quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

BARCELONA, LUMINOSA CIDADE



A linha reta é do homem, a curva pertence a Deus (Gaudi)


Barcelona, a primeira impressão, aquele instante, permanece a cantar até hoje em minha alma. Revejo a gélida noite de seis de janeiro. O coração logo aquecido, seu ritmo acertado ao ritmo da festa de Reis que incendiava as ruas da cidade. Como separar a dançarina da dança?, se perguntava Yeats. Só sei que rodopiei nos dias em que lá estive. E, sempre que a revisito na memória, bailo de novo.
A privilegiada localização do hotel em que fiquei, praça Catalunya, foi vital para a mobilidade e conseqüente melhor e mais rápido conhecimento de tudo, no tempo de viagem de que dispunha. Daí partem os ônibus turísticos que levam de uma atração a outra. Aí se encontra El Corte Inglês, loja de departamentos com ampla oferta de mercadorias de qualidade (a preços razoáveis, pois estava em rebaja (liquidação)). Aí também começa a famosa La Rambla (onde se pode tanto visitar o mercado La Boqueria e se abastecer com pães, queijos, vinhos, frutas secas e o maravilhoso jamon (presunto cru) quanto assistir a um espetáculo no Gran Teatre Del Liceu - Montserrat Caballé tinha estreado na véspera, mas os ingressos para a temporada já estavam esgotados). Esta, por sua vez, termina em um ponto igualmente importante: o monumento a Colombo, no Portal de la Pau, marco que comemora a vitoriosa volta do navegador após sua primeira expedição ao Novo Mundo. Bem perto, no Port Olimpic, é possível sair ao mar em barcos chamados Golondrinas (tradução: andorinhas, que, nunca sós, sempre em bando, dando vôos rasantes sobre as cabeças dos turistas, fazem verão em pleno inverno).
Passeig de Gràcia, paralela a Rambla, entre outros motivos, merece uma caminhada. Deixei-me embriagar pelas vitrines de joalherias e sofisticadas grifes, e ainda tive a sorte de conseguir comprar na loja Vinçon, de design, uma caneta finíssima, nos dois sentidos, para Nanda, minha filha designer. Além disso, depois de tanta andança, já distante dessa área, descobri a oficina manual de alpargatas catalãs típicas: lindas, de modelos, cores e tamanhos a escolher.
A Avenida Rainha Maria Cristina, ladeada por campanários inspirados nos da praça de São Marcos, em Veneza, tem escadas rolantes a céu aberto e uma enorme quantidade de bancos para a siesta, a soneca obrigatória depois do almoço. Se em Roma, como os romanos, relaxei e cedi ao sono, até porque quase tudo fecha nesse horário.
A gastronomia é um capítulo à parte, contudo vou resumi-lo: come-se bem em qual-quer canto, dos mais caros aos mais econômicos, tanto a comida típica (paella, por exemplo, feita de arroz com açafrão e frutos do mar) como a internacional: considero que tomei a sopa de cebola mais deliciosa do mundo, talvez porque tenha me aquecido do frio de seis graus assim que cheguei, no restaurante La Poma, simples e lotado.
Berço de muitos gênios da arte, Barcelona tem, além do Museu Nacional D’ard, atrações imperdíveis. Comecei pela Catedral gótica, com vinte e oito (!) capelas laterais. Emudeci diante de tanta beleza. Depois fui a Fundação Miró, no Parc de Montjüic, que abriga os principais trabalhos do pintor surrealista, embora eu tenha preferido o Museu Picasso, ele próprio, as três casas que o compõe, uma obra de arte. E ainda fui presenteada com uma exposição extra: Picasso erótico.
Todavia, rendo-me à unanimidade, que nem sempre é burra: Gaudi é a estrela do pedaço. Duas ou três coisas que sei dele: professava uma profunda fé religiosa e difundia com fervor a linguagem e a cultura catalana, quando isso era proibido. Conta-se que chegou a se recusar a falar espanhol com um policial, o que lhe valeu duas noites na cadeia. Morreu atropelado. Não totalmente, como atesta a arquitetura que pintou em aquarela nada formal. Para começar, fui conhecer a Casa Vicens, sua primeira grande encomenda. Surpreendente. Depois, o edifício de apartamentos a Pedrera (ou Casa Milà), com a fachada curva, ondulada. E ainda a Casa Batlló, uma marca do seu estilo, particular, único, com muitos elementos diferentes, mistura de vitrais, madeira, cerâmica e ferro forjado, os três últimos considerados modernos, na época. Visitei com calma o Parc Güell, tombado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, com um imenso lagarto revestido de cacos de azulejos a recepcionar todos os que sobem a escadaria da entrada. Por fim, entreguei-me à visão da grandiosidade da Sagrada Família, templo idealizado por ele, ao qual dedicou quarenta e três anos da vida (o contrário daquela letra de música dos Paralamas (“a arte de viver da fé...”): a fé em viver da arte) e apenas conseguiu ver terminadas algumas partes, entre elas a monumental fachada “do Nascimento” e uma das dezoito torres projetadas, com um elevador que leva o visitante ao alto, onde o olhar parece se estender além do horizonte. Considerada, se/quando concluída, a maior da Europa. Saí tocada pela grandeza daquele verdadeiro work in progress a me lembrar quão inacabados somos, em eterna construção.


Não creio em ti, Senhor, mas tenho tanta necessidade de crer em ti, que muitas vezes falo e te imploro como se existisses.

Tenho tanta necessidade de ti, Senhor, e de que sejas, que chego a crer em ti — e penso crer em ti quando não creio em ninguém.

Mas depois desperto, ou me parece que desperto, e me envergonho de minha fraqueza e te detesto. E falo contra ti que não és ninguém. E falo mal de ti como se fosses alguém.

Quando, Senhor, estou desperto e quando adormecido?

Quando estou mais desperto e quando mais adormecido? Não será tudo um sonho e eu que, desperto e adormecido, sonho a vida? Despertarei algum día deste duplo sonho e viverei, longe daqui, a verdadeira vida, onde sonho e vigília sejam uma mentira?

Não creio em ti, Senhor, mas se és, não posso dar-te o melhor de mim a não ser assim: senão dizendo-te que não creio em ti. Que forma de amor tão estranha e tão dura! Que mal me faz não poder dizer-te: creio.

Não creio em ti, Senhor, mas se és, tira-me deste engano de uma vez.
Faz-me ver bem a tua cara! Não me queiras mal pelo meu amor
mesquinho. Faz com que, sem fim e sem palavras, todo o meu ser possa dizer-te: És.

(Canto espiritual, poema de José Palau, poeta catalão, traduzido por Augusto de Campos)



Ana Guimarães


ACABO DE TER A GRATA SATISFAÇÃO DE SER INFORMADA DE QUE ESSE MEU TEXTO FOI PUBLICADO NO SITE SAL DA TERRA/LUZ DO MUNDO:
http://saldaterraluzdomundo.net/literatura_cronicas_.html

18 comentários:

  1. Ana

    Que delicioso convite para ler um texto tão luminoso como esse.Informativo, descritivo e principalmente, uma viagem inesquecível e maravilhosa para você . Adorei!!

    beijos

    Rose

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  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  3. Lindo.
    Linda, a cidade. Linda, a sua descrição da cidade.
    Linda, a citação do poema/oração.
    Obrigado.
    Luiz Ramos

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  4. Adorei ler isso, esse texto teve um sabor especial pra mim, por dois motivos. Primeiro porque amei Barcelona, e o segundo porque não esqueço de que quando fui para lá uns anos atrás você me mandou um e-mail fantástico, repleto de dicas, que foram praticamente todas seguidas à risca. Até hoje tenho o dito cujo guardado.
    Beijo !

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  5. Como esperava, Ana, um texto magnífico, desde o princípio ao fim. O mais importante são mesmo as impressões da viagem. Mas é extraordinário o teor descritivo e informativo que nos oferece.
    O Canto espiritual de José Palau, tal como a citação em epígrafe, são do mais deslumbrante que há em termos de pensamento e de poética.
    Obrigado Ana.
    Beijo.

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  6. Ai Ana, seu texto meu deu um baita nó na garganta... Vc conseguiu resumir bem essa cidade. E realmente iniciou e finalizou seu texto de maneira perfeita.

