quarta-feira, 24 de abril de 2019



VERTIGENS

Ontem, puxaram-me o tapete
– ainda que mágico, voador –
e o chão me faltou
vertigens
Corri para um piso/pouso seguro
a poesia
meu inutensílio favorito
depois da psicanálise
Só elas me aprumam
me rumam
me fumam
até que só fique a guimba
o bagaço
até que só reste um traço
como na tela, o eletro de um morto
um porto
onde a alma ancora
e o corpo é que vai embora

Ana Guimarães 

domingo, 14 de abril de 2019

A FÉ NA FICÇÃO

Para sonhar não é preciso fechar os olhos e sim ler. (Foucault)

À parte as qualidades intrínsecas de cada um, a despeito de méritos literários, qualquer texto me seduz. Como Cervantes, lia até nos papéis rasgados das ruas. Desde cedo, um livro sempre foi o meu melhor companheiro, alguém em quem podia confiar, um porto seguro ou sólido navio na tempestade. Tormentas grassavam ao redor e, no entanto, quando começava a folheá-lo, tudo cessava, tudo se calava, tudo fazia sentido. Estimulantes desafios surgiam. Ora adentrava romances de cavalaria, lutava contra moinhos de vento, ora enfrentava poderosos jagunços. Temer algum mistério, terror ou sobrenatural nevermore, pelo menos não a ponto da paralisia.

O mínimo grau de dispersão ao ler era motivo de riso. Pequena ainda, nem percebi que o cachorro de uma vizinha, procurado à exaustão, tinha se instalado sob a minha poltrona, enquanto eu devorava Reinações de Narizinho. E quando, já mais velha,  um incêndio se alastrou numa Casa de Saúde próxima ao nosso prédio? Todo mundo passou a tarde assistindo de perto, enquanto eu só fui ser informada do ocorrido à noite, pelo noticiário, lendo que estava, numa sentada, Dublinenses. Paixão não compreendida pela minha mãe. Larga esse livro, menina, vá brincar lá fora, tomar sol, fazer um esporte! Vem ajudar aqui, já que você está à toa! Rogava que respeitassem meu jeito de ser, sempre com um exemplar à mão e outros tantos, novinhos em folha, na estante.

Apreciava habitar as entranhas da fantasia. Tanto, que via mais verdade aí do que nos fatos, pessoas, relacionamentos. Crianças (suas brincadeiras), adolescentes (seus jogos), adultos (suas conversas), muito interessantes, mas sempre menos do que essas viagens, onde podia dar asas a imaginação, um exercício libertário por excelência. Comecei a observar que o oposto da vida não seria a morte, mas o medo. Poucos querem correr o risco de soltar as amarras, velas ao vento. Por que não reagir às tragédias? Deveriam elas nos paralisar, bloquear nossa sensibilidade? Teríamos que nos curvar aos traumas que nos acometem? Rendermo-nos à afirmação de Adorno, segundo a qual escrever poesia após Auschwitz é obsceno?

Fui aprendendo a relativizar, a me rebelar contra o habitual e dominante pensamento maniqueísta, a conviver com características complexas e organicamente opostas. A escutar e aceitar a polifonia do mundo, vozes, à primeira vista, irreconciliáveis. A trocar toscas certezas por infinitas dúvidas, porém vivificantes. A interpretar n personagens, como se reencarnasse n vezes. Ousava perguntar: preciso seguir a rota que me foi imposta? Satisfeita ao ver, sobretudo, como eu, viajante, me modificava durante a travessia. Partia sendo uma e voltava sendo outra.

Como seria de se esperar, era ambivalente em relação a hóspedes. Aqui damos de comer e beber, sábio lema de alguns albergues que abrigam os peregrinos em Santiago de Compostela, ao longo do caminho. Apesar de curtir o ambiente aquecido pela conseqüente troca de afeto, pelas novidades, pelos ‘causos’ contados, ficava indócil, escrava de polidas sociabilidades, ansiando pela alforria do tempo que escorria. Tal qual uma bailarina se exercitando, necessito de muitas horas diárias para me dedicar ao mal de Montano do qual padeço, meu vicio, desde o o início. Mas afinal, pra que serve tanta literatura? Nenhuma finalidade ou intenção, puro ludismo. Embora não deixe de ser um ato de esperança, pois a fantasia é a sustentação do desejo, é ver a mais graciosa das mocinhas  onde há apenas um atleta peludobrincou Lacan. Nem divertimento nem evasão, só uma outra forma de examinar a condição humana.

