sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS E UM FELIZ ANO NOVO!

Inequecível especial de Natal do Portal Cronópios, de 2005, do qual tive a honra de participar, confiram:

http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=851

domingo, 30 de outubro de 2011

O GOZO DA LETRA


Sem nenhum ritual de alfabetização, longe de qualquer testemunha, já lia aos quatro anos de idade. Tendo começado pelos cabeçalhos, logo me atirava, embora tateando, ao corpo das notícias de revistas e jornais. Percebia o quanto me fascinavam textos pouco ilustrados, justo o oposto do que crianças dessa faixa etária exigiam. Consumia com avidez as letras, seus arranjos, no que resultavam. E, à medida que ia captando – ou não – os significados, destilando-os, queria mais. Cedo divisei que é por cima de vastos espaços de ignorância, de uma realidade tectônica, nas entrelinhas, que se aprende. Antes que tivessem notado minha conquista, sorvi o Monteiro Lobato do meu irmão pouquíssimo manipulado. Ah o cheirinho de papel novo, afrodisíaco feito um bom vinho! No colégio, alguns professores me incentivavam a assistir aulas de séries mais adiantadas. Eram unânimes em afirmar: vá aonde o seu coração mandar, o desejo é soberano, o que for passível de compreensão será absorvido, o que não, expelido ou posto em reserva para um tempo futuro. Mais tarde, lendo numa língua estrangeira, não empacava se desconhecesse o que queria dizer uma palavra, continuava e interpretava pelo conjunto, deixando para esclarecer o detalhe depois – não foi Aristóteles quem disse que o todo é anterior às partes? Nicholson, curador do museu JJ, tem a mesma opinião. Ler (Joyce) é participar de uma corrida de cavalos: se houver um obstáculo, você pula e segue em frente.

Perguntava feito louca. Um dia, bem pequena, disparei: o que é fotossíntese? Minha mãe estranhou isso vindo de uma pirralha, não teve paciência para responder, ignorou. Eu tinha lido num encarte da floricultura e ficado curiosa, além de impressionada, com a sonoridade do vocábulo. O que é ressurreição da carne? Dessa vez tinha sido num opúsculo de catecismo, trazido da igreja. Deixe de ouvir conversa de adulto! Ela levantava a mão e eu me calava. Como se tudo o que quisesse saber fosse proibido. Teria, desse modo, atiçado minha sede de conhecimento? Papai, ao contrário, se estivesse presente (porque sempre fora, viajando a trabalho) sorria e me explicava. Quando não, dizia: vou me informar e lhe falo. Jamais deixou de cumprir o prometido. Estaria aí a origem do meu amor à literatura, às viagens e aos homens? (Não necessariamente nessa ordem) Ler me dá tanto prazer que muitos dizem invejar o desligamento, o abandono, a expressão de satisfação quando o faço. Considero, inclusive, um erro ensinar o bê-á-bá somente com objetivo pedagógico e não para a simples fruição. Lembro-me de pré-adolescente, com a mão esquerda segurar um livro e com a outra me masturbar. Nada de pornografia, sequer erotismo, não era nem – ainda – Lolita, de Nabokov ou a trilogia de Henry Miller, embora esses também sejam de boa safra. Podia ser um conto do Rosa, um romance de Machado, um poema de Pessoa. Com isso, talvez (quem sabe?) um palco seminal para a escrita estivesse sendo montado, pois as colheitas não tardariam: muito cedo começaria a escrever.

Não tinha sido apresentada aos dicionários, nem desconfiava de sua existência, e eis que, por acaso, xeretando na biblioteca, os vislumbrei. Agora, além dos óbvios rótulos, seria possível desarrolhar os mistérios da língua, experimentar seu bouquet e paladar, degustá-la até a última gota? (Tornou-se um hábito, consulto-os sempre, em vários idiomas, várias vezes ao dia) Conferia, satisfeita: “construção de grandes proporções” era mesmo “mole”, conforme tinha aparecido ao fazer palavras cruzadas (outra paixão) quando a empregada repreendeu-me: cuidado, não vá rasgar a página, não é caderno pra colorir! Saí correndo para contar a novidade, queria partilhar a descoberta com os meus amigos, mas – ó decepção – ninguém estava nem aí. De todo modo, o achado representou dois coelhos sob cajadada única: comecei a resolver sozinha minhas indagações etimológicas, parei de amolar os outros. Sim, pois querer saber sobre certos fenômenos, seu funcionamento, causava, no mínimo, embaraço. Escutava é porque é e pronto, tinha que calar a boca, sem maiores questionamentos. O não também era porque não, restava obedecer, mesmo na falta de um argumento lógico para a proibição.

