O artista dá forma bela ao desejo proibido, para que cada um comprando dele seu pequeno produto de arterecompense e sancione sua audácia. (Lacan)
Ao brincar, a criança cria um mundo próprio, só seu, onde os elementos são reajustados de maneira que lhe agrade. Leva a sério a brincadeira e nela dispende grande quantidade de energia. Se for examinada por um médico ou sofrer alguma intervenção cirúrgica, de certo o fato será tema para novos divertimentos, transferindo a experiência desagradável e ameaçadora sentida para o amiguinho companheiro de folguedos (que passa a ser a vítima), resgatando assim sua posição de sujeito no mundo. No entanto, ela distingue, com clareza, o brincar da realidade. Estabelece relações entre seus objetos e situações criadas e as coisas visíveis que a cercam. O mesmo faz o escritor, e Freud observa essa relação preservada pela linguagem: em alemão, spiel (peça), uma forma literária que pode ser representada, e lutspiel (comédia) e trauerspiel (tragédia) significam, respectivamente, brincadeira prazerosa e lutuosa.
Ao crescer, a pessoa para de brincar (tanto) a fim de enfrentar os embates da vida. Na verdade, ela não renuncia a um prazer que experimentou antes, apenas o troca por um substituto: agora ela cria castelos no ar e devaneios. Pequena, não ocultava seus jogos que também expressavam o desejo de ser grande. Adulta, envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e/ou proibidas. Ninguém fala delas por pudor, só em análise, e mesmo assim, com dificuldade, porém a criação imaginária do escritor permite que isso aconteça sem que a exposição seja direta, inclusive porque o trabalho pode não ser consciente. Através de alterações e disfarces ele as descaracteriza de tal forma que elas perdem o caráter pessoal e são oferecidas como preliminares estéticos aos leitores, a fim de proceder a uma oferta posterior de um prazer ainda maior, qual seja, a liberação de tensões e até a comparação com a fantasia de cada um, a partir daí percebida sem culpa ou constrangimento, numa verdadeira suspensão da inibição.
Quando adulto, o sujeito pode considerar que do mesmo modo que brincava com seriedade pode ocupar-se de suas atividades sérias ludicamente. O humor atua como substituo de afetos dolorosos, várias piadas confirmam isso. Um condenado sendo levado à execução numa segunda feira: “estou começando mal a semana”. Outro, sendo levado à forca: “por favor, um lenço para eu cobrir a garganta, senão vou pegar um resfriado”. A compaixão que teríamos pelos condenados é refreada, pois percebemos que eles mesmos não se preocupam com a sua sorte. Muitas vezes o humor é produzido à custa da raiva, a gente ri em vez de se zangar, como nessa outra: um homem estava escondido num abrigo subterrâneo, onde todas as noites uma vaca lhe caía em cima, apagando-lhe a chama da vela. Na 46ª noite ele diz: "A coisa está começando a ficar monótona." É possível fazer graça de qualquer emoção, até do repulsivo, vide alguns filmes de terror.
O homem não pode subsistir com a escassa satisfação que obtém da realidade. Se o encontro com o outro é incompleto, ambíguo, traumático, esse ‘furo’ ele obtura com a fantasia. Porém o fator quantitativo deve ser levado em conta, sua capacidade de sublimação respeitada: que cota de libido não utilizada, que quantum de pulsões sexuais e agressivas uma pessoa é capaz de desviar de sua finalidade? O escritor, esse dependente da pena, espera que sua ficção fale por si, daí tantos considerarem dispensável serem chamados para explicar suas letras, que o leitor tire o que quer e o que pode de um texto, que se vire sozinho. Até porque o autor não detém o conhecimento sobre o inconsciente, esse bastidor da criação, é a própria obra que veicula o saber pelos efeitos que provoca em quem a aprecia. Também não se leia aqui uma apologia da ignorância ao escrever, apenas destaco, como muitos já o fizeram, que um excesso de controle, de seriedade pode engessar a criatividade. Aprender a brincar é preciso. Como gozar, é ‘deixar ir’.
