domingo, 25 de setembro de 2011

FESTA DIFERENTE

Sem luzes
sem câmera
só ação

nem velas, apenas
o brilho das estrelas
e a música dos grilos

despidos
famintos
sem gala

não se quis comida
e sim saída
para uma parte: a arte

isso ainda nos resta
– uma fresta –
é dessa festa que falo

Ana Guimarães

Já publicado em http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=p05/p051003.htm&tipo=poesia

sábado, 10 de setembro de 2011

A FÉ NA FICÇÃO*

Pra sonhar não é preciso fechar os olhos e sim ler - Foucault

À parte as qualidades intrínsecas de cada um, a despeito de méritos literários, qualquer texto me seduz (como Cervantes, lia até nos papéis rasgados das ruas). Um livro sempre foi o meu melhor companheiro, alguém em quem podia confiar; um porto seguro, ou sólido navio na tempestade. Tormentas grassavam ao redor e, no entanto, quando começava a folheá-lo, tudo cessava, tudo se calava, tudo fazia sentido. Estimulantes desafios surgiam. Ora adentrava romances de cavalaria, lutava contra moinhos de vento, ora enfrentava poderosos jagunços. Temer algum mistério, terror ou sobrenatural nevermore, pelo menos não a ponto da paralisia. Desse modo, ia ampliando o campo do conhecimento, já que o que é conhecido não pode ser senão por palavras.

Fui aprendendo a relativizar, a me rebelar contra o habitual e dominante pensamento maniqueísta, a conviver com características complexas e organicamente opostas. A escutar e aceitar a polifonia do mundo: vozes, à primeira vista, irreconciliáveis. A trocar toscas certezas por infinitas dúvidas, porém vivificantes. A interpretar n personagens, como se reencarnasse n vezes. Pari passu, ia desfolhando a cebola até chegar ao miolo (qual?), ao que sou ou quero/posso ser. Ousava perguntar: preciso seguir a rota que me foi imposta? Satisfeita ao ver, sobretudo, como eu, viajante, me modificava durante a travessia: partia sendo uma e voltava sendo outra.

Apreciava habitar as entranhas monstruosas da fantasia. Tanto, que via mais verdade aí do que nos fatos, pessoas, relacionamentos. Crianças (suas brincadeiras), adolescentes (seus jogos), adultos (suas conversas), todos desinteressantes perto dessas viagens onde podia me soltar, soltar a imaginação – um exercício libertário por excelência. Parodiando Foucault: eu não condeno as pessoas à morte, simplesmente suponho que já estejam mortas. No mínimo, anestesiadas, em coma. Por outro lado, observo que o oposto da vida não é a morte, mas o medo. Viver é perigoso, poucos querem correr o risco de soltar as amarras, velas ao vento. Por que não reagir (ao menos) com arte às tragédias? Deveriam elas nos paralisar, bloquear nossa sensibilidade? Teríamos que nos curvar aos traumas que nos acometem? Rendermo-nos à afirmação de Adorno, segundo a qual escrever poesia após Auschwitz é obsceno?

O mínimo grau de dispersão ao ler era – e ainda é - motivo de riso. Certa vez, entretida nos Pequenos poemas em prosa, de Baudelaire, nem percebi que o cachorro de uma amiga, procurado à exaustão, tinha se instalado sob a minha poltrona. E quando um incêndio se alastrou numa casa de saúde próxima ao nosso prédio? Os vizinhos passaram a tarde assistindo a operação retira-doentes ser filmada pela tv, enquanto eu só fui ser informada do ocorrido à noite, pelo noticiário, lendo que estava, numa sentada, o Alienista, de Machado de Assis. Paixão não compartilhada, não compreendida: Larga esse livro, menina, vá brincar lá fora, tomar sol, fazer um esporte!...Vem ajudar aqui, já que você está à toa. (?) É trabalho escolar? Senão, pára pra fazer isso assim, assim... Trate de sair, ver gente, ir a festas! Rogo, até hoje, que respeitem meu jeito solitário de ser, sempre com um exemplar à mão (mesmo em trânsito), dois ou três iniciados na mesinha de cabeceira, e uma pilha deles, novinhos em folha, na estante.

Como seria de se esperar, sou ambivalente em relação a hóspedes. Aqui damos de beber e comer, mas não de dormir: sábio lema dos albergues que abrigam os peregrinos em Santiago de Compostela, ao longo do caminho. Apesar de curtir o ambiente aquecido pela conseqüente troca de afeto, pelos causos contados por quem nos visita, pelas novidades, fico indócil, escrava de polidas sociabilidades, ansiando pela alforria do tempo que, inutilmente, escoa. Tal qual uma bailarina se exercitando, necessito de muitas horas diárias para me dedicar ao mal de Montano do qual padeço, meu vício, desde o início. Mas afinal, pra que serve tanta literatura? Nenhuma finalidade ou intenção, puro ludismo. Embora não deixe de ser um ato de esperança, pois a fantasia é a sustentação do desejo, é ver a mais graciosa das mocinhas onde há apenas um atleta peludo, brincou Lacan. Nem divertissement, nem evasão – uma outra forma de examinar a condição humana.

Deixo-me afetar pelo que leio. Assim como Borges, sinto que as letras, esse espaço da biblioteca entre os significantes – locus diabolicamente divino, que tanto prazer proporciona – se impõem a mim como um sonho que, ao despertar, temos necessidade de verbalizar e associar a partir dele. Dialogo com o autor, em intensa e constante interlocução, por vezes exaltando-o (na maioria), por vezes corrigindo-o (que pretensão!) tal qual um escriba da Idade Média. Grifo palavras, sublinho expressões, trechos, faço anotações em suas margens. Gostava de lê-los para alguém depois, compartilhar meu Eldorado, mas nem sempre era bem-vinda. Além do mais, o ouvinte se liga se quiser, pára de acompanhar, pensa em outra coisa (pelo olhar ele se trai), se fixa mais em você, no seu jeito de ser, do que no que está sendo dito.

Desisti. Uma ilusão pensar poder passar aquilo que sentira lendo (a emoção) através da leitura em voz alta. Era um gesto desesperado, reconheço, para ressuscitar os zumbis. Como naquele ditado, eu apontava a lua e eles só viam o meu dedo. Se tanto. Recordo-me de um ensaio de Montaigne, onde ele fala que devemos morar num lugar com vista para um cemitério porque mantém as prioridades da vida em perspectiva. Pois bem, meu lar voltado para a ficção me fez prestar mais atenção à realidade. Interna e externa. E, muito cedo ainda, permitiu descobrir-me além de sujeito, mulher, esse conceito impermeável a todo saber que se produza a respeito.

Ana Guimarães

*Já publicado em http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2108