Em 64, conscientizei-me do quanto a arte literária pode incomodar. Sob suspeita de serem subversivos, vi preciosos exemplares jogados no chão para serem apreendidos. Tive de refrear o reflexo de apanhá-los de volta e devolvê-los ao seu lugar na estante. E, embora impactada com aquela batida policial, sua brutalidade, o absurdo da situação (selvagens uniformizados de censores), enquanto eles armavam a patética cena, eu divagava... Alberto Manguel, em Uma história da leitura, relata um fato contado por Borges. Em 1950, em meio a manifestações contra a censura, populares gritavam nas ruas sapatos sim, livros não. Ao que os intelectuais respondiam sapatos sim, livros sim. Mas parece que não convenciam, como se o conflito entre realidade e ficção tivesse que ser mantido. Na verdade, o que se teme é o pensar que do ato de ler advém. O poder está na mente, e o leitor, tão ameaçador quanto o autor. Dar um sentido, quer dizer, o seu, pessoal, intransferível (quiçá provisório) e não aceitar um imposto como verdadeiro e eterno: coisa incompatível com certos regimes políticos. Raciocinar por conta própria, talvez diferente da maioria, pode desestabilizar o sistema, a história tem nos mostrado, às vezes é crime que se pune com banimento, exílio, prisão, tortura e até morte. Nossa família que o diga.

Ana Guimarães

domingo, 25 de setembro de 2011

FESTA DIFERENTE

Sem luzes
sem câmera
só ação

nem velas, apenas
o brilho das estrelas
e a música dos grilos

despidos
famintos
sem gala

não se quis comida
e sim saída
para uma parte: a arte

isso ainda nos resta
– uma fresta –
é dessa festa que falo

Ana Guimarães

Já publicado em http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=p05/p051003.htm&tipo=poesia

sábado, 10 de setembro de 2011

A FÉ NA FICÇÃO*

Pra sonhar não é preciso fechar os olhos e sim ler - Foucault

À parte as qualidades intrínsecas de cada um, a despeito de méritos literários, qualquer texto me seduz (como Cervantes, lia até nos papéis rasgados das ruas). Um livro sempre foi o meu melhor companheiro, alguém em quem podia confiar; um porto seguro, ou sólido navio na tempestade. Tormentas grassavam ao redor e, no entanto, quando começava a folheá-lo, tudo cessava, tudo se calava, tudo fazia sentido. Estimulantes desafios surgiam. Ora adentrava romances de cavalaria, lutava contra moinhos de vento, ora enfrentava poderosos jagunços. Temer algum mistério, terror ou sobrenatural nevermore, pelo menos não a ponto da paralisia. Desse modo, ia ampliando o campo do conhecimento, já que o que é conhecido não pode ser senão por palavras.

Fui aprendendo a relativizar, a me rebelar contra o habitual e dominante pensamento maniqueísta, a conviver com características complexas e organicamente opostas. A escutar e aceitar a polifonia do mundo: vozes, à primeira vista, irreconciliáveis. A trocar toscas certezas por infinitas dúvidas, porém vivificantes. A interpretar n personagens, como se reencarnasse n vezes. Pari passu, ia desfolhando a cebola até chegar ao miolo (qual?), ao que sou ou quero/posso ser. Ousava perguntar: preciso seguir a rota que me foi imposta? Satisfeita ao ver, sobretudo, como eu, viajante, me modificava durante a travessia: partia sendo uma e voltava sendo outra.

