, qualquer um em cima de um caixote pode fazer o discurso que quiser. Embora a maioria interprete como exercício de democracia, de liberdade de expressão parece que o costume remonta há séculos atrás quando prisioneiros sentenciados à morte proferiam suas últimas palavras antes de serem enforcados num patíbulo instalado nesse exato local. Já o Green Park, mesmo sem lagos e memoriais, é um agradável, tranquilo e seguro lugar, sem ruído algum, próprio para o descanso.
Principais pontos turísticos:
O Parlamento e seu relógio, o Big Ben, emblemático da cidade.
A ponte sobre o rio Tâmisa.
A Catedral de St Paul.
A Abadia de Westminster (um colosso da arquitetura medieval inglesa, de tão grande, a gente se perde lá dentro, entre monumentos e túmulos que guardam despojos dos monarcas britânicos; o pátio interno é o único lugar onde é permitido fotografar).
A Torre de Londres.
A troca da guarda do Palácio de Buckingham, residência oficial da monarquia; aproveite para fotografar defronte ao belo Victoria Memorial.
A Tate Modern Gallery (não deixe de ir tomar um café lá, a vista da Ponte do Milênio é esplêndida).
O museu de cera Madame Tussauds.
A National Portrait Gallery, com obras espetaculares, minhas preferidas são uma tela de James Joyce e um busto do pintor Lucien Freud, neto do psicanalista.
London Eye (a roda-gigante).
Covent Garden Market, um point.
The Shard, o prédio mais alto de Londres, com suas galerias envidraçadas a 310 metros de altitude, proporciona uma incrível vista.
Marisfield Garden, 20, um ilustre endereço, a casa onde Freud viveu e trabalhou depois que, foragido, deixou Viena ocupada pelos nazistas.
Para quem, como eu, é apaixonado por museus, aqui está um dos mais deslumbrantes, o Britânico, fundado em 1753, com seu colossal acervo, preciosidades tais como a Rosetta Stone (a pedra a partir da qual Champollion traduziu os hieróglifos), a bíblia de Gutenberg (o primeiro livro impresso), a sala de leitura da Biblioteca (frequentada por Bernard Shaw, Lenin e outros notáveis) e vasta coleção de antiguidades gregas, egípcias e romanas (o espólio do império foi grande, até hoje fonte de atrito entre os governos que exigem a devolução das relíquias).
Se a obra de arte há muito deixou de ser só objeto de contemplação para tornar-se também motor de inquietude, perco-me nesse redemoinho de imagens, deixo-me inundar por uma chuva de impressões que logo sulcam e fertilizam todo o meu ser, culminando numa verdadeira experiência estética de abandono e pacificação.
Last, but not least, o quesito compras.
Na Cool Britannia, moletons e as mais diversas lembranças de viagem.
Na Hamsley, a segunda maior loja de brinquedos do mundo, a gente volta a ser criança.
Na Liberty, mais para apreciar o portento, construída com madeira de dois navios.
E na Harrods, loja de departamentos com noventa mil metros quadrados de espaço de venda, cujo lema é Omnia Omnibus Ubique (todas as coisas, para todas as pessoas, em todo lugar) a gente se esquece da vida. Dizem que a primeira escada rolante apareceu aqui, em 1898, e os clientes eram esperados no topo com uma bebida, para acalmá-los; o Food Hall é uma atração à parte.
Aliás, contrariando o estereótipo, a gastronomia da cidade muito tem a oferecer, além de fish&ships (Master’s Fish, simples e excelente) e chá das cinco (Fortnum&Mason, recomendo), típicas e deliciosas instituições inglesas.
Há vários restaurantes que não fazem feio: O Maze (do consagrado chef Gordon Ramsay).
Balthazar (idêntico ao de NY).
Burguer&Lobster.
Jamie’s Italian.
E ainda tem bons étnicos, sendo a comida indiana a mais popular entre as estrangeiras, talvez porque a Inglaterra seja a segunda pátria dos hindus.
Em tempo: diversos entretenimentos noturnos estão à disposição do visitante: óperas, balés, sinfônicas, grandes espetáculos teatrais. De preferência, compre ingressos com antecedência. Por sorte, muita sorte, consegui assistir Os Miseráveis e o Fantasma da Ópera. Magníficos.