Ana Guimarães
Baseado no texto Escritores criativos e devaneios, de Sigmund Freud.
domingo, 11 de outubro de 2020
APRENDER A BRINCAR
domingo, 16 de agosto de 2020
SONETO DA DEVOÇÃO
SONETO DA DEVOÇÃO
Solteira, jornalista, única sobrevivente de um acidente de carro com a família quando ainda criança. Tendo herdado vasta biblioteca, lê, com voracidade, desde então. O que não a impede de cultuar o corpo numa academia, cinco vezes por semana. Dona de uma beleza rara, caminha com desenvoltura, com um olhar de promessas que sempre se cumprem. Distribui prazer com generosidade, mas se alguém esboça querer um envolvimento maior, desconversa. Jamais experimentou um orgasmo, segredo não confidenciado nem mesmo para a melhor amiga, que inveja suas numerosas conquistas amorosas.
Divorciado, sem filhos. Tão fortemente apegado às origens que embora residindo no Rio desde o término da infância não consegue perder o irresistível sotaque mineiro. Atraente, entre outras coisas, devido à união de fortes traços masculinos a um discurso pacífico, doce, delicado, quase feminino, moldado em anos passados num seminário. O que não o impede de ser fascinado por armas de fogo, tal como seu pai, que teve morte trágica num acidente de caça. Toca piano numa casa noturna, garrafa de uísque ao lado, para relaxar e se desligar do trabalho como corretor da Bolsa, onde também faz uso de cocaína. Atribui a essa ciranda químico-emocional a embaraçosa impotência que o visita.
Há muito ele não se sentia assim. Desde o primeiro encontro, ao serem apresentados, sentiu como se uma aura os envolvesse, um espaço mítico de onde todos os demais no recinto pareciam estar excluídos. Logo, como de costume, ela emite sinais para que ele avance. Sem sucesso. Romântico, mal percebe, acha que é cedo, teme assustá-la. Prefere apenas lhe fazer a corte. Ela se recolhe e espera.
Uma noite o grupo de amigos estica num bar. Altas horas, todos se vão. Ele se encaminha para o carro, ela o segue em silêncio, qualquer palavra seria supérflua ou excessiva. É véspera de Natal e a excitação que toma conta da cidade ínfima comparada a deles.
Em casa, diligente como expedicionário guiado por um mapa, ele percorre o novo território passo a passo, preliminares das quais ela só se lembra de ter desfrutado nos tempos da adolescência. Ao tentar retribuir descobre uma pistola escondida sob suas roupas. A cidade anda perigosa, mas isso não, questiona, recuando amedrontada, como numa premonição. Ser interpelado dessa maneira o desconcerta, e logo ele se vê duplamente desarmado, a paixão o abandona naquela posição embaraçosa, quase ridícula, o corpo não reage ao que a mente deseja. Enquanto se veste e se recompõe, decepcionada e confusa, já ouve o som do piano invadindo todos os cômodos da casa, todos os seus sentidos.
O que quer que tenha havido não vai se repetir, diz ela chamando-me para a cama de novo. Hesito. Rindo de meus pálidos receios ela me convence e não me arrependo. Envolvente e sedutora, sabe como cativar, entremeando versos e palavrões, na mesma medida, às nossas carícias, parece mais acostumada a realizar fantasias e nada falar das suas.
Meu coração queima e a ela dou carinhos que nunca a outra dei antes. Essa exaltação de sentidos se confunde com felicidade. Mais tarde, sozinho, não posso deixar de observar que ela beija muito bem. Bem demais. Beijo técnico (o que quer que isso signifique), nada a ver com beijo de quem está envolvido. E transa do mesmo modo, preocupada com seu desempenho, excelente, por sinal, com um certo distanciamento crítico, como se estivesse olhando a coisa funcionar, com ou sem espelho. Parece uma puta, ou minha idéia do que isso seja, afinal tinha estado com muitas mulheres sem nunca ter precisado pagar por uma, nem quando garoto.
Com o tempo e a convivência me dou conta de que para me relacionar com ela só me despindo de expectativas, e isso não estou disposto a fazer, embora também não ouse pensar em perdê-la de vista. Ela própria se incumbe de desfazer minha ilusão de ser correspondido. Não parece querer compromisso algum, só praticar jogos sexuais sem entrega, num eterno deslocamento de parceiros. Já demonstrou desprezar qualquer tipo de sentimentalismo e a cobrança dele resultante. Confessa, sem pudor algum, estabelecer tênues vínculos com seus amantes como uma defesa, para quando quiser levantar âncora e partir. O amor é um privilégio que acarreta responsabilidades com as quais ela não parece querer/poder arcar.
Depois de certo tempo os homens tornam-se previsíveis, repetitivos, diz ela. Assim, sem mais. Com aquele sorriso encantador que termina com uma mordida no lábio inferior, como se estivesse mentindo. Adriana estava mesmo pensando: assim não corro o risco de descobrirem que sou uma fraude.
No lugar da intimidade, agora o esgarçar da confiança, o ciúme. Temo por essa fenda que se abre na caso idealizado por mim, que por aí escorra Adriana, levando junto minha auto-estima, meu equilíbrio, minha virilidade reconquistada.
Vamos para a noite, agitar? Viver freneticamente a afastava do perigo de viver, Adriana adorava inferninhos. Para azarar na minha cara. Cadela, ainda perco a cabeça e lhe dou um tiro. Luís torce o nariz. Não quer sair, está mais a procura do paraíso. A dois, de preferência.
Não complica, Luís, não precipita as coisas, lá vem você querendo discutir relação, isso é coisa de mulher, é seu traço mais chato. Fica na sua.
Como ficar na minha e deixá-la ir embora? Sabia que não seria para sempre, mas tão rápido assim? Curou a escuridão da insônia, o eterno afogar no poço da depressão alcoólica, a agitação maníaca de droga-adicto, minha impotência generalizada para a vida, mas criou nova dependência, mais grave: a ela. Meu único vício desde então. Meu bem, meu zen, meu mal, toco e canto a velha canção. De dentro da gaveta entreaberta, a arma me fita.
Ana Guimarães
domingo, 9 de agosto de 2020
PAI
Que falta, meu pai! Da sua mão sempre quente, pronta para acalmar a minha. Da segurança que transmitia. Meu guarda-costas. Com você por perto, tinha certeza, nada aconteceria.
Sempre pronto para me defender, incentivar e elogiar as medalhas penduradas no bolso do meu uniforme da escola. Ficava orgulhoso, franqueava sua biblioteca, sem censura. Liberava seus cigarros, vários maços abertos espalhados em lugares estratégicos da casa. Mesmo assim, passado o vestibular, não mais fumei, embora o aroma, que para tantos ex-fumantes seja repulsivo, para mim é como um túnel do tempo, transporta-me à sua doce presença, sempre com um entre os dedos, até nas poucas fotos que ficaram.
Oferecia-me seus vinhos, sob o olhar de desaprovação da minha mãe. Como vc só bebia uma taça por refeição, eles ficavam lá, esperando minha provadinha. E enquanto ela gritava quando sabia de um novo namorado meu, vc sorria, perguntava o nome do “sortudo” e eu ganhava um abraço de confiança nas minhas escolhas.
Nossos parentes, amigos, vizinhos, conhecidos eram brancos. Mas um dia eu trouxe minha colega, uma das melhores alunas da turma, para almoçar e fazer um trabalho comigo, depois das aulas. Negra. E vc pai, foi receptivo, caloroso, conversador, quase divertindo-se com a ousadia que chocou meio mundo.
