quarta-feira, 30 de março de 2011

VOCÊ JÁ FOI A PARIS, NÊGA? NÃO? ENTÃO VÁ.

Placa no lado direito da parede exterior da Livraria Shakespeare&Company, com um dos versos mais famosos do poeta

Viajar é como ler, sempre nos acena com promessas de mudança de ponto de vista. Sobre o outro, sobre nós mesmos. Aumenta a tolerância com o diferente. Demove estratificações de mitos. Derruba preconceitos tão tenazes quanto ocultos. Restabelece a pluralidade do ser. Porém, mal começo a organizar as recordações de Paris em forma de narrativa hesito diante da questão que me acossa: você tem coragem? Será que o fato de tê-la visitado em duas ocasiões apenas a autoriza a escrever sobre uma cidade desse porte, dessa importância?
Sim, não tardo em responder, porque ela é como a escrita de Joyce: ninguém pode dizer que a conhece, no máximo consegue-se captar alguns traços característicos e se deixar impregnar, enfeitiçar, surpreender. No máximo, posso falar da ‘minha’ Cidade Luz (assim chamada por sua efervescência durante o Iluminismo). Mesmo amparada em depoimentos de viajantes que me antecederam, em fotos, filmes, livros que poderiam passar uma ilusão de verdade, de exatidão fiz a castração do saber e aceito que o desejo de total conhecimento está condenado ao fracasso. Uno cree conocer París, pero no hay tal; hay rincones, calles que uno podría explorar el día entero, y más aún de noche (Julio Cortazar, em Rayuela).
Às vésperas da primeira ida à charmosa capital, refletia: o estudo de mais de sete anos de francês, nunca mais exercitado, serviria para alguma coisa? Sempre que estou em lugares cuja língua não domino, logo que surge uma dúvida pergunto se o interlocutor fala inglês (um pouco menos enferrujado), mas disseram-me que isso seria considerado ofensivo pelos parisienses, cuja fama já é de antipáticos e impacientes com estrangeiros. Não foi o que vivi, ao contrário, quando o tatibitate me traía esforços não pareciam ser poupados para que eu fosse bem compreendida e atendida.
Tanto vindo de trem de Londres por debaixo do canal da Mancha, o Eurostar, quanto pousando no Aeroporto Charles de Gaulle, num vôo de Bruxelas, confusa, rodopio como um pião, contudo ambos os locais mantém pequenos escritórios de informação que auxiliam os turistas. Entre janeiro (pleno inverno) e início de julho (quase verão) uma grande diferença, com vantagem para a temporada com termômetros em torno dos cinco graus. Como diz o alemão, nunca está frio demais, você é que não está bem agasalhado. Temos que nos embalsamar como múmias, mas o investimento compensa: menos filas, atendimento qualificado, ambientes devidamente climatizados.
Em 2000 hospedei-me na Place de la Republique, o que resultou em deliciosos jantares ali no Leon de Bruxelas. Em 2005, na Place de la Madeleine, da igreja com o mesmo nome e da Fauchon. À porta dessa outra perdição gastronômica, na manhã da chegada, cruzo com ilustre escritor carioca. Un encuentro casual es lo menos casual en nuestras vida (Cortazar). Vendo nossos calçados imundos pela chuva que caía, lembro-me de fragmentos de um texto seu, O suor e a lágrima: “... Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão”. Sem pensar, o interpelo como se nos conhecêssemos: Cony, você por aqui? E ele, mesmo surpreso, responde afetuoso, apertando-me a mão, sinalizando o guarda-chuva: oui, en Paris, sous le parapluie! A epifania de um breve instante. Instantâneo que não empalidece com o tempo. Cada um pro seu lado, mas colhi a flor daquele encontro fortuito como bom agouro da minha estadia.
No mapa oferecido na recepção do hotel, o layout da cidade mostra arrondissements (bairros) marcados de 1 a 20, no formato de uma espiral, começando pelo centro velho em torno do Louvre. É pra lá que eu sigo. A entrada, uma enorme pirâmide de vidro de design arrojado (desenhada pelo arquiteto chinês I. M. Pey, projeto aprovado pelo então presidente Miterrand e realizado em 1989) não se choca com as clássicas linhas de sua arquitetura. Quer você privilegie trabalhos, autores ou períodos quer apenas aja como flanêur, passeando nas galerias, o esplendor é o mesmo (a Mona Lisa, a Vênus de Milo e as antiguidades do Egito acenaram-me, nas duas vezes em que lá estive, para conferi-las). Fique o tempo que puder. Volte, se assim desejar, nunca é demais (diz-se que se a gente permanecer cinco minutos apreciando cada obra desde o momento da abertura até o horário do fechamento precisará de dez anos para ver tudo). Saindo, encontra-se o Jardin des Tuileries, assim denominado pela terra argilosa usada para fabricar telhas, tuiles. O entardecer aí é extraordinário, o olhar quase não suporta o impacto dessa visão.