Apreciava habitar as entranhas monstruosas da fantasia. Tanto, que via mais verdade aí do que nos fatos, pessoas, relacionamentos. Crianças (suas brincadeiras), adolescentes (seus jogos), adultos (suas conversas), todos desinteressantes perto dessas viagens onde podia me soltar, soltar a imaginação – um exercício libertário por excelência. Parodiando Foucault: eu não condeno as pessoas à morte, simplesmente suponho que já estejam mortas. No mínimo, anestesiadas, em coma. Por outro lado, observo que o oposto da vida não é a morte, mas o medo. Viver é perigoso, poucos querem correr o risco de soltar as amarras, velas ao vento. Por que não reagir (ao menos) com arte às tragédias? Deveriam elas nos paralisar, bloquear nossa sensibilidade? Teríamos que nos curvar aos traumas que nos acometem? Rendermo-nos à afirmação de Adorno, segundo a qual escrever poesia após Auschwitz é obsceno?

O mínimo grau de dispersão ao ler era – e ainda é - motivo de riso. Certa vez, entretida nos Pequenos poemas em prosa, de Baudelaire, nem percebi que o cachorro de uma amiga, procurado à exaustão, tinha se instalado sob a minha poltrona. E quando um incêndio se alastrou numa casa de saúde próxima ao nosso prédio? Os vizinhos passaram a tarde assistindo a operação retira-doentes ser filmada pela tv, enquanto eu só fui ser informada do ocorrido à noite, pelo noticiário, lendo que estava, numa sentada, o Alienista, de Machado de Assis. Paixão não compartilhada, não compreendida: Larga esse livro, menina, vá brincar lá fora, tomar sol, fazer um esporte!...Vem ajudar aqui, já que você está à toa. (?) É trabalho escolar? Senão, pára pra fazer isso assim, assim... Trate de sair, ver gente, ir a festas! Rogo, até hoje, que respeitem meu jeito solitário de ser, sempre com um exemplar à mão (mesmo em trânsito), dois ou três iniciados na mesinha de cabeceira, e uma pilha deles, novinhos em folha, na estante.

Como seria de se esperar, sou ambivalente em relação a hóspedes. Aqui damos de beber e comer, mas não de dormir: sábio lema dos albergues que abrigam os peregrinos em Santiago de Compostela, ao longo do caminho. Apesar de curtir o ambiente aquecido pela conseqüente troca de afeto, pelos causos contados por quem nos visita, pelas novidades, fico indócil, escrava de polidas sociabilidades, ansiando pela alforria do tempo que, inutilmente, escoa. Tal qual uma bailarina se exercitando, necessito de muitas horas diárias para me dedicar ao mal de Montano do qual padeço, meu vício, desde o início. Mas afinal, pra que serve tanta literatura? Nenhuma finalidade ou intenção, puro ludismo. Embora não deixe de ser um ato de esperança, pois a fantasia é a sustentação do desejo, é ver a mais graciosa das mocinhas onde há apenas um atleta peludo, brincou Lacan. Nem divertissement, nem evasão – uma outra forma de examinar a condição humana.

Deixo-me afetar pelo que leio. Assim como Borges, sinto que as letras, esse espaço da biblioteca entre os significantes – locus diabolicamente divino, que tanto prazer proporciona – se impõem a mim como um sonho que, ao despertar, temos necessidade de verbalizar e associar a partir dele. Dialogo com o autor, em intensa e constante interlocução, por vezes exaltando-o (na maioria), por vezes corrigindo-o (que pretensão!) tal qual um escriba da Idade Média. Grifo palavras, sublinho expressões, trechos, faço anotações em suas margens. Gostava de lê-los para alguém depois, compartilhar meu Eldorado, mas nem sempre era bem-vinda. Além do mais, o ouvinte se liga se quiser, pára de acompanhar, pensa em outra coisa (pelo olhar ele se trai), se fixa mais em você, no seu jeito de ser, do que no que está sendo dito.

Desisti. Uma ilusão pensar poder passar aquilo que sentira lendo (a emoção) através da leitura em voz alta. Era um gesto desesperado, reconheço, para ressuscitar os zumbis. Como naquele ditado, eu apontava a lua e eles só viam o meu dedo. Se tanto. Recordo-me de um ensaio de Montaigne, onde ele fala que devemos morar num lugar com vista para um cemitério porque mantém as prioridades da vida em perspectiva. Pois bem, meu lar voltado para a ficção me fez prestar mais atenção à realidade. Interna e externa. E, muito cedo ainda, permitiu descobrir-me além de sujeito, mulher, esse conceito impermeável a todo saber que se produza a respeito.

