Ser-me-ia grato empregar toda a minha vida em viagens se alguém me pudesse emprestar uma segunda vida para passar em casa.
William Hazlitt
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
sábado, 8 de agosto de 2009
AGO

– Morro alto, morro grande, me conte o teu padecer.
– Pra baixo de mim, não olho; pra cima não posso ver...
(Contracanção. Peça pseudofolclórica)
O Recado do Morro (Guimarães Rosa)
Quer ver a view? Punha ele no colo e, em silêncio, ficávamos na varanda a apreciar o contorno do horizonte (a pedra da Gávea ao longe, o Cristo, bem perto, o Dona Marta, à meia-distância), a acompanhar o movimento da rua, dos prédios vizinhos, o vôo dos pardais de dia, ou, à noite, morcegos passando raspando. Parecia gostar de aspirar a fria brisa com cheiro de maresia que eriçava seu pelo. Aí então suspirava, estremecendo todo o corpinho, como se, só então, relaxasse. Viu?
Às vezes, rastreava tudo ao redor, esboçando ganidos, olhar curioso, por longo tempo. Depois, virava-se pra mim, carinha e focinho de quem não está entendendo nada. Nem eu, querido, console-se. Não me encare de forma interrogativa. Pergunte aos morros qual o recado, quem sabe algum responde?
Noutras, dava uma geral e já desistia, enterrava a cabeça no meu peito pedindo proteção, recusando-se a ver a cena, parecia ter fobia de altura. Como censurá-lo, diante da atual estatura dos fatos, do nosso fado, dessa maldita sina?
De volta ao chão, as patinhas no vidro, era capaz de ali ficar horas (embora conferindo, de quando em quando, a minha presença), enquanto eu lia paisagens que alguém descrevera, abismos inventados que provocam reais tonteiras, fingidas dores que deveras sentimos, um corpo de baile conhecido apenas na hora do espetáculo.
Pecocinho, baiguinha: mal ouvia esse tatibitate canto soletrado, logo se deitava de costas, desarmado, dengoso, pra ganhar carinho. Ainda bebê, inventamos outra brincadeira: "A pulguinha vinha". Com o dedo médio e o indicador, simulava uma caminhada no chão. Ele corria a mordiscar o que teria ali, escondido. Nada. Nunca se tem nada, breve aprenderíamos. Tudo ilusão.
À medida que crescia, o reflexo e a força da resposta aumentavam. A pulguinha... Ele, rápido, me alcançava. A pulg... Mordia pra valer. Essa pulguinha não pode mais passear em paz, que você ataca, Ago! Seus afiados dentes começavam a machucar, a me ferir. Ai, doeu! Ele diminuía a intensidade da mordida no ato. Lambia, lambia (sua forma de beijar, se desculpando). Eu ria, e ele, em um segundo, reavaliava a situação e, imediatamente, voltava a brincar.
Maltês nascido branco carneirinho, manchas marron-sangue-pisado surgiram e começaram a se alastrar, debaixo dos olhos. O veterinário sentenciou: lágrimas ácidas, o nome do fenômeno. Claro, fosse a vida doce, nossas lágrimas também seriam. Do muito chorar (além do pouco dormir), grandes olheiras escuras me apareceram. Onde andará meu minino-galoto? Que admirável mundo novo estará vendo, agora, da janela?
Ana Guimarães
quinta-feira, 30 de julho de 2009
JUSTINE

JUSTINE
Aquela cadela era o cão
Quem ela pensava que era, uma dama?
Subia na minha cama como se fosse dona. Nunca uma cortesã
Mais parecia uma gata que sabe de seus direitos e a todos encanta, no salão
Olhava-me como se soubesse quem sou: o que será que ela via?
Obedecia-me. Eu era o patrão, ela a manda-chuva
Nos dias de sol: raios e trovoadas, ela só aprontando
Corria sobre o canteiro de rosas: um estrago e tanto
Subia no varal: pegadas por toda a roupa. Deixava a empregada louca
Mas era só eu falar chega, acabou, e ela ficava quietinha
Às vezes saltava sobre mim, latindo feito fera
Tomava meu pulso entre os dentes, pura ameaça, todo mundo olhando
Não era nada, uma palavra minha e acabou a brincadeira
E quando eu saía? Gemia, era patético, porque quase humano. Via-se que sofria
O focinho tremia, pequenos ganidos produzia, quase fonemas
Pode-se dizer que ela tinha a linguagem, ao menos os esforços para expressá-la
Mesmo que só nas horas de intensidade emocional
(sua vantagem sobre certos humanos: não falava o tempo todo, à toa)
Ao lado da mesa ficava, sempre, à espera de migalhas, restos da refeição
Não que estivesse faminta, tinha a sua ração
Para se sentir parte da família, em comunhão
Um dia a perdi. Ganhei um luto que jamais tirei, por dentro
Vista azul, amarelo ou branco
É sempre preto
Ana Guimarães
sábado, 25 de julho de 2009
A QUEDA
domingo, 12 de julho de 2009
AMOR À LÍNGUA

Eu a amo tanto que
às vezes, me espanto
fico muda, de respeito
como a verdade
ela jamais se desnuda
toda
com agulhas de dor
e fios de ausência
teço seu enxoval
embora não seja parteira (e sim curiosa)
cuido que renasça
sempre
parto a palavra e embarco
sem medo de que alguém (ela ou eu)
seja náufrago, vá à pique
porque partida, ela é mais inteira
escrita, mais próxima da falha do que falada
vazia, plena de possíveis sentidos
solta, prende e apreende melhor
a coisa
nessa alquimia verbal
não procuro nem acho, transmuto
abro caminhos
e invento meu ponto de estofo
gozo inter-dito
Ana Guimarães
segunda-feira, 6 de julho de 2009
CRÔNICAS DE VIAGEM
quarta-feira, 1 de julho de 2009
LITERATURA-SERTÃO
Assinar:
Postagens (Atom)