    Fiquei aliviada de saber que esteve aqui numa epoca em que eu ñ estava...rsrsrs adoro tanto essa cidade que sempre gosto de mostrar um pedacinho dela para os amigos que vem vista-la.

    Hoje mesmo andei por suas ruas pensando em ir me despedindo, mas simplesmente ñ consigo.

    Bom minha amiga, ja conversaremos sobre tudo isso qdo e mto mais, qdo te faça uma visita no Rio. Espero que tudo melhore para vc e sua família e que logo vc ja possa fazer mais viagens, pois seus relatos sao sempre fantásticos.

    Petonetes (beijinhos en catalan)

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  7. Esta cidade é uma daquelas das que sinto saudades, sem jamais a ter posto meus pés por lá.
    Pelas lembranças amigas dos amigos, pela constante presença em meu espírito, minhas leituras. É como se estivesse me preparando para a visita, tomando notas interiores, para ver os exteriores e tomar a sopa de cebola e daí então recordar aqui e daqui. Uma espiral sem fim, como as obras inacabadas do arquiteto genial.
    Tenho agora duas referências principais: a sua crônica amorosa e a música (Granada de Isac Albeniz) solo de guitarra tocado em Vicky Cristina Barcelona. E é ouvindo e depois de ler que escrevo. Ambas são o resumo da cidade. Na minha memória. Obrigado. Beijos.

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  8. Um crônica à altura de tão majestosa cidade.
    Um de meus sonhos europeus, junto com Roma e Madrid.
    A aposentadoria me brindará, daqui a poucos anos. Quem sabe poderei escrever um belo texto, como este, ao final da viagem.

    Beijão.

    Ricardo Mainieri

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  9. Ana ,meus olhos brilharam ao ler sua crônica.
    Assim como o amigo Djabal, ainda não visitei Barcelona. Ou melhor, não a visitei fisicamente. Mas diante de tão brilhante descrição, me senti ao seu lado nessa sua deliciosa visita à cidade.
    Amei o poema e me senti homenageada pelo autor: Pa ...Lau.[rs]
    Brilhante!! Parabéns!!!
    Beijos
    Lau

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  10. Muitíssimo obrigada pelos ricos comentários! Fico feliz por tê-los afetado. Atiçado a vontade de para lá viajar, em quem não a conhece. Trazido boas recordações, a quem já esteve nessa bela cidade. E, dado nó na garganta da Raquel, que dela está se despedindo.
    Abraços, beijos!

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  11. "Morreu atropelado. Não totalmente, como atesta a arquitetura que pintou em aquarela nada formal."
    Que lindo Ana, eles de fato não morrem...
    Linda a descrição da sua viagem.
    Obrigada, pleo presente.

    Para você que gosta de ler, recomendo:Uma entrevista linda com José Mindlin, o mais respeitado bibliófilo brasileiro.
    http://longevidade-eventos.blogspot.com/2010/01/jose-mindlin-95-anos-de-idade-o-mais.html

    beijos

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  12. Querida Ana,
    Um texto/crônica/viagem artística/que considero uma justa homenagem à "estrela do pedaço". Gaudi é. E também senti-me em Barcelona!
    Beijos

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  13. Silvia Masc: muito obrigada. Obrigada também pela recomendação da entrevista com o Mindlin.
    bjs

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  14. Obrigada, Tere! Imagino que você, especialmente, curtiria muito Barcelona, por seu amor às artes.
    Beijo

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  15. Merecida publicação, Ana! Com seu texto em mãos poderemos viajar sempre para Barcelona! É como se estivéssemos lá, tão claras as descrições!
    Um abraço, amiga!

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  16. Obrigada Luísa! Curti muito mesmo Barcelona, foi uma viagem inesquecível!
    GRande abraço, minha amiga!

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  17. Delícias, os teus textos! Parece que estamos passeando contigo, tal a vivacidade e colorido de tua descrição. Tenho uma amiga que mora em Madri, mas ela muitas vezes me disse que se apaixonou por Barcelona, cidade que, segundo ela, tem a "cára" de artistas!... Abraços alados, querida, e que estas experiências felizes proporcionem novo tempero, sabor e cor aos dias , à existência!

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  18. Oi, Analu! Muito obrigada pelo comentário! Volte sempre, pretendo publica novos relatos de viagem.
    Beijos

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