Em tempo: diversos entretenimentos noturnos estão à disposição do visitante: óperas, balés, sinfônicas, grandes espetáculos teatrais. De preferência, compre ingressos com antecedência. Por sorte, muita sorte, consegui assistir Os Miseráveis e o Fantasma da Ópera. Magníficos.
Ana Guimarães
sábado, 30 de julho de 2011
POEMAS
FORÇA DE VONTADE
Força
se faz
para não se entregar
logo
(como o coração)
um seio
à mão
para que o aperte
muito
pouco
importa
que queira
ou não
apertá-lo
para sempre
Nesse limite
invisível
palpável
entre a intenção
e a contenção
da vontade
(pura hesitação)
vive-se
SEIS
Daria as vidas
que lhe restam
por minutos
em seus braços
Cinderela
sem queixume
à meia-noite
de volta pro borralho
Mulher-gato
retornaria, todo dia,
só pra lamber sua boca
de Batman
Cravaria o gatázio
em sua carne:
quem sabe alcançaria
um coração, no peito?
Pois quem gateia é ele
foge
negaceia
brinca de gato e rato
Diante disso
ela se contenta
em gatafunhar
seus escritos
VOCÊ E EU
não passamos
de fios
encaracolados
aos demais
não tecemos
mantas
agasalhos
sapatinhos
nem somos varais
estendidos
secando roupa
só nos enroscamos
e formamos
nós
quando muito juntos
como finos cordões
de ouro
Ana Guimarães
Já publicados aqui: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=1842
Força
se faz
para não se entregar
logo
(como o coração)
um seio
à mão
para que o aperte
muito
pouco
importa
que queira
ou não
apertá-lo
para sempre
Nesse limite
invisível
palpável
entre a intenção
e a contenção
da vontade
(pura hesitação)
vive-se
SEIS
Daria as vidas
que lhe restam
por minutos
em seus braços
Cinderela
sem queixume
à meia-noite
de volta pro borralho
Mulher-gato
retornaria, todo dia,
só pra lamber sua boca
de Batman
Cravaria o gatázio
em sua carne:
quem sabe alcançaria
um coração, no peito?
Pois quem gateia é ele
foge
negaceia
brinca de gato e rato
Diante disso
ela se contenta
em gatafunhar
seus escritos
VOCÊ E EU
não passamos
de fios
encaracolados
aos demais
não tecemos
mantas
agasalhos
sapatinhos
nem somos varais
estendidos
secando roupa
só nos enroscamos
e formamos
nós
quando muito juntos
como finos cordões
de ouro
Ana Guimarães
Já publicados aqui: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=1842
sábado, 23 de julho de 2011
ADIÇÃO
Todos os excessos são condenáveis, até mesmo os da abstinência (Voltaire)
Seus companheiros
de ilusão
quem são?
Com o que combate
o horror à solidão
e tenta esquecer
que não tem mais sonhos?
Como lidar com o real
cada vez mais
avassalador?
Ao mal estar
você soma
a dependência
de algum paraíso artificial?
Crê precisar
de subterfúgios
para criar?
Só assim
as portas da percepção vão se abrir
céu e inferno
se intercambiar?
O que a literatura pode
(meio ou fim)
significar?
De que modo atravessa
o crespo do seu sertão
esse deserto da alma:
o liso do Sussuarão?
Se embriaga
se entorpece
quando não consegue
dizer não?
Que veredas percorre
em busca da fantasia
de completude?
Diga-me onde te abasteces
e dir-te-ei
quem não és
Na boca de fumo?
Num Mc da vida? (a droga do junkie food)
Na farmácia?
No botequim?
O que o ajuda a encarar
a falta, o excesso
o lusco-fusco da alma
seu Diadorim?
Tal linha de fuga
que prazeres
proporciona?
Estados alterados lhe dão (ou tiram)
vontade de que?
Que tonalidades o mundo perde
ou adquire?
E depois, o que suas sábias vísceras
denunciam?
Espasmos de culpa ou remorso
revém?
Ana Guimarães
Seus companheiros
de ilusão
quem são?