Sempre me deixo afetar pelo que leio. Assim como ao despertar de um sonho tenho necessidade de associar a partir dele, ao ler dialogo com o autor, em intensa e constante interlocução. Grifo palavras, sublinho expressões, trechos, faço anotações em suas margens. Gostava de contar para alguém depois, compartilhar meu Eldoradomas nem sempre era bem-vinda. Descobri que o ouvinte se liga se quiser, para de acompanhar, pensa em outra coisa (pelo olhar ele se trai), se fixa mais em você, no seu jeito de ser, do que no que está sendo dito.

Uma ilusão pensar poder passar aquilo que sentira lendo, a emoção, através da leitura em voz alta. Como naquele ditado, eu apontava a lua e eles só viam o meu dedo. Se tanto. Recordo-me de um ensaio de Montaigne, onde ele fala que devemos morar num lugar com vista para um cemitério porque mantém as prioridades da vida em perspectiva. Pois bem, meu lar voltado para a ficção me fez prestar mais atenção à realidade, a ouvir mais e melhor o outro. E, muito cedo ainda, permitiu descobrir-me além de sujeito, mulher, esse conceito impermeável a todo saber que se produza a respeito.

Ana Guimarães

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Hoje é aniversário do meu amor, meu Riobaldo, aquele que tem feito a travessia da vida comigo.
Uma homenagem:

NADA

Amar
assim feito eu e você
é um verbo
mais que perfeito
seja pretérito
presente
ou futuro
é imperfeito
nada que dê jeito
que acalme
que resolva os contrários
nossas diferenças
(tem que ‘ter peito’ pra se amar assim)

rusgas a toda hora
rugas
o tempo passa
a pele vira uva-passa
muda a estação: neve até nos cabelos
mas no coração, verão
mesmo depois de ‘um dia de cão’
eu ainda a choraminguar
vem uma noite nova
minha mão na sua
cheia, a lua
você crescente
e é sempre bom, como pão quente

nenhum complemento
não importa o elemento:
metade da maçã
alma gêmea
yin & yang
completude?
só no espelho, sabemos
não somos mais dois fedelhos
o amor é guerra, ainda que do bem
nada de zen
a palavra é sem, é falta
escrevo à lauta
e não preencho o vazio

apenas arrulho
sou rola
não rolha, já disse
nada tampono
esperança disso
seria criancice
loucura
coisa de poeta
quando entra em alfa, em beta
e canta na sua gaiola (o papel)
caminho inverso ao trilhado por Zola:
voltar as costas ao Real
e se inscrever na elegia romântica

Ana Guimarães

sábado, 6 de abril de 2019

JUSTINE*

Aquela cadela ‘era o cão’
Quem ela pensava que era, uma dama?
Subia na minha cama como se fosse dona
Mais parecia uma gata que sabe de seus direitos
e a todos encanta, no salão

Olhava-me como se soubesse quem sou
O que será que ela via?
Obedecia-me. Eu era o patrão, ela a manda-chuva
Em dias de sol: ‘raios e trovoadas’, ela só aprontava
Corria sobre o canteiro de rosas,
um estrago e tanto
Subia no varal, pegadas por toda a roupa,
deixava a empregada louca
Mas era só eu falar chega, acabou
e ela ficava quietinha

Às vezes saltava sobre mim, latindo feito fera
Tomava meu pulso entre os dentes, pura ameaça, todo mundo olhando
Não era nada, uma palavra minha 
e acabou a brincadeira

E quando eu saía? Gemia, era patético porque quase humano, via-se que sofria
O focinho tremia, pequenos ganidos produzia, quase fonemas
Pode-se dizer que ela tinha a linguagem, ao menos os esforços para expressá-la
mesmo que só nas horas de intensidade emocional
(sua vantagem sobre certos humanos: não falava o tempo todo, à toa)