Mais três museus devem ser incluídos em qualquer itinerário: o d’Orsay (situado numa antiga estação ferroviária, contém uma extraordinária coleção de arte da segunda metade do século XIX), o Picasso (numa belíssima mansão que abriga o maior acervo do artista) e o Rodin (além de O Pensador, várias obras-primas do mestre e de Camille Claudel, sua discípula nas artes e no amor; o jardim das esculturas é lindo e propicia boas fotos).
Seus principais ícones são: Torre Eiffel, construída para a Feira Mundial de 1889, acabou tornando-se o símbolo de Paris. Arco do Triunfo, monumento dedicado a Napoleão. Catedral de Notre-Dame, imponência gótica erguida numa época em que a maioria da população era analfabeta, conta histórias bíblicas através de seus portais, pinturas e vitrais. Sainte Chapelle, não perca a chapelle haute (capela superior): cenas do Velho e do Novo Testamento são retratadas em quinze janelas de vitrais. Basílica de Sacre-Coeur, no topo de uma escadaria ou, se preferir, vá de funiculaire, a vista é soberba; no em torno há exposições de pintores e caricaturistas. Centre Pompidou, de linhas arrojadas: o exterior coberto de um emaranhado de tubos coloridos e escadas rolantes que levam de um andar a outro. O rio Sena, por onde se pode navegar de bateaux mouche ou descansar em suas margens.
Outras atrações: o Cemitério de Père-Lachaise (Chopin, Oscar Wilde e Isadora Duncan, embora aqui não tenham nascido foram enterrados ao lado de Molière, Proust e Edith Piaf). O Panthéon (encomendado por Luis XV após recuperar-se de grave doença, em tributo à Santa Genoveva, padroeira de Paris) também abriga os túmulos de Voltaire, Rousseau e Zola. Conciergerie (uma prisão durante a Revolução Francesa; Maria Antonieta esteve aí detida). Hotel des Invalides (hospital e residência para os feridos de guerra, hoje comporta vários escritórios e um museu que expõe toda a parafernália militar). Les Egouts de Paris (os esgotos: há quem goste de apreciar essa maravilhosa obra de engenharia).
Vagabunda andarilha, caminho sem cessar por ruas, passeios cobertos, praças, parques e bairros e, incrível, são eles que me deixam suas pegadas. Parodiando Mario de Andrade, adoçam-me que nem verso de Rilke. Place de la Concorde. Champs-Elysées. Boulevard Saint-Germain. Place de Vosges (a mais antiga e a mais bonita, com a singela casa número seis, onde morou Victor-Hugo). Parque Bois de Bologne (no passado, floresta e reserva de caça da realeza). Quartier Latin. Marais. St-Germain-des-Près. Montmartre. Jardin du Luxemburg (o preferido das crianças). Place Vendome (um dos endereços mais sofisticados, com o hotel Ritz e lojas de grife). Se quiser compras mais econômicas procure Galeries Lafayette, La Samaritaine, Printemps ou ainda visite o Marché aux Puces (mercado de pulgas).
Os aficionados por literatura tem de marcar ponto na Livraria Shakespeare&Company, outrora freqüentada por Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein e outros eruditos; no comando de Sylvia Beach foi responsável pela primeira edição do Ulysses, de James Joyce.
Na Comédie Française clássicos são encenados. Se gostar de ópera: Bastille é seu principal palco. Um tanto decadentes, cujos dias de glória lá se vão, mas ainda há quem não perca seus espetáculos: Lido, Folies Bergère e Moulin Rouge.
Nos arredores, a 23 quilômetros de Paris encontra-se o Château Versailles, palácio edificado por Luis XIV, o Rei-Sol, patrimônio mundial da Unesco, com seu famoso Hall dos Espelhos, local em que foi assinado o acordo para o fim da segunda guerra mundial. Prepare-se para um dia inteiro de visita, guiada, de preferência.
Cidade-sedução. Histórica. Romântica. Sua graça, beleza e mistério penetram nos catres mais escuros do meu ser, iluminando-os. É “voltar aos dezessete anos, depois de viver um século”, como cantava Mercedes Sosa a composição de Violeta Parra. Razão e sensibilidade juntos muito podem: transpassa-me a ilusão de paz e completude. Canto, desde então.