Com o que combate
o horror à solidão
e tenta esquecer
que não tem mais sonhos?
Como lidar com o real
cada vez mais
avassalador?
Ao mal estar
você soma
a dependência
de algum paraíso artificial?
Crê precisar
de subterfúgios
para criar?
Só assim
as portas da percepção vão se abrir
céu e inferno
se intercambiar?
O que a literatura pode
(meio ou fim)
significar?
De que modo atravessa
o crespo do seu sertão
esse deserto da alma:
o liso do Sussuarão?
Se embriaga
se entorpece
quando não consegue
dizer não?
Que veredas percorre
em busca da fantasia
de completude?
Diga-me onde te abasteces
e dir-te-ei
quem não és
Na boca de fumo?
Num Mc da vida? (a droga do junkie food)
Na farmácia?
No botequim?
O que o ajuda a encarar
a falta, o excesso
o lusco-fusco da alma
seu Diadorim?
Tal linha de fuga
que prazeres
proporciona?
Estados alterados lhe dão (ou tiram)
vontade de que?
Que tonalidades o mundo perde
ou adquire?
E depois, o que suas sábias vísceras
denunciam?
Espasmos de culpa ou remorso
revém?
Ana Guimarães
segunda-feira, 6 de junho de 2011
BRUXELAS
Pense numa linda praça. Pensou? Piazza San Marco, em Veneza? Plaza Mayor, em Madrid? Place de Vosges, em Paris? A Grand Place, também chamada de Grote Markt, em Bruxelas, proclamada patrimônio mundial da humanidade pela Unesco, em 1998 é a mais bonita do continente, Victor Hugo tinha razão. Assim que cheguei, parti para conhecê-la e não me decepcionei. Em minha estadia na capital da Bélgica, para lá ia todo dia, nem que fosse só para beber um café ou degustar uma cerveja Du Vell, mais forte do que as que estamos acostumados a tomar no Brasil, devido ao seu alto teor alcoólico (as produzidas por seis mosteiros trapistas também são especiais) com as célebres patats frites embaladas em um cone de papel. Exuberantes prédios antigos de estilo barroco em perfeito estado de conservação resplandecem ao sol, extasiando os visitantes. Mercadores, artesãos e ourives foram seus proprietários, competindo entre si construindo fachadas decoradas em ouro, um verdadeiro esplendor. No século XII ela era o centro político e econômico da cidade, hoje ainda abriga órgãos do governo, museus e lojas. À noite ferve, com apresentações culturais e shows de luzes e música. Já o Manneken-pis, a cem metros daí, não justifica a fama: trata-se de uma pequena estátua de bronze de um menino urinando, datada de 1619 (no Mourisco, no Rio, há o Manequinho, certamente nele inspirado, maior e bem mais expressivo).
Era fim de junho, o tempo estável e a temperatura amena, estimulando passeios a pé (com calçados confortáveis para andar em ruas com paralelepípedos). No início as placas confundem um pouco por causa dos dois idiomas utilizados, o francês e o flamengo, mas depois você se acostuma e outras belezas podem ser apreciadas. A Cathedrale Saint-Michel, em estilo gótico. O Atomium, planejado para a Expo 58, sobreviveu tornando-se visita obrigatória, um símbolo nacional. O Mini-Europe, um parque com miniaturas dos pontos turísticos mais famosos do mundo. O Royal Museum of Fine Arts e o Royal Palais. A Place Grand-Sablon. Murais com quadrinhos são encontrados em vários quarteirões, fazem parte da cultura belga, mas o museu dedicado a eles, a 30 quilômetros, na vizinha Louvain-la-Neuve, vale uma visita. Quem não conhece Tintin, desenho em quadrinhos criado por Georges Remi, mais conhecido como Hergé, um trocadilho com as iniciais do seu nome, considerado o Walt Disney europeu? O herói Asterix, dos gibis da minha infância, também é originário daqui.
Maravilha gastronômica, a Rue de Boucheurs é muito freqüentada graças aos excelentes restaurantes; mexilhões pescados no mar do Norte são a especialidade do lugar. Outro alimento típico, ideal para um lanche, é o waffle (originalmente produzido como hóstia, para missa), mais volumoso e macio do que o tradicional por ser muitas vezes fermentado, assim me explicaram. E o chocolate é um capítulo à parte, trazido pelos espanhóis quando estavam sob o domínio dos Habsburgos e depois aperfeiçoado quando o cacau era transportado da colônia africana Congo Belga; deliciosos são os pralines (recheados).