Ao lado da mesa ficava, sempre, 
à espera de migalhas, restos da refeição
Não que estivesse faminta, tinha a sua ração
Para se sentir parte da família, em comunhão

Um dia a perdi 
Ganhei um luto que jamais tirei, por dentro
Vista azul, amarelo ou branco
É sempre preto

Ana Guimarães 
* Foto de minha autoria.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

SONHO MEU

Adivinhara sua presença, mas quando a vi não acreditei, estaria sonhando? Não me belisco, toco em seu pelo de leve, no temor de que o toque possa dissolvê-la, sua imagem, minha alucinação? Por um breve minuto cruzamos o limiar entre o mundo-como-tal o mundo-como-idéia. De repente ela se afasta, busca espaço para se alongar, como um gato. Estica primeiro as patas dianteiras, depois as traseiras, empinando o rabo, o focinho quase beijando o chão. Parece bocejar. Caminha para longe, porém dentro da minha vista (e eu da dela, evidente, todo amor é recíproco). Lá repousa o corpo com graça, cabeça erguida, olhar altivo, a desprezar a continuação do carinho, independente alma felina, teria assim ressuscitado? Ou seria um caso de vida paralela?

Se ela não me assustava nem quando, repreendida, ameaçava me morder, não seria agora, não importa em que dimensão esteja. Seus olhos brilham na escuridão do quarto. A pequena poça junto à janela obriga-me a levantar para pegar um pano de chão real que enxugue o xixi imaginário, ralhando com ela, que foge, se escondendo. Lavo as mãos na esperança de que a porta do banheiro seja empurrada, a qualquer momento, como outrora fazia, pedindo desculpa, oferecendo companhia.

Volto ao silêncio da noite, ainda esbravejando, para encontrá-la na cama, enovelada nas cobertas. Enche-me de lambidas, que eu termine com a zanga. A comoção é simultânea à coragem do tira-teima: um toque no interruptor do abajur e nada. Apago a luz decidido a dormir, a barrar essa obsessão que persiste e insiste, contudo logo a ouço divertindo-se sozinha com brinquedos de borracha, especialmente os que fazem barulho. De volta à ilusão. Melhor assim, de que serve o canteiro de rosas intacto, sem as suas investidas? A roupa estendida no varal, a salvo, secando? Comer sem ela ao lado, implorando migalhas? Sair (ou chegar) sem ganidos e latidos? E Justine, onde está, chorará por mim? Seu choro é tão justo e comovente quanto o de um homem? E se fosse um bicho inventado, feito apenas de papel e tinta, vocês se interessariam menos?

Sofro há um ano, desde que a levaram. Não é que o luto seja necessário, ele é compulsório. Não quero mais ser medicado, para que? Suas aparições, oníricas ou em vigília, continuam. Chega de pintura, desenho, escultura. Destas malditas colagens, quadrado ou triângulo, vermelho ou azul, tanto faz, para fugir do negro círculo da dor! Prefiro o nada do retângulo branco da página vazia, como já disse mais de uma vez, ninguém me ouviu. Roubei bloco e caneta, e aqui estou. Precisava contar o que (não) se passa. Relatar por escrito, prazer solitário onde se prescinde do objeto amado. Se ele não existe mais, pelo menos para mim, a fé se impõe. Fé na ficção, para torná-la realidade. A verdade não é uma flor num canteiro, esperando ser colhida – ela é efeito de palavra.

Escrever é captar o que não existe. Uma outra modalidade de organização de sentido. Vontade criando possibilidade. Mágica, ilusionismo. Finjo a dor que deveras sinto. Um texto vive per se, e tem vida eterna. Aqui estou sem mim, sem ti, mas feliz com esse fantasma. Puro instante. Sem passado (lembrança de presença), sem futuro (expectativa de ausência), só assim não dói. Se crio poemas, crônicas, contos posso recriar meu animal de estimação. Transfiro os cuidados que tinha com ele para os cuidados com as letras, um enlace substitutivo, onde salvo memórias da experiência. Minha cadela morta, ou distante, em mãos alheias, quase dá no mesmo, é como uma sombra que tento trazer de volta, torná-la apreensível. Chego na fronteira, chamo, e ela atende, vem. Um sonho louco, mas qual não é? 