Sem a melancolia dos instantes perfeitos
sem os rios de luz colorindo os cristais,
sem a agonia luminosa do fugaz
é impossível cantar
(Bruno Tolentino)

Ana Guimarães

quinta-feira, 24 de março de 2011

O ESCRITOR E O KAXINAWA

O que faz, afinal, um escritor quando escreve?
Um kaxinawa, tribo do Alto Rio Purus, na Amazônia, quando faz um desenho no próprio corpo é um agente produzindo outro sujeito. Mediado por imagens gráficas, outro kaxinawa surge no ritual de passagem de criança para adulto, via contornos mais finos e delicados, diferentes dos traços grossos que antes o adornavam - assim registram etnógrafos que estudam esses índios.
Mesmo não sendo considerado de bom tom explicar o que se passa na cabeça de alguém se ele não se deitou no nosso divã, já nos advertia Lacan ao estudar Joyce e sua obra, pois só temos acesso ao que sobra do ato criativo, a produção final, os restos, as ruínas que tombam na folha em branco, sabemos que um escritor quando escreve sai de uma protetora estagnação estéril em que estava imerso para lamber, sem risco de vida (ou de morte, como modernamente se diz), a total falta de fixidez que o ameaça; o meio-termo é a escrita, fronteira entre sanidade e sandice.
Libertador parto sem dor, mas também carícia sem toque, um abraço em quem não pode mais ser abraçado. Aí, indivíduo e autor realizam trocas com relativa segurança em seus respectivos lugares, o que era antes e o que passa a ser durante e depois se interpenetram, à total anarquia sucede uma temporária organização: o “desenho verdadeiro” começa a ser delineado.
O que parecia só tautológico (O que faz um escritor? Escreve, ora!), é mais: o escritor se escreve e se inscreve no mundo. Linha por linha, alinha o que lhe parece/soa desalinhado, na nova leitura de si. Ao contrário do detetive, nada procura: acha, se encontra.
Na voluntária óbvia primeira pessoa (aí talvez seja aonde ele menos se revela) ou refugiado no aparente distanciamento da(o) terceira(o), ele, ainda que de maneira inconsciente, sensível aos ruídos internos, ainda que em atenção flutuante (a escuta atenta, objetiva é surda), desova suas dores, exorciza o horror pelo qual se sente atraído, seu lado b, aquele insalubre da vida, do que poderia ser, mas não é.
Sem esquecer a multiplicidade de vozes que perfazem o seu território cultural, até porque elas que o constituíram, primordialmente. Embora alguns pensem que produzem efeito sem causa, que criam do nada!... (Essa, muitas vezes, costuma ser sua teimosa versão). Quanto mais racional, mais ‘profissional’: mais pesquisas, projetos, roteiros, e nobres influências declaradas fixam residência em suas letras. Não adianta: um romance é o mais autobiográfico dos textos (Madame Bovary c’est moi, dizia Flaubert). Sem correspondência linear, não confundir, apenas cartografia peculiar de outras trajetórias possíveis.
Eis um depoimento contemporâneo: em entrevista recente, à pergunta O que existe do protagonista em Silviano Santiago, ele assim respondeu: "Tudo e nada. Se eu descrever o personagem por substantivos abstratos (sedutor, ambicioso, perdulário, canalha, etc.), tudo. Se descrever o personagem pelas ações concretas que ele vivencia no romance, praticamente nada. Ficção é o salto do abstrato da experiência para o concreto da trama romanesca. Entre um e outro, a imaginação em delírio”.