É isso, pai. Eu nem gostava de passar férias todo ano em Brasópolis, Sul de Minas, me ausentar do Rio por tanto tempo, perder praias e saídas com o meu grupo. Nem curtia frio, cansar de subir e descer ladeira, chupar frutas quentes no pé (acostumada que era com geladeira), não ter cinema nem teatro para ir. Mas era a sua família, por isso eu ia. E tb pelo feijão no fogão a lenha da sua irmã, tia Quinha.
Obrigada, pai, por tudo.
Ana Guimarães
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
MONA LISA
Aqui minha homenagem, um Cut-up do texto de Freud “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância”.
MONA LISA
Sorriso enigmático. Olhar de esguelha. O que quer uma mulher? Não sei, nunca quis me aventurar, temo não compreendê-la. Desconfio que nem ela sabe falar do que deseja. Cansei de perguntas, desloquei minha libido para a pesquisa. Os por quês da infância se arrastando pela vida afora, derramando-se sobre todos os assuntos, infinitamente. E você fica aí rindo. Para mim. De mim.
Ah, Caterina, desde que aquele abutre – símbolo da maternidade, conheço bem a fábula sobre o único sexo dessa ave e sua autofecundação – desceu sobre mim em meu berço, abriu-me a boca com a longa e doce cauda, fustigando-me várias vezes os lábios, nunca mais fui o mesmo. É só uma recordação, bem sei, na verdade um resto de lembrança que talvez preencha a lacuna jamais explicada. Aquela coda invadindo minha boca, fantasia de fellatio, alusão à amamentação, primeira fonte de prazer. Uma cena de rara beleza. Eu, filho de abutre, nada mais. Como os primitivos, sem saber o que tem a ver o pai com a origem dos bebês, com o nascimento. Pensei, muitas vezes, na ausência dele, que você era tudo, a MUT egípcia, dotada de falo, completa, embora quando trocávamos de roupa no mesmo aposento isso não se revelava. Queria você me beijando apaixonada e repetidamente.
Por que sorri assim? Sorriso notável, fascinante e misterioso, reencontrado no belo rosto da florentina Mona Lisa Del Giocondo. Monolítico retrato. Sorriso leonardiano, assim conhecido para sempre. Por sua causa passei, em meu ateliê, a admitir só alunos bonitos, não me importava talento, nenhum se tornou pintor de importância. E como chorei sua morte! Com tristeza, mesmo sem derramar uma lágrima. Sorrindo, como você na tela. A perda do meu primeiro e único amor. Esfinge-sorriso, contraste entre reserva e sedução, ternura e sensualidade, destruindo quem não a decifra, eu.
Longos anos pintando, e ao final, você ainda estava inacabada. Não fui capaz de entregá-la a quem a encomendou, levei-a comigo numa viagem à França, onde meu patrono a adquiriu para o Louvre. Que poderoso fascínio exerce sobre mim! Reproduzido em todas as minhas criações, não consegui me libertar desse sorriso distante. Mulher idealizada e nunca possuída. Que me cumulou de carícias só para se consolar da ausência de um amor. Não me canso de olhar esse quadro, mesmo distante de mim, da pobre camponesa que deu à luz o filho cujo destino seria pintar e sofrer.
E tudo o que eu queria era ser/ter l’ucello (um pássaro, e também o órgão masculino). Na impossibilidade, construí vários brinquedos mecânicos, modelei animais em cera, todos voavam. Dotei de asas um lagarto de verdade, com ele me divertia em assustar os amigos e exorcizar fantasmas. Difícil me desligar da infância, quando me entreguei à sedução de seus beijos, que cedo despertaram minha sexualidade. E para quê? Preso para sempre à zona erógena da qual nunca mais me libertei, a boca. A esse sorriso.
Ana Guimarães
quinta-feira, 18 de junho de 2020
James Joyce - uma homenagem
Minha descoberta de Joyce foi sem interlocutor algum para dividir o impacto que seu texto me causava, quem estaria lendo Ulisses aos dezessete? Paixão à primeira vista. Totalmente rendida aos encantos, à mágica, à amplitude de suas letras, à proliferação de sentidos que o aparente caos de imagens e idéias provocava. Joyce me comprou, logo comecei a reler todos os seus livros, sempre traduzidos, mesmo advertida de que tradutore, traditore. Não posso me queixar, o que encontrei foi sempre mais criação, transliteração. Sou grata aos irmãos Campos, a Antonio Houaiss e a Bernardina da Silveira Pinheiro tão dignas empreitadas.
Mais tarde dei início à nova rodada, sob a batuta de Lacan, apoiada na partitura de seu seminário O Sintoma. Balizas que poderiam restringir, na verdade ampliaram minha escuta, como se um novo Joyce se descortinasse aos meus até então ingênuos olhos e ouvidos. Conhecê-lo por isso? Não. Entendê-lo? Menos ainda. Lendo-o sempre sim, no gerúndio, genuíno work in progress. Sua leitura, tanto quanto um processo analítico, é interminável.
Ao mesmo tempo em que pretendeu limpar o vocabulário do senso comum, da sujeira da funcionalidade, o autor também quis capturar o incapturável, numa ânsia pelo fonema que tudo abarcasse, o maior significado possível, uma utopia lingüística de nomear quase que termo a termo, totalmente, o mundo. Uma obsessão: a busca da homologia entre a palavra e a coisa. Quanto mais à vontade ficava em sua produção literária (o auge disso foi Finnegans Wake) mais demonstrava pretender a ampliação da língua, trabalhá-la, distendê-la, enriquecê-la, reescrevê-la, apropriando-se de territórios antes exclusivamente do Real, nomeando-os, trazendo expressões novas, engavetadas, inventando-as acima de tudo quando não tinha qual designasse o que pretendia. Penetra com vigor em sua tessitura e aí brinca, sem pudor, com maestria e gozo. Lembra Guimarães Rosa, meu escritor brasileiro favorito.
Escrevo apesar de mim, parece dizer. Não escolho, sou escolhido. Embora deixando-se perfurar por epifanias, ao invés de sujeitar-se às palavras impostas (mesmo atormentado por elas) teve a sabedoria de artífice para trocar de lugar, inverter as posições e quebrá-las, desmontá-las. Liberdade essa, de ir e vir, que representa um enfrentamento do paradoxo que roça a loucura. Joyce soube, como ninguém, suportar a dor do parto: dos escritos e de si mesmo, enquanto sujeito. Criando, ele se constituiu. O que lhe parecia estanque, disjunto é suturado via autoria, via escritura.
Tudo quanto é reto mente, a verdade é sinuosa, sabemos. Quanto mais confuso, quanto mais turvo, mais chance de verdadeiro. Quanto mais incerto, mais significativo. Nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam. Assim ele nos dá uma demonstração exemplar da estrutura do sujeito, sua divisão: sou e não sou, sou os contrários, os diferentes ao mesmo tempo, numa fala nem sempre coerente, nem sempre unívoca, mas autêntica. Ambígua, como a própria vida. Fracassa a compreensão, é para ser lido e não, necessariamente, entendido. Rasura as palavras, desfaz o sentido (ou finge desfazê-lo) para que cada leitor o reconstrua a seu modo, particular, único, diferente, daí se dizer que a obra de arte funciona como analista, provoca um estranhamento em quem dela desfruta, um descentramento, uma equivocação.
“Lost in translation” ficamos, mas não mais do que quem o lê no original, sei. Não mais do que o próprio Joyce estava. A literatura, como a psicanálise, é um viés no qual a gente se perde para se encontrar. Não serve para explicar, edificar, moralizar, muito menos para acomodar, tranqüilizar, adormecer tal como uma igreja ou partido político. Ao contrário, desperta da anestesia de um viver amortecido e da inconsciência do sono cotidiano. Esse foi o bê-á-bá que Joyce nos ensinou. Silabação que até hoje estudamos, como ele queria.
Ana Guimarães