Ana Guimarães

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A MUDANÇA DOS PASSARINHOS

Eles se foram
À vaga ameaça disso acontecer, estremecia
Perplexa, vi o instante chegar, parece que foi ontem
Levaram-nos embora
E já que ainda não podem voar
acabou a autonomia de ir e vir de que desfrutavam
Não mais pios e trinados anunciando a chegada
bem melhor do que qualquer campainha
Não mais a grata surpresa de suas presenças na árvore da vida
distraindo-me e interrompendo o que eu estivesse fazendo.
Aquele ninho vazio que evitei, mas tive que encarar
reflete, podem dizer que é exagero, o meu coração.
Quiseram-me embriagar com "foram para tão perto"
(camisa-de-força da razão e do conformismo)
tentando ofuscar essa ridícula saudade.
Mesmo sabendo que vai passar, como tudo
a tristeza vem sendo esculpida, dia a dia
Foi-se o canto, ficou só o desalento

Ana Guimarães

domingo, 11 de setembro de 2016

BERLIM, um exercício de inquietação

BERLIM, um exercício de inquietação

Logo depois da célebre queima de livros em Berlim, Brecht escreveu que um poeta, ao constatar que seu livro fora esquecido pelos nazistas, suplica: “Queimem-me/Não façam isso comigo!/Não disse sempre a verdade em meus livros?/E agora vocês me tratam como se fosse mentiroso?/Ordeno: Queimem-me!”.
Ao começar, não sabia se iria conseguir um relato mezzo objetivo da viagem ou apenas o registro de percepções, experiências e divagações sobre a semana em que lá estive, em abril de 2012. Soou anacrônico para quem sempre escreveu sem amarras a submissão a ordem cronológica fotográfica como roteiro, verdadeiro fio condutor, curioso fato que creditei a influência sub-reptícia de uma vibe disciplinar germânica, além da mais pura defesa, é claro.

Tentar desenhar uma cidade visitada cuja principal característica que dizem defini-la é pluralidade e, apesar do pouco tempo de estadia, pretender desconfiar da veracidade de tal assertiva, pelo menos sob a vertente que a entendo, aceitação das diferenças culturais, gerou solidão e um feixe de perturbadores pensamentos que emperraram a escrita esboçada naquela ocasião e desengavetada apenas agora, mais de quatro anos depois.

Confesso que quase me deixei embriagar (além de pela boa Pils, a cerveja, a terceira bebida mais consumida, perdendo apenas para a água e o café) pela atmosfera espetacularizada para os forasteiros, aparente tentativa de auto-expurgo da perversão que ali germinou e cresceu, o terror a que se refere Adorno quando se perguntou se seria possível fazer poesia depois de Auschwitz, de tal modo a razão foi dominada pela pulsão de morte. Porém não consegui comprar a imagem vendida, por isso, na volta, ao escrever, avancei com dificuldade, arrastando-me como os conhecidos protagonistas da História nos campos de concentração.

Antes de viajar garimpei os pontos ilustrativos deste marcante período, embora duvidando que teria estômago e nervos para conhecê-los. Inútil tentativa de evitação, eles estão por toda a parte, contundentes. Reconstruções também, aliás, muito se ouve falar da capacidade de depuração e renascimento das próprias cinzas, literalmente, o que de tão repetido acaba deixando transparecer um forte sentimento de orgulho e superioridade dos alemães, o que remete ao nacionalismo, por muitos apontado como o ovo da serpente daquela remota e nefasta época.

Nos primeiros dias, temerosa do enfrentamento com o real e insuflada por brasileiros que lá estiveram ou residem, tratei de turistar, aproveitar o belo e o artístico da cidade, o que não é pouco. A caminhada – apesar do frio, o bom tempo permitiu – começou na Alexander Platz, no Distrito de Mitte (ou meio, centro), no coração da antiga Berlim Oriental, onde eu estava hospedada, no Radisson Blu Hotel, do Aquadom (1), o maior aquário-elevador cilíndrico do mundo.

Nessa área encontram-se vários ícones: Rotes Rathaus, a Prefeitura Vermelha (seu nome deve-se a cor dos tijolos do prédio), a Fernsehturm (a Torre de TV (2), a construção mais alta, onipresente no céu da cidade), a Marienkirsche (a Igreja cuja idade é imprecisa, mas fala-se em algo em torno de 1292, com exterior elegante e interior repleto de obras de arte notáveis), a Neptun Brunnen (a Fonte com o deus grego Netuno ao centro, ladeado por imagens alegóricas dos quatro principais rios da Alemanha) e as gigantescas Estátuas de Marx e Engels (3).

Atravessando a Scholossbrucke ou Ponte do Castelo, chega-se a Ilha dos Museus, declarada patrimônio histórico da humanidade. Aí está situada Berliner Dom (4), a Catedral erguida entre 1895 e 1905, considerada a versão protestante da Basílica de São Pedro, no Vaticano (durante a Segunda Guerra Mundial, como quase todas as edificações, foi atingida por bombardeios e sofreu danos severos, tendo ficado abandonada por décadas, precisando ser restaurada, o que, por falta de recursos, começou a ser feito apenas em 1975, patrocinado pelo governo da então Alemanha Ocidental. Além de celebrações religiosas, também é palco de apresentações de música clássica e concertos em geral. O som de seu assombroso Órgão Sauer (5), de mais de sete mil tubos, emociona).

Comecei então uma calma e deliciosa jornada: conhecer a série de magníficos museus que dão nome à Ilha. Bode Museum (com vasta coleção de Numismática), Neues Museum (que abriga o busto da rainha egípcia Nefertite), Altes Museum (o mais antigo, com dezoito monumentais colunas na sua fachada frontal) e o meu preferido, o Pergamon (6), (templos trazidos de escavações arqueológicas na Babilônia, na Assíria e no Egito e reedificados quase na íntegra).

Partindo da praça gramada defronte a Berliner Dom tem início a principal avenida, a Unter Den Linden ou Sob as Tílias (originalmente tratava-se de uma trilha para cavalos que ligava o Palácio ao campo de caça, o Tiengarten; em 1647 foram plantadas tílias em toda a sua extensão, daí o nome), pontilhada de prédios clássicos elegantes, embaixadas, lojas de grife e de carros de luxo.

Mais à frente, na Bebelplatz, o memorial subterrâneo Bibliotek ou Biblioteca Vazia (7), no exato local onde, no auge da perseguição aos intelectuais, principalmente escritores, numa pretendida “limpeza da literatura”, em 10 de maio de 1933 nazistas e simpatizantes queimaram vinte mil livros de autores como Freud, Brecht, Kafka e outros (há uma placa de vidro no chão, através da qual podem ser vistas estantes vazias e a profética inscrição: “Começam queimando livrosno final arderão pessoas”, do poeta Heinrich Heine).

Até aqui observo, depois de quilômetros de andanças, que talvez por ser ampla e espalhada, Berlim parece ter poucos pedestres circulando e um trânsito que flui bem, a qualquer hora, diferente de outras grandes metrópoles, considerando-se que ela é, se não me engano, a quinta mais populosa do continente. A exceção é o emblemático Brandenburg Tor (8), o Portão cujo ornamento é uma quadriga, carro puxado por quatro cavalos, o cartão-postal mais famoso da capital alemã, aí sim, coalhado de gente já nas imediações. A cerca de um quilômetro de distância fica a Potsdamer Platz (9), com múltiplas ofertas de lazer.

Outro passeio proveitoso foi ao Schloss Charlottenburg (10), maravilhoso palácio concebido como casa de veraneio ou residência de verão de Sophie Charlotte, a esposa de Friedrich. Tudo extasia: os jardins, a Capela, o Belvedere, a Orangerie e, no seu interior, o estilo barroco da decoração. O Pavilhão Novo abriga uma belíssima coleção de artes, esculturas e mobiliário.

Filarmônica de Berlim (11), projeto de arquitetura produto da geração Bauhaus (um designer não pode deixar de ir ao Bauhaus Archiv (12)) , é considerado um dos programas culturais mais interessantes e concorridos.

A excursão a Potsdam, patrimônio cultural da UNESCO, a mais ou menos trinta minutos de distância, valeu a pena. Centro de acontecimentos durante a Guerra Fria, tem como destaque o complexo de Sansssouci (13), o Palácio de verão de Frederico, o Grande, Rei da Prússia. Visita para um dia inteiro e ainda assim não se consegue ver tudo.

Enfim tomei coragem para encarar o que, imagino, destroça a alma de viajantes de qualquer nacionalidade e credo: as trágicas ressonâncias do nazismo. Daí em diante, tudo orbitou em torno do assunto.

Comecei pela Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche (14 e 15), a igreja quebrada, com sua torre bombardeada não restaurada, deixada como símbolo do que houve. O complexo inclui as ruínas e a nova, construída ao lado.

Em seguida rumei para o Monumento ao Holocausto, ou Memorial (16), que consiste numa vasta área de 19000 metros quadrados coberta por 2700 blocos de concreto, um tributo aos judeus mortos na Europa. Lembra um cemitério e evoca dor.

Depois fui experimentar (o verbo é este) o Museu Judaico (17), uma construção formada por três eixos, o do Holocausto, o do Exílio e o da Continuidade. Numa fachada metálica, rasgos estreitos remetem a uma fortaleza. A entrada é difícil de ser encontrada, o piso levemente inclinado traz desconforto e desorienta, as paredes formam ângulos diferentes entre si. E um silêncio respeitoso grita, simbolizando que nada há a dizer, só sentir, a única palavra possível é sofrimento.

A seguir, Checkpoint Charlie (18), nome dado pelos aliados a um posto militar de fronteira entre a Alemanha Oriental e a Ocidental, durante a Guerra Fria. O Museu do mesmo nome, localizado a poucos metros desse antigo posto de fronteira, conta a história dos 28 anos do Muro de Berlim, as fugas e os meios criados para se alcançar a liberdade, mesmo correndo riscos. Impossível não chorar.

Berliner Mauer (19 e 20) dividia a cidade ao meio. Em 1989, após distúrbios civis afinados com uma onda revolucionária que varria o Bloco do Leste (União Soviética e Aliados), multidões subiram e atravessaram o muro. Partes dele foram destruídas e o resto da estrutura demolido. A unificação alemã foi, enfim, celebrada. Trechos por onde ele passava estão marcados no chão, como lembrança.

Por fim, o Reichstag (21) (prédio cujo incêndio, em 1933, pôs fogo na politica e provocou a assinatura de um decreto que suspendia a maioria dos direitos humanos), totalmente reconstruído e reinaugurado como sede do Parlamento, em 1999, com a transferência do governo alemão de Bonn para Berlim. Circular pelas rampas em espiral da enorme e deslumbrante cúpula de cristal de cunho ambientalista, almoçar no Käfer o melhor da cozinha alemã* e depois desfrutar da bela vista do terraço panorâmico perto do pôr-do-sol, com as luzes da cidade se acendendo, foi um bálsamo para concluir a minha jornada.

Fica a pergunta: o passado terá conseguido ensinar algo para a não repetição dos fatos? A ter compaixão para com países, vizinhos ou não, menos afortunados, em crise, em guerra, com graves e crescentes problemas econômicos, para com refugiados? Ou será que a visão do outro como diferente ainda é tão ameaçadora que ele precisa ser ignorado, silenciado, excluído, repatriado? O recalcado pode retornar aproveitando-se de fissuras do presente?

* Alguém já disse que Berlim é uma cidade tão cosmopolita que lá se come até comida alemã. É verdade. E bons restaurantes estão por toda a parte, mas só me recordo de três: do antigo Einstein (aconchegante casa na Kurfürstentrasse 58, outrora considerado um dos melhores da Alemanha), do 12 Apostel (pizzas no forno a lenha, servidas em salões decorados com afrescos italianos, cada uma com o nome de um Apóstolo) e do Le Buffet in KaDeWe, na movimentada praça de alimentação no topo da uber loja de departamentos, uma festa gastronômica.

Ana Guimarães