Não deixe de ir a Bruges, cidade medieval, em seus primórdios com poderosa indústria têxtil e fértil contato comercial com a Inglaterra. Reza a lenda que no fim do século XV chegou a ter o dobro dos habitantes de Londres, porém o canal que a conectava ao mar estrangulou, deixando-a isolada, paralisando-a por mais ou menos quatrocentos anos. Os guias contam a seguinte história: turistas ingleses começaram a chegar depois de Waterloo, (ali perto, onde Napoleão perdeu a guerra, lembra?) e depois também que um romance foi publicado (Bruges, a morta). Tudo isso acabou por ressuscitar o turismo que a movimenta até hoje.
Um intelectual quando ouve falar em charuto, pensa em Freud. Quando ouve “cachimbo” pensa no surrealista Renée Magritte, pintor belga cuja tela-ícone é de um cachimbo com a inscrição “isso não é um cachimbo”, lembrando que não se trata de um cachimbo real e sim de sua representação. Ele salientava que não importa o quão perto a arte realista chegue, nunca alcança a coisa propriamente dita. “As pessoas que procuram significados simbólicos não conseguem captar a poética e o mistério inerentes à imagem. Ao perguntar ‘O que isso significa?’, elas expressam o desejo de que tudo seja compreensível”. Quem quiser procurar, o quadro se chama A traição das imagens. E a quem interessar possa, a taverna Greenwich é uma parada obrigatória, ele costumava frequentar o local para jogar xadrez. No Musée d’Art Modern encontra-se a extensa coleção de obras do pintor.
Uma homenagem a um dos meus artistas preferidos, mais especificamente à minha pintura favorita, denominada O Filho do Homem:
O FILHO DO HOMEM
Conserva alguma lucidez
– só alguma –
na hora de criar
não te queixes de condições adversas
elas são um bom fermento
e a liberdade
o único fanatismo permitido
mima a tua loucura
não encarcerada:
o filho do homem
(veio para nos salvar)
para que ela te renda bons frutos
tapa a boca
de todo controle exercido pela razão
Ana Guimarães
Era fim de junho, o tempo estável e a temperatura amena, estimulando passeios a pé (com calçados confortáveis para andar em ruas com paralelepípedos). No início as placas confundem um pouco por causa dos dois idiomas utilizados, o francês e o flamengo, mas depois você se acostuma e outras belezas podem ser apreciadas. A Cathedrale Saint-Michel, em estilo gótico. O Atomium, planejado para a Expo 58, sobreviveu tornando-se visita obrigatória, um símbolo nacional. O Mini-Europe, um parque com miniaturas dos pontos turísticos mais famosos do mundo. O Royal Museum of Fine Arts e o Royal Palais. A Place Grand-Sablon. Murais com quadrinhos são encontrados em vários quarteirões, fazem parte da cultura belga, mas o museu dedicado a eles, a 30 quilômetros, na vizinha Louvain-la-Neuve, vale uma visita. Quem não conhece Tintin, desenho em quadrinhos criado por Georges Remi, mais conhecido como Hergé, um trocadilho com as iniciais do seu nome, considerado o Walt Disney europeu? O herói Asterix, dos gibis da minha infância, também é originário daqui.
Maravilha gastronômica, a Rue de Boucheurs é muito freqüentada graças aos excelentes restaurantes; mexilhões pescados no mar do Norte são a especialidade do lugar. Outro alimento típico, ideal para um lanche, é o waffle (originalmente produzido como hóstia, para missa), mais volumoso e macio do que o tradicional por ser muitas vezes fermentado, assim me explicaram. E o chocolate é um capítulo à parte, trazido pelos espanhóis quando estavam sob o domínio dos Habsburgos e depois aperfeiçoado quando o cacau era transportado da colônia africana Congo Belga; deliciosos são os pralines (recheados).