Ana Guimarães

*Já publicado em http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=2108

domingo, 14 de agosto de 2011

DEPOIS DA MORTE* - uma homenagem


Hoje é a terceira vez que venho ao apartamento depois da morte de meus pais, há quinze dias mais ou menos. Nas duas primeiras não tive tempo sequer de olhar com mais atenção ao redor, preocupada que estava em pegar documentos com urgência para procedimentos burocráticos da ocasião. Agora venho também atrás de mais alguns, só que vou procurá-los com calma, não tenho idéia de onde estejam nem estou afogada na pressa de encontrá-los. Na verdade, aproveito para saborear ecos do passado.

À luz de um abajur (a de cima, do lustre, queimou), tomo fôlego para embarcar nesse túnel do tempo, suportar as vertigens que me esperam ao me deparar com lembranças e reminiscências que povoam o espaço, hora solitária que não posso nem quero dividir com mais ninguém.

Da sala arrumada como se esperasse visitas, um inebriante e familiar cheiro de comida caseira sendo refogada na vizinhança quase me faz perguntar: o que é que vai ter pro jantar? Na cozinha, o silêncio. Tampa de fogão arriada. Tudo limpo como a faxineira deixou, só um pó fino que teima em penetrar pelas frestas das janelas e em tudo se depositar. O insistente e delicioso aroma que me invade as narinas transporta-me às delícias culinárias de minha mãe, nosso único ponto de identificação, mesmo assim tardio e com atritos: ela nunca se conformou com a invasão, senão superação de seus domínios pela filha mais afeita aos livros do que a qualquer outra coisa, que quando se casou nada sabia dessa prática e em pouco tempo a dominava, entregando-se de corpo e alma à culinária, fora os outros interesses que permaneceram.

Perco-me em memórias olfativas e gustativas que logo carreiam as visuais: o peixe frito da feira de 4ª feira, até hoje no mesmo lugar e no mesmo dia. Os incomparáveis bifes acebolados. O pernil de porco assado no Natal. O bacalhau da Páscoa. Sonhos polvilhados com açúcar e canela do lanche no meio da tarde. O imbatível bobó de camarão das festas de aniversário. Era uma cozinheira de mão cheia, daquelas que só sabem cozinhar com fartura, embora gostasse de alardear que era econômica porque considerava isso uma virtude e gostava de ser – ou de se pensar, ou ainda de ser vista como – virtuosa. E só usava ingredientes de qualidade, ficava doente quando dava sua receita a alguém e via esse alguém modificá-la, adulterá-la, visando um menor gasto.

Volto pelo corredor, com todo o barulho interno contrastando com o silêncio exterior, e no meu antigo quarto de solteira abro a escrivaninha com a fechadura emperrada, detendo-me em papéis que há muito não são mexidos. A poeira me faz espirrar sem parar. Um gaiato, de algum lugar, grita saúde. Respondo amém, rindo, em meio a mais espirros. De uma grande caixa amassada de papelão saem reclames os mais diversos, guardados não sei para que, os números de telefone ainda com sete algarismos. Meu convite de formatura, um santinho da primeira (e quase última) comunhão, uma tela desbotada, pintada por mim na aula de arte, uma tapeçaria não terminada, retratos em preto e branco. Na estante, minha coleção de Monteiro Lobato.

Empurrando com o dedo a porta apenas encostada, sinto-me como uma criança invadindo o quarto dos pais na sua ausência, violando sua intimidade. Quase posso me ver menina, brincando de mulher adulta, sapatos de salto alto, colares, batom vermelho borrado na boca infantil, bolsa maior do que eu (de couro de cobra morta na fazenda do meu avô), uma echarpe de plumas ainda não ecologicamente incorreta. Tudo isso está aqui, na minha frente, quieto, mudo, mas falando tanto!... remetem a um tempo até anterior a mim, quando só se ia ao centro – à cidade, como se dizia – de chapéu, luvas e meias finas. E de bonde. Era chic.

