sábado, 20 de fevereiro de 2010

A GAIOLA, MESMO VAZIA, É PEQUENA DEMAIS



(pouco mais do que um cut-up da coluna de José Castello de 20/2/2010, no Prosa e Verso de O Globo)


Todo problema tem solução, certo? Errado. Não creio. Nada pode resolver uma divisão, no máximo se consegue expô-la. Qualquer movimento (opção) pode agitar mais ainda os envolvidos.
Debruço-me sobre fragmentos de poemas de Fabrício Corsaletti (o livro é Esquimó, e logo associo: só esse povo é capaz de nomear o branco da neve de setenta maneiras diferentes), na esperança de tomar distância do real e tentar manter o equilíbrio, literalmente: ando com labirintite.
Mas acontece o contrário: o que leio me remete de volta à questão pessoal. A poesia é como óculos: quando você os coloca, não vê os óculos, vê as coisas com mais clareza. A poesia é essa lente que faz com que se perceba tudo com mais nitidez.
Retorno, desolada, aos pensamentos sobre a minha identidade. Ana Emilia Rebelo é meu verdadeiro nome, não Ana Guimarães... Depois me desminto: Ana Guimarães é meu verdadeiro nome, não Ana Emilia Rebelo. Repetição da dúvida que me assalta, que me angustia. As duas afirmações guardam parte da verdade, mas a verdade inteira não está em sua soma. Assim é a realidade.
O cadáver deve continuar exposto ou ser enterrado de uma vez?* Esbarro nas paredes, tateio, não decido. Paraliso.
O que quero de um homem? O poeta me responde. “Não quero voltar para casa/no seu abraço/não busco o que perdi.../...Você é vento quente/que me acompanha/o enigma que não precisa ser decifrado.../...De você eu quero apenas/um filhote de lobo/um filhote de lobo/para morder minha mão direita”.
Enigmas mordem a gente, despertam, trituram. E fazem sangrar. Na mão direita, a da razão. A esquerda, da emoção, continua intacta porque partida desde sempre, como a castração na mulher.
[Acabo de ler no café literário do portal Cronópios, a resposta de um amigo escritor, Flávio Viegas Amoreira, aos meus votos de parabéns pelo seu aniversário no dia 15 desse mês: Grato, emocionado. Ana, (só Ana, talvez essa seja eu), saudades e tanto afeto por ti. Beijo na filha (que aniversaria no mesmo dia). Você instiga... motiva.]
Se transparente, veriam que além da força de sustentação de uma família, de escudo para os filhos, de escuta para as pessoas, tenho um lado delicado, de desamparo. Ando alquebrada. Torta pelo vento que, pra simplificar, chamamos vida.
Everything is broken, diz o poeta e assino em baixo, com qualquer um dos nomes, novamente ele me retrata. “Minha voz/está quebrada/meu pensamento/está quebrado/(...)/tudo está quebrado/... Há uma pessoa no mundo/que não está quebrada/e eu estou ao seu lado/como se não estivesse quebrado”. Só o outro cola, fornece a ilusão de completude. Mