quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A ARTE DE PERDER

A arte de perder

Comecei a perder, antes mesmo da pandemia
Perdi poder aquisitivo, viagens ao exterior
Depois a família, que foi morar fora do Rio
Perdi a saúde, sem ter nenhum fator de risco
Aí perdi o apetite, peso, noites de sono
Perdi o cabelo
E minha identidade, ao me olhar no espelho
Quase perco uma cidade inteira, meu lar
Mas resisti, e aqui continuo
Perdi boa parte da aposentadoria
E por isso, o mastologista particular tão querido 
Perdi meu carro, minha autonomia
Perdi a psicóloga e o ortopedista
Agora talvez perca a condição de receber
Meu amado neto, para morar comigo 

Ana Guimarães 


domingo, 30 de abril de 2023

VOVÔ GOMES E A ORELHA DO BURRO


Vovô* Gomes e a orelha do burro


Li em algum lugar que esse sobrenome, segundo alguns registros, tem origem portuguesa no prenome medieval Gome ou Gomo, provindo do visigótico Guma, abreviatura de Gomarius, homem da guerra. 

Faz sentido. Aquele jovem senhor viúvo, pacífico comerciante, sempre de bem com familiares, amigos, vizinhos e empregados tinha pavio curto. Um problema doméstico à toa e saía do sério, surgia um belicoso guerreiro. 

Roupa mal passada era amassada e devolvida à lavanderia. Não admitia nenhuma mancha na toalha de mesa onde ainda se faria a refeição. Exigia louças, talheres e copos impecáveis, mesmo os usados no dia a dia. A comida precisava ter acabado de ser feita e servida fervendo. Fruta não é sobremesa, dizia, tragam doce de leite, pavê, pudim, goiabada cascão, marmelada Colombo. 

Traços herdados por mim, a família zoa. Então deve estar no DNA, já que convivemos tão pouco, eu tinha quatro anos quando meu avô “sumiu no mundo sem me avisar”, um ataque cardíaco fulminante o levou, antes dos cinquenta.

Foi difícil lá voltar depois da sua morte, ano após ano, no Dia de Finados, até a casa ser vendida. Um vazio jamais preenchido, não houve lágrima que desse conta. Que falta fazia aquele vô alegre, brincalhão, que se ajoelhava e abria os braços para nos receber, num abraço em que cabia todo mundo.

Sentado no chão com os netos, fazia pilhas de moedas, de alturas e valores diferentes, e nos mandava escolher. Foi assim que, bem pequenos, fomos apresentados ao valor do dinheiro. Aprendemos a poupar, para comprar algo, se não tínhamos em mãos a quantia necessária para isso. Ou a pedir emprestado e pagar com um pequeno ajuste, “recompensa” para quem nos adiantou o capital. Quase um bê-a-bá de educação financeira para crianças (acho que meu irmão, economista, ficou com esse legado).

O que eu curtia era ouvi-lo contar passagens da sua vida, reais ou inventadas. Dramatizava (outra característica minha, segundo a amiga astróloga, culpa dos quatro planetas em sagitário, além do signo) para ficar mais crível, mas o efeito às vezes era oposto, gerava desconfiança, no mínimo dúvida, o que me intrigava. 

Só tive certeza de que a tal cobra que ajudou a capturar na fazenda não era invenção no dia em que mamãe me mostrou o sapato e a bolsa feitos com a sua pele, por seu Martins, o sapateiro da rua da Conceição, na Cidade (naquela época era assim que nos referíamos ao Centro do Rio).

A da orelha do burro pensei que fosse piada, porque contada e repetida às gargalhadas, mas há testemunhas. Um dia, atrasado para o trabalho e já irritado com a situação - um animal empacado numa ponte - partiu para o corpo a corpo e aprontou esse absurdo. Pelo menos o pobre do bicho saiu correndo em disparada, liberando o caminho. Daí a fama dos Gomes: são esquentados, capazes até de morder orelha de burro.