No armário de mamãe, entre cabides de soutache, velhos óculos de grau e uma pesada bola de marfim para cerzir meias descubro um baú cheio de cartas de amor de um para o outro. Jamais soube de sua existência, e minhas mãos se revestem de um respeito inimaginável ao tocá-las. Tamanho, que depois de ler o primeiro parágrafo da primeira resolvo fechá-la e ficar só – por enquanto – contemplando os envelopes sobrescritados. Aqui se trata da correspondência entre duas pessoas distintas, um homem e uma mulher, e não mais de meus pais. Recoloco com reverência o baú, como se fosse uma urna mortuária com cinzas dentro, no fundo da gaveta onde estava, como um tesouro escondido. Mais pra frente virei redescobri-lo. Não se pode viajar por vários países de uma só vez, a cabeça rodopia e você confunde tudo. Muita informação ao mesmo tempo.

Na cômoda de papai, apetrechos masculinos largados, com displicência, como se o dono fosse ali e já voltasse: um barbeador prateado em seu estojo original, com nota fiscal, garantia e instruções de uso. Um pente de osso. Uma velha câmera kodac em excelente estado. Moedas as mais diversas, num saquinho de feltro. Uma calçadeira e uma piteira. Dessa me lembro bem: um amigo a presenteara, recomendando que a usasse com freqüência para reduzir a assimilação das substâncias nocivas contidas no cigarro. E junto com elas o gosto, o prazer de fumar, brincava papai. E o que ele fazia? Era só o amigo chegar de surpresa (é, isso acontecia), e ele pegar a bendita piteira e aparecer na sala como quem não quer nada, fumando seu cigarrinho devidamente encamisado, quer dizer, protegido. Impostura? Fraude? Não. Mentira que dizia a verdade. Um agrado, um mimo ao amigo, que ficava superfeliz e agradecido, crente que fizera uma boa ação. Que o presente emplacara. Que fora de muita utilidade. E fora, só que de outro jeito, para diverti-lo.

Não, ele não queria ser poupado dos estragos do fumo. Da pulsão de morte agindo, desse gozo. Que acabara, inclusive, conduzindo-o a um enfisema pulmonar progressivo que o faria passar, mesmo sem mais fumar, os últimos anos de sua vida dependente de uma bala de oxigênio instalada à cabeceira da cama. E quando ficava algum tempo sem, era horrível. A boca aberta como um peixe fora d’água, se debatendo, tentando respirar, com a gente impotente à sua volta.

Abrindo o emperrado gavetão inferior, no meio de tantos postais por ele recebidos, sinto a pele arrepiar e rodopiar a cabeça, precisando sentar-me para ler um amarelado cartão, datado de priscas eras. Na frente, um desenho de uma criança com um bebê de proveta nas mãos. Dentro, os seguintes dizeres, com minha letra miúda: pai, já sei como se faz um filho! É só criá-lo com o mesmo amor com que você me criou. Feliz dia dos Pais, sua filha querida.

Ana Guimarães

*Já publicado em http://www.saldaterraluzdomundo.net/literatura_contos_.htm e http://www.blocosonline.com.br/literatura/arquivos.php?codigo=temdomes/2006/08/pai/tempro02.php&tipo=prosa





terça-feira, 9 de agosto de 2011

LONDRES ANTES DAS CHAMAS


Shakespeare, Virginia Woolf, Charles Dickens, Oscar Wilde, Lewis Carroll, Isaac Newton, Charles Darwin, Chaplin, Beatles, Fred Mercury, Mary Quant. Parodiando Woody Allen em Meia-noite em Paris, andar por Londres é esbarrar em personalidades inglesas de outras épocas sempre vivas na memória, para no final rendermos tributo ao presente ao constatarmos que a cidade, dona de irresistível charme, é uma metrópole moderna que soube resistir ao tempo, preservar seu incalculável legado histórico.

Heathrow é um senhor aeroporto: organização, atendimento e limpeza impecáveis. O metrô, detentor de um prêmio de design, eficiente. Os célebres ônibus de dois andares e as cabines telefônicas vermelhas, imperdíveis. Os tradicionais táxis pretos ultra-espaçosos valem uma corrida. Com um bom mapa nas mãos consegue-se caminhar sem tropeço nas ruas, mas lembre-se de que a mão é invertida, os carros andam pela esquerda, cuide de olhar nas duas direções antes de atravessar. Não deixe de conhecer a palpitante Oxford (com intenso comércio), as lendárias Baker Street (que abriga o museu Sherlock Holmes) e Abbey Road (onde o famoso quarteto posou para a capa do penúltimo disco da banda) e um lugar chamado Notting Hill, sua feira de antiguidades aos sábados.