Não deixe de ir a Bruges, cidade medieval, em seus primórdios com poderosa indústria têxtil e fértil contato comercial com a Inglaterra. Reza a lenda que no fim do século XV chegou a ter o dobro dos habitantes de Londres, porém o canal que a conectava ao mar estrangulou, deixando-a isolada, paralisando-a por mais ou menos quatrocentos anos. Os guias contam a seguinte história: turistas ingleses começaram a chegar depois de Waterloo, (ali perto, onde Napoleão perdeu a guerra, lembra?) e depois também que um romance foi publicado (Bruges, a morta). Tudo isso acabou por ressuscitar o turismo que a movimenta até hoje.
Um intelectual quando ouve falar em charuto, pensa em Freud. Quando ouve “cachimbo” pensa no surrealista Renée Magritte, pintor belga cuja tela-ícone é de um cachimbo com a inscrição “isso não é um cachimbo”, lembrando que não se trata de um cachimbo real e sim de sua representação. Ele salientava que não importa o quão perto a arte realista chegue, nunca alcança a coisa propriamente dita. “As pessoas que procuram significados simbólicos não conseguem captar a poética e o mistério inerentes à imagem. Ao perguntar ‘O que isso significa?’, elas expressam o desejo de que tudo seja compreensível”. Quem quiser procurar, o quadro se chama A traição das imagens. E a quem interessar possa, a taverna Greenwich é uma parada obrigatória, ele costumava frequentar o local para jogar xadrez. No Musée d’Art Modern encontra-se a extensa coleção de obras do pintor.
Uma homenagem a um dos meus artistas preferidos, mais especificamente à minha pintura favorita, denominada O Filho do Homem:
O FILHO DO HOMEM
Conserva alguma lucidez
– só alguma –
na hora de criar
não te queixes de condições adversas
elas são um bom fermento
e a liberdade
o único fanatismo permitido
mima a tua loucura
não encarcerada:
o filho do homem
(veio para nos salvar)
para que ela te renda bons frutos
tapa a boca
de todo controle exercido pela razão
Ana Guimarães
domingo, 1 de maio de 2011
NOME DO PAI
Um pai – disse Stephen, batalhando contra a desesperança – é um mal necessário.
(Joyce - Ulisses)
Em que a arte pode desmanchar o que se impõe pelo sintoma?
(Lacan - Seminário James Joyce, o Sintoma)
Não me falte, senão enlouqueço. Preciso de um corte. De barreira que me segure. De fronteira, pra cruzar. Limite, pra transgredir. Regra, pra fazer exceção. Necessito de um nó pra me sustentar, do contrário descosturo. De um ponto de basta pra por termo a tanto revirão. De lei, que determina o desejo: foi proibido, eu quero. Dela me sirvo pra não ficar à deriva. Minha âncora, quando desgarrado.
Deixo-me interrogar, uma vez que a ignorância tem um preço e é alto. Entrego-me a essa dolor, douleur, pain. Ela resulta de estímulos pulsionais que irrompem na mente, atestando o fracasso das instâncias protetoras, só isso. Tudo isso, quando dói, e é quase sempre. Dor também é desafio, em espanhol: duelo, derivado do latim: duelum. Se parece que não agüentamos mais é porque aí está quente, estamos perto de algo que nos concerne, de um lugar sensível qualquer, nevrálgico, ali onde o Real nos reclama se lhe damos dignidade de chamada e ousamos responder. Se assim não for ele fica solto, e com o imaginário longe periga correr fora do enlace da palavra. Sem sutura. Sem sentido.
Você não veio, eu escrevo. Produzo meu próprio nome. Teço ali onde o tecido está esgarçado, cirzo. As linhas arrancadas da carne, feito Bispo do Rosário que desfazia o uniforme para com os fios coser o seu manto. Estou nu. Despi um santo ego para vestir outro, de autor, pois apontar toda a verdade não equivale a bem dizê-la, como se pensa, ao contrário, dessa forma ela está mal dita. Maldita! Ela tem que ser parcial para ser bem-dita, senão é o caos, suporto até certo ponto, a partir daí me desestruturo.