Curioso é que meu pai na hora em que me registrou resolveu omitir o sobrenome Gomes da minha certidão de nascimento. Fiquei só com o dele, Rebello (também português, oriundo da Península Ibérica, da Itália ou dos Açores, há divergências). Na verdade sofri mais duas perdas: um l (tendo ficado Rebelo) e um n, do nome próprio, homenagem a Anna, a avó materna, porque o teimoso escrivão do cartório assim determinou. Mas ganhei Emília (um tributo à mãe do meu pai). E, por casamento, virei Guimarães, que acredita-se tenha vindo da palavra germânica Wimaranes, que significa terra de cavalos de combate. Mas aí já é outra história. 

*O único que conheci, quando nasci os outros três já tinham morrido. Mas ele compensou direitinho.

Ana Guimarães

domingo, 23 de maio de 2021

POESIA DO REAL

          POESIA DO REAL


O impermanente, eternizar
a infinitude, aspirar
sonhar
que a morte nada mais é
do que uma porta giratória
pela qual se vai, continuamente, dar
no mesmo lugar

o que poderia me fazer calar
me faz cantar (digo, escrever)
esse canto, mesmo com espanto
que sai do meu bico
esse mito que invento
pra não desistir
pra não ter que encarar o nada
torno-me alada
e no céu da história
plano

transformo música em letra
traduzo, verto, translitero
pego o real pela cauda
e lhe dou um brilho
de estrela

tomo os excessos que escorrem
– selvagens –
como espuma no corpo
e os faço miragem
oásis em solo deserto

o mesmo real que, parece,
partiu minha vida em metades
minou vontades
desenha uma nova imagem
e faz renascer o que não quer morrer
para sempre

estranha e súbita conversão
a arte, essa desconhecida
visita a perfumar o calabouço
onde há pouco pensava eu
cortar o pescoço

outro ser nasce diante de mim
ou o descubro, não sei
no final (a operação/batalha é vital)
atravesso o espelho
e ganho a guerra:
de novo a desabrochar
a  flor do desejo

aquele muro onde me recostava
no escuro
visitando sepulcros
mesmo prenhe de saudade
(ou et pour cause)
emoldura agora um futuro

instantes dissonantes
corpos mortos, em lajes frias
agora dobrados, como sinos
em bela sinfonia
pura harmonia

e eu que pensava não saber
(não sei) o que fazer
com aqueles restos
de repente via, ouvia
tudo mudar de lugar e de sentido:
a poesia se fazia

falei em calabouço? A liberdade
seu germe, por paradoxal que seja
lá está: na prisão da verdade
não nas tontas e vaidosas
mentiras prontas

Ana Guimarães 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

TALiSMÃ

 Geme a centenária mangueira, abatida por seus algozes após querelas com a vizinhança, serra elétrica a cortar galhos e esperanças, melindrando até os mais insensíveis. Foge a passarada e seu primoroso canto, assim que se descobre sem teto. O terreno, silencioso, após uma breve estadia como estacionamento é transformado num burburinho de peões e bate-estacas, desde o alvorecer. Um prédio nascia, mas muito antes que arranhasse o céu uma cena insólita podia ser presenciada. Bem-te-vis, sabiás, pardais e cambaxirras voavam em volta e pousavam, novamente alçavam voo e voltavam, num frenético vai e vem. Sempre aos gritos, batendo asas, em protesto. A mãe frondosa e aconchegante havia sido substituída pela frieza dos tijolos, cimento e vigas aparentes.

Como os pássaros, retorna a anciã ao lugar onde morou um dia e o encontra choroso. A casa luminosa de outrora não mais existe. Só fechando os olhos para melhor visualizá-la. A fachada,  descaracterizada, pudesse, se esconderia, de tão envergonhada. Um portão novo, mudo, que não canta mais rangido algum ao se abrir, descortina tristes mudanças. As antigas janelas de madeira, maltratadas por chuva e sol, é verdade, foram trocadas por horrendas esquadrias metálicas. Maçanetas de porcelana pintadas à mão, já trincadas, naquela época, aqui e ali, substituídas por coloridas bolas laqueadas. Antes em ruínas, deteriorando-se com dignidade, do que ordinariamente reformada assim, curvada aos modismos que teimam em impor a estreiteza do igual, do prático, do funcional, numa errônea compreensão de progresso.
Preferível a terra ressequida e as folhas amareladas em um ou outro dos inúmeros vasos de antigamente do que as plantas artificiais que aí estão agora. As formigas obreiras decerto foram passear em outro piso. Lagartixas equilibristas devem ter errado o passo e despencado das paredes. Expulso o cupim que fazia chover aquele pozinho no meio da noite, fazendo-a espirrar até dizer chega. E os cogumelos brotando das vigas de madeira da varanda, para aonde foram? Os piados dos ninhos no telhado? Os pelos de gato no estofado do sofá puído e arranhado? As marcas das patas do pastor alemão no chão da cozinha, sempre precisando de um pano molhado? 
Desce ao porão e escuta o seu lamento. Veja, nenhum pó, nem mofo. Nada de teias de aranha, onde já se viu? Até cheirando à limpeza, um desatino. Tão bom aquele reboco que caía aqui e ali. Quando menina você gostava de futucar com o dedinho, lembra? Até ficar um rombo na parede. Até que a mãe, já com a vassoura e a pá, pronta pra lhe dar um pescoção, vinha varrer, resmungando o trabalho extra. Ah, velha amiga, seria preciso raspar, cavoucar, qual um palimpsesto, para que a minha beleza oculta aparecesse, meu verdadeiro texto original. Como se o passado nem mais existisse, como se o contemplasse por outra lente, a da memória, que tanto distorce. Ao menos você, companheira, testemunhou o que fui. 
Todos os outros se foram, levados pelo redemoinho que é o tempo. Ninguém com quem partilhar lembranças. Ninguém mais para me abraçar e me proteger da fria aragem que o anoitecer carreia. Resta-me sentar no enferrujado balanço que jaz na varanda, corpo no necrotério, e contemplar o céu, esse sim, o mesmo de sempre. Estrelas mortas há trilhões de anos, ainda piscam, iludindo. No canto de um degrau da escada, amassado talvez porque mil vezes pisado e chutado, o velho talismã da sorte. Perdido para sempre.
Ana Guimarães
 
 
 
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Feliz 2021!

 Zapeando peloFacebook, Instagram, Messenger, ou WhatsApp o tal do “Não cancele 2020” logo surge, não sei se já viram.


“Não cancele 2020 porque ele lhe fez valorizar a vida, ver o quanto você era consumista, ter empatia pelos que sofrem, pelos que não tem uma vida confortável como a sua, e partir para ajudar alguém necessitado”.

Por mim cancelo. Sem falsa modéstia, não me enquadro em nenhuma dessas situações, quem me conhece sabe.

Cancelo sim o ano que me trouxe tristeza como nenhum outro porque me afastou não temporária, mas definitivamente do contato diário com os meus netos, que sempre tanta alegria me deram, e alimentavam meu natural otimismo e gosto pela vida.

Um ano em que, muitas madrugadas insones passei revendo nossas fotos juntos, para mitigar a saudade. Mas ruminar momentos felizes que tem pouca chance de volta só gera mais sofrimento.

Um ano em que fui obrigada a manter isolamento social, por recomendação médica. Embora seja caseira (por meu antigo amor aos livros e relativo recente horror a barulho), ficar sedentária, sem frequentar academia e sem poder estar com os amigos foi muito ruim. 

2020 só serviu para me embriagar com filmes e séries que maratonei: meu muito obrigada a Netflix, HBO, Amazon Prime e outros, vocês me salvaram.

Melhor nem olhar para trás. A única coisa a se comemorar é que 2020 acabou, e agradecer pela minha saúde e dos meus entes queridos.

Que 2021 nos traga vacinas, com imunidade por um prazo razoável e alta proteção contra reinfecções, com o consequente tão sonhado retorno da liberdade de ir e vir, de preferência com segurança. Viagens? Não chego a tanto, talvez só em 2022.

Agora é ter esperança num novo tempo, aqui e no resto do mundo. Com autoridades responsáveis, que persigam a redução da desigualdade social que sempre existiu, mas ficou mais evidente com a pandemia. Com cidadãos que além de exigirem seus direitos também cumpram seus deveres, respeitem o meio ambiente, os espaços públicos e privados, valorizem seu patrimônio cultural. Utopia? Eu quero uma pra viver.

Feliz 2021 para todos!

Ana Guimarães

sábado, 26 de dezembro de 2020

Dia 26/12 Parabéns, Lipe!

 Saudades, só portugueses/Conseguem senti-las bem/Porque têm essa palavra/Para dizer que as têm. (Fernando Pessoa)

Dezembro era sinônimo de felicidade para mim, desde menina. Rio 40 graus. Adorava o verão, nem acredito. A maresia me inebriava. A luz do amanhecer, bem cedinho. Férias, praia todo dia, o dia inteiro. Sorvete até não poder mais. E o principal, a euforia das festas: meu aniversário, Natal, réveillon. 

Já adulta (e mais tarde com filhas, e depois genros), a decoração da minha casa sempre expressou cada um desses momentos festejados. E eu gostava de cozinhar para receber. Salgadinhos, bolos e doces no parabéns, comidas típicas natalinas, e pratos especiais para aguardar o estouro do champanhe na virada. A união das pessoas à mesa, durante as refeições, quando conversas se desdobravam, era a melhor parte do cardápio.

No dia 26 de dezembro de 2007, ganhei outro motivo de alegria, o nascimento do primeiro neto, Felipe, aqui desde então, de manhã à noite, enquanto seus pais trabalhavam. Primeiros sucos, papinhas, passos, desenhos, palavras, letras, primeiras leituras. E em 2011, só que em novembro, sua irmã Carolina, outro grude comigo, veio formar a dupla de crianças mais amadas da face da terra. Durante uma boa época, muito bem vivida, eu fui a “vãe” deles. 

Mas nesse triste 2020 um dezembro cinza foi decretado, nem o pior dos pesadelos anteviu. Um espanto tão grande que não consigo me calar. Deixou a mente atônita e o coração esmagado. Impossível qualquer data comemorar. 

Tudo passa e o tempo (quase) tudo cura, mas a impressão agora é que o resto da vida, ano após ano, até o fim, jamais seria o mesmo, se o contato diário com esses dois entes queridos fosse perdido para sempre. 

Feliz Aniversário, Lipe!

Ana Guimarães

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Dezembro

 


Perdas e ganhos, a vida se resume a isso. Não teria do que me queixar, comparada ao resto da humanidade meu saldo foi pra lá de positivo, por isso sempre fui grata e tentei retribuir o privilégio, ao longo dos anos. Mas os últimos meses não têm sido fáceis, de desanimar até uma otimista incorrigível como eu, com uma fé inabalável no ser humano.
Primeiro dezembro que quero estar em casa só com o marido, companheiro de jornada. Tanto no meu aniversário (hoje), como no Natal e no Ano Novo. Em silêncio, dando tempo ao coração para se conformar com a perda do convívio estreito e diário com os netos, desde os seus nascimentos,  já que agora sua moradia temporária fora do Rio virou definitiva. 
Minhas congratulações a todos que estão conseguindo sobreviver física/emocional/espiritual e materialmente a essa pandemia e suas nefastas consequências.
Ana Guimarães 

sábado, 5 de dezembro de 2020

LUTO

Luto não é doença, nem só tem a ver com morte. Tristeza não é depressão, ela indica que alguma coisa, pessoa ou situação que realmente importava se foi, acabou.

E nem sempre a não solidariedade manifesta significa insensibilidade, ou mesmo indiferença. Muitas vezes as pessoas têm dificuldade de escutar o lamento, o choro, o sofrimento do outro porque estão anestesiados dos seus próprios, vestem uma couraça e é difícil dela se desfazer.

Porque não sabem falar, muito menos ouvir sobre perdas, é incômodo, tendem a querer que o amigo “se recupere” logo, pare de sofrer, mas isso tem um tempo para cada um, talvez seja preciso ficar em silêncio ou, ao contrário, repetir a verbalização da falta até à exaustão. 

E a raiva costuma ser mais um sentimento presente no processo, ela também precisa poder ser admitida e acolhida.

Querer preencher logo o vazio de um ente querido que foi embora pode ser até um ser sinal de desespero.  

A ausência, apesar de dor que carreia, também traz ensinamentos valiosos, mas esses são únicos, subjetivos, intransferíveis, dependem das circunstâncias de vida de cada um.
A elaboração pode custar um pouco a acontecer, mas quando vier, então será espontaneamente, de dentro para fora. 

 

Ana Guimarães 

 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

RESILIÊNCIA

Resiliência 


O tempo é um pasto

onde a tristeza trota

sem nunca se cansar

aí vem ela outra vez 

a distribuir flagelos

chicote com cheiro 

de couro novo 

e sangue pisado

 

os dias escorrem

só me pergunto por que

o beijo sempre tem que ser 

com ou sem canto de galo

véspera de traição

 

mas a alma é telhado

que abriga vários ninhos

à espera de que 

pássaros da felicidade

ponham mais ovos

sejam mais fecundos

 

ser refém da dor

é uma forma de prisão

uma hora 

quando menos se espera

você pia de contentamento

e voa de novo

 

Ana Guimarães



quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Parabéns, Carolina! 9 anos!

Parabéns, Carolina! 9 anos!

Foi a primeira vez que não programamos a festa, com antecedência, nos mínimos detalhes, curtindo cada decisão. Que não saímos para comprar, sempre nos divertindo, a roupa e o sapato que vc usaria no dia. Que não pedi aquelas maravilhosas balas de coco de Leopoldina. Que não encomendei seu bolo no tema escolhido. Que não cantei parabéns pra vc, ao vivo e a cores, abraçando-a e beijando-a muito, em seguida. 

Só pude parabenizá-la por telefone, mas já valeu quando eu lhe disse: se Deus quiser, no ano que vem, sem pandemia, estaremos juntas e vc respondeu, imediatamente: com certeza, vovó! 

E ontem mesmo, travamos um breve mas significativo diálogo. Falei: estou jogando na loto, e se eu ganhar, a primeira coisa que farei será comprar um apartamento para vcs voltarem a morar aqui pertinho, quer? E vc: quero não! Quero um no seu prédio, para eu poder ir a qualquer hora, toda hora, sozinha, para sua casa. (O famoso “Não tem preço!”)

 Até lá não sou mais Ana Guimarães, Anuxa para os íntimos. Saudade é meu nome, sobrenome e apelido. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

POESIA É CICATRIZ

POESIA É CICATRIZ

 

A música cessou 

(com ela, a cor e o perfume)

não aquela alta, que entorpece ou irrita

a suave, quase inaudível 

mas não para os surdos

e sim para os insensíveis

o silêncio, a paz e a ordem 

agora reinam

cheiram 

a imobilidade

onde está a vida?

o que fazer, perdida

na cinza planície da saudade?

Aceitar o cinzel da História 

é preciso

até que algum clarão 

ilumine a escuridão presente

desenrole o fio do novelo

invente o grão de uma nova ideia


Ana Guimarães 

domingo, 8 de novembro de 2020

DIA DE FINADOS

DIA DE FINADOS

Minha reverência a todos os entes queridos que partiram. Avós (quem teve a sorte de conhecê-los e com eles conviver). Pais (mortos ou mortos-vivos do Alzheimer ou qualquer enfermidade degenerativa). Irmãos (inclusive os que perdemos em acidentes, para as drogas, a doença mental, o fanatismo religioso ou ideológico). Filhos (os que não chegaram a nascer ou viveram por pouco tempo, ou ainda aqueles que simplesmente um dia resolveram ir embora em busca de aventura, estudo ou trabalho, não importa, continuaremos a a nos importar com eles, a sentir sua falta). E netos, aqueles que, ainda não tendo autonomia sobre suas vidas, são levados por seus responsáveis para viver em outra cidade, estado, país, deixando nossos corações partidos para sempre.