Aos domingos, o Hyde Park no trecho perto do Marble Arch transforma-se no Speaker’s Corner: qualquer um em cima de um caixote pode fazer o discurso que quiser. Embora a maioria interprete como exercício de democracia, de liberdade de expressão parece que o costume remonta há séculos atrás quando prisioneiros sentenciados à morte proferiam suas últimas palavras antes de serem enforcados num patíbulo instalado nesse exato local.

Principais pontos turísticos: o Parlamento e seu relógio, o Big Ben, emblemático da cidade. A Torre de Londres. A ponte sobre o rio Tâmisa. A Catedral de St Paul. A Abadia de Westminster. A troca da guarda do Palácio de Buckingham, residência oficial da monarquia. A Tate Gallery. O museu de cera Madame Tussauds. London Eye (a roda-gigante). Trafalgar Square (a praça mais importante da City). Piccadilly Circus. Marisfield Garden, 20 (um ilustre endereço, a casa onde Freud viveu e trabalhou depois que, foragido, deixou Viena ocupada pelos nazistas). E o mais deslumbrante: o colossal acervo do museu Britânico, com preciosidades tais como a Rosetta Stone (a pedra a partir da qual Champollion traduziu os hieróglifos), a bíblia de Gutenberg (o primeiro livro impresso), a sala de leitura da Biblioteca (frequentada por Bernard Shaw, Lenin e outros notáveis) e vasta coleção de antiguidades gregas, egípcias e romanas (o espólio do império foi grande, até hoje fonte de atrito entre os governos que exigem a devolução das relíquias).

Diversos entretenimentos noturnos estão à disposição do visitante: ópera, balé, sinfônicas, grandes espetáculos teatrais. Se a obra de arte há muito deixou de ser só objeto de contemplação para tornar-se também motor de inquietude, perco-me nesse redemoinho de imagens, deixo-me inundar por uma chuva de impressões que logo sulcam e fertilizam todo o meu ser, culminando numa verdadeira experiência estética de abandono e pacificação.

Por fim vou às compras na Harrods, loja de departamentos com 90 mil metros quadrados de espaço de venda, cujo lema é Omnia Omnibus Ubique (todas as coisas, para todas as pessoas, em todo lugar). Dizem que a primeira escada rolante apareceu aqui, em 1898, e os clientes eram esperados no topo com uma bebida, para acalmá-los; o Food Hall é uma atração à parte. Aliás, contrariando o estereótipo, a gastronomia muito tem a oferecer: fish&ships, chá das cinco e pubs, típicas e deliciosas instituições inglesas. Os restaurantes étnicos também são dos melhores, sendo a comida indiana a mais popular entre as estrangeiras, talvez porque a Inglaterra seja a segunda pátria dos hindus. Aproveite.

Ana Guimarães

sábado, 30 de julho de 2011

POEMAS

FORÇA DE VONTADE

Força
se faz
para não se entregar
logo
(como o coração)
um seio
à mão
para que o aperte
muito
pouco
importa
que queira
ou não
apertá-lo
para sempre

Nesse limite
invisível
palpável
entre a intenção
e a contenção
da vontade
(pura hesitação)
vive-se

SEIS

Daria as vidas
que lhe restam
por minutos
em seus braços

Cinderela
sem queixume
à meia-noite
de volta pro borralho

Mulher-gato
retornaria, todo dia,
só pra lamber sua boca
de Batman

Cravaria o gatázio
em sua carne:
quem sabe alcançaria
um coração, no peito?

Pois quem gateia é ele
foge
negaceia
brinca de gato e rato

Diante disso
ela se contenta
em gatafunhar
seus escritos

VOCÊ E EU

não passamos
de fios
encaracolados
aos demais
não tecemos
mantas
agasalhos
sapatinhos
nem somos varais
estendidos
secando roupa
só nos enroscamos
e formamos
nós
quando muito juntos
como finos cordões
de ouro

Ana Guimarães

Já publicados aqui: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=1842