“Quem aceita frustração, espera. Quem espera, pensa, Quem pensa, sente. Quem sente, vive o tempo e sabe que ele está passando, portanto, fica mais velho” (O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda). A literatura enganaria o tempo ou, ao contrário, por fazer as pessoas pensar as faria envelhecer de fato?

Ana Guimarães

quarta-feira, 16 de março de 2011

NUM PISCAR DE OLHOS

Sagitário, seu verbo é ver, me informa a astróloga de plantão sem que eu nada pergunte ou informe, em pleno elevador comercial vazio, só ela e eu. Você enxerga as coisas de longe, como uma águia, com precisão. Cuide da responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam, como Saramago observou em Ensaio sobre a cegueira. E continua, bla-bla-bla.
Um insight e começo a divagar. Perco-me numa sucessão de reflexões e associações-livres de sentido contrário: preciso é exercitar o não ver. Usar mais as pálpebras que quando baixadas servem para a não visão, tão essencial quanto o próprio sentido. Não escurecemos um cômodo para dormir? Relaxar? Meditar? Revelar fotos? Para confessar, na penumbra do confessionário? Não sonhamos dentro das brumas do sono? Não precisamos do contraste do chiaroscuro para definir, conceituar?
Ver menos significa ser menos amargo, menos crítico, menos observador da realidade do mundo para melhor suportá-la. Compreender menos e aceitar mais. A visão excessiva mata os afetos incipientes, acaba com a poesia, com a ilusão. Cria céticos, cínicos, pessimistas. Tem coisa melhor do que acreditar piamente em alguém? Entrar nos relacionamentos às escuras, sem idéias preconcebidas? Arriscar se enganar inclusive, ser ingênuo, morder a isca, sem se importar em ser fisgado, em ser pescado. Cair como um patinho. Cair no conto do vigário. O conto já não é uma ficção? E o que é a vida senão uma sucessão de ficções, de versões, oficiais ou não?
Que mania de verdade! Dela só se pode chegar perto, bordeá-la talvez, e novamente, pelo escuso, pelo sombrio, pelo pouco inteligível. Através do negativo, do engano, da mentira. Deixar-se guiar de olhos fechados, não é assim com a justiça? A fé também não é cega, não é o que se diz? Olhar só na justa medida para desculpar, perdoar, abençoar. O bom olhado, aquele que engorda. Olhar em demasia afasta, separa, é artificial. Olhando pouco, modifico e sou modificada. Não de fora, de dentro. Influenciando, sendo influenciada. Enovelada naquilo que observo.
Melhor ainda trocar a voz do verbo, de ativo para passivo: ser vista, me expor sem medo do ridículo, aceitar ser tola aos olhos alheios. E aprender com quem me olha, às vezes torto, com quem não gosta de mim. Com quem critica, aponta, vê algo de que talvez precise me conscientizar. Se o mantiver à distancia, o ignorar, perco essa chance de clarear o horizonte com a lanterna tão fundamental do olhar do outro, do diferente. Porque o igual, o conhecido, o amigável é a paralisia. O dejà-vu. A morte.

Ana Guimarães

quarta-feira, 9 de março de 2011

CINZAS

Quando o dia
parecia um deserto
e à noite
desperto
esperando
em caravana seguia
você chegou
trazendo folia
música
fantasia
lançando perfume
às minhas cinzas
que rubras ficavam
e renasciam
O carnaval acabou
seu bloco passou, se foi
deixei de brincar
e me pus a dormir
para não mais sonhar

Ana Guimarães

sexta-feira, 4 de março de 2011

SAMBA-ENREDO*

Tantos abraços abracei
(hoje me quedo a lembrar)
poucos carinhos refutei
amor foi mesmo feito pra se dar

ano após ano me envolvi
sempre com mais alguém
meu coração só entende de adição
divisão não, de visão sim

sempre visionário
São Tomé ao contrário:
crer pra ver tudo acontecer
o que sonho logo realizo, fazer o que?

antes que a morte surja mascarada
num de seus disfarces infinitos
mais fantasias terei eu criado
pra brincar na folia dessa vida
muito carnaval terei pulado
entre a porta de entrada e a de saída

Ana Guimarães

*Já publicado em imperdível edição pelo portal Cronópios, confiram: http://www.cronopios.com.br/carnaval/