Ana Guimarães 

domingo, 11 de outubro de 2020

APRENDER A BRINCAR

O artista dá forma bela ao desejo proibido, para que cada um comprando dele seu pequeno produto de arterecompense e sancione sua audácia. (Lacan)

 

Ao brincar, a criança cria um mundo próprio, só seu, onde os elementos são reajustados dmaneira que lhe agrade. Leva a sério a brincadeira e nela dispende grande quantidade de energia. Se for examinada por um médico ou sofrer alguma intervenção cirúrgica, de certo o fato será tema para novos divertimentostransferindo a experiência desagradável ameaçadora sentida para o amiguinho companheiro de folguedos (que passa a ser a vítima), resgatando assim sua posição de sujeito no mundo. No entanto, ela distingue, com clareza, o brincar da realidade. Estabelece relações entre seus objetos e situações criadas e as coisas visíveis que a cercam. O mesmo faz o escritor, e Freud observa essa relação preservada pela linguagem: em alemão, spiel (peça)uma forma literária que pode ser representada, e lutspiel (comédia) e trauerspiel (tragédia) significam, respectivamente, brincadeira prazerosa e lutuosa

 

Ao crescer, a pessoa para de brincar (tanto) a fim de enfrentar os embates da vida. Na verdade, ela não renuncia a um prazer que experimentou antes, apenas o troca por um substituto: agora ela cria castelos no ar e devaneiosPequena, não ocultava seus jogos que também expressavam o desejo de ser grande. Adulta, envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e/ou proibidas. Ninguém fala delas por pudor, só em análise, e mesmo assim, com dificuldade, porém a criação imaginária do escritor permite que isso aconteça sem que a exposição seja diretainclusive porque o trabalho pode não ser conscienteAtravés de alterações e disfarces ele as descaracteriza de tal forma que elas perdem o caráter pessoal e são oferecidas como preliminares estéticos aos leitores, a fim de proceder a uma oferta posterior de um prazer ainda maior, qual seja, a liberação de tensões e até a comparação com fantasia de cada um, a partir daí percebida sem culpa ou constrangimento, numa verdadeira suspensão da inibição.

 

Quando adulto, o sujeito pode considerar que do mesmo modo que brincava com seriedade pode ocupar-se de suas atividades sérias ludicamente. O humor atua como substituo de afetos dolorosos, várias piadas confirmam isso. Um condenado sendo levado à execução numa segunda feira: “estou começando mal a semana”. Outro, sendo levado à forca: “por favor, um lenço para eu cobrir a garganta, senão vou pegar um resfriado. A compaixão que teríamos pelos condenados é refreada, pois percebemos que eles mesmos não se preocupam com a sua sorte. Muitas vezes o humor é produzido à custa da raiva, a gente ri em vez de se zangar, como nessoutra: um homem estava escondido num abrigo subterrâneo, onde todas as noites uma vaca lhe caía em cima, apagando-lhe a chama da vela. Na 46ª noite ele diz: "A coisa está começando a ficar monótona." É possível fazer graça de qualquer emoção, até do repulsivo, vide alguns filmes de terror

 

O homem não pode subsistir com a escassa satisfação que obtém da realidade. Sencontro com o outro é incompleto, ambíguo, traumático, esse furo ele obtura com a fantasia. Porém o fator quantitativo deve ser levado em conta, sua capacidade de sublimação respeitada: que cota de libido não utilizada, que quantum de pulsões sexuais e agressivas uma pessoa é capaz de desviar de sua finalidade? O escritor, esse dependente da pena, espera que sua ficção fale por si, daí tantos considerarem dispensável serem chamados para explicar suas letras, que o leitor tire o que quer e o que pode de um texto, que se vire sozinho. Até porque o autor não detém conhecimento sobre o inconsciente, esse bastidor da criação, é a própria obra que veicula o saber pelos efeitos que provoca em quem a aprecia. Também não se leia aqui uma apologia da ignorância ao escrever, apenas destaco, como muitos já o fizeram, que um excesso de controle, de seriedade pode engessar a criatividade. Aprender a brincar é preciso. Como gozar, é deixar ir.

 

Ana Guimarães

 

Baseado no texto Escritores criativos e devaneios, de Sigmund Freud.