Éramos bestas, e a evolução (o sopro divino) – com a dádiva da construção do pensamento e seu corolário, a linguagem – nos humanizou. Resta, porém, um gap entre enunciado e enunciação. Penso, "logro sou" é a crítica ao cogito de Descartes, esse engano. Somos sujeitos letrados, mas a letra é quem nos soletra. Tive que traçar muita leitura pra saber, ao menos, quem não sou. Quem sou sigo (des)cobrindo pela vida afora, cada texto re-vela (vela de novo) minha identidade, ao mesmo tempo em que a expõe, em diferentes escritas de imagem. Num constante endereçamento a um outro ausente, faltoso, ainda que presente.
Escrevim. Vim, vi e escrevi. Só assim venci: através da literatura, artifício que compensa aquela falha, suplência à falta do nome-do-pai, ao seu rateio. Trançado graças ao qual não sucumbo. Um achado, onde me encontro e me autor’izo por mim mesmo. Laço finalmente dado. Simbolização alcançada ainda que tardia e fadada ao insucesso, já que escrever é um ato impossível. O que não impede que se continue tentando, como Beckett: Fail. Fail again. Fail better.
Ana Guimarães
Texto já publicado em: http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=2506
(Joyce - Ulisses)
Em que a arte pode desmanchar o que se impõe pelo sintoma?
(Lacan - Seminário James Joyce, o Sintoma)
Não me falte, senão enlouqueço. Preciso de um corte. De barreira que me segure. De fronteira, pra cruzar. Limite, pra transgredir. Regra, pra fazer exceção. Necessito de um nó pra me sustentar, do contrário descosturo. De um ponto de basta pra por termo a tanto revirão. De lei, que determina o desejo: foi proibido, eu quero. Dela me sirvo pra não ficar à deriva. Minha âncora, quando desgarrado.
Deixo-me interrogar, uma vez que a ignorância tem um preço e é alto. Entrego-me a essa dolor, douleur, pain. Ela resulta de estímulos pulsionais que irrompem na mente, atestando o fracasso das instâncias protetoras, só isso. Tudo isso, quando dói, e é quase sempre. Dor também é desafio, em espanhol: duelo, derivado do latim: duelum. Se parece que não agüentamos mais é porque aí está quente, estamos perto de algo que nos concerne, de um lugar sensível qualquer, nevrálgico, ali onde o Real nos reclama se lhe damos dignidade de chamada e ousamos responder. Se assim não for ele fica solto, e com o imaginário longe periga correr fora do enlace da palavra. Sem sutura. Sem sentido.
Você não veio, eu escrevo. Produzo meu próprio nome. Teço ali onde o tecido está esgarçado, cirzo. As linhas arrancadas da carne, feito Bispo do Rosário que desfazia o uniforme para com os fios coser o seu manto. Estou nu. Despi um santo ego para vestir outro, de autor, pois apontar toda a verdade não equivale a bem dizê-la, como se pensa, ao contrário, dessa forma ela está mal dita. Maldita! Ela tem que ser parcial para ser bem-dita, senão é o caos, suporto até certo ponto, a partir daí me desestruturo.
Éramos bestas, e a evolução (o sopro divino) – com a dádiva da construção do pensamento e seu corolário, a linguagem – nos humanizou. Resta, porém, um gap entre enunciado e enunciação. Penso, "logro sou" é a crítica ao cogito de Descartes, esse engano. Somos sujeitos letrados, mas a letra é quem nos soletra. Tive que traçar muita leitura pra saber, ao menos, quem não sou. Quem sou sigo (des)cobrindo pela vida afora, cada texto re-vela (vela de novo) minha identidade, ao mesmo tempo em que a expõe, em diferentes escritas de imagem. Num constante endereçamento a um outro ausente, faltoso, ainda que presente.
Escrevim. Vim, vi e escrevi. Só assim venci: através da literatura, artifício que compensa aquela falha, suplência à falta do nome-do-pai, ao seu rateio. Trançado graças ao qual não sucumbo. Um achado, onde me encontro e me autor’izo por mim mesmo. Laço finalmente dado. Simbolização alcançada ainda que tardia e fadada ao insucesso, já que escrever é um ato impossível. O que não impede que se continue tentando, como Beckett: Fail. Fail again. Fail better.
Ana Guimarães
Texto já publicado em: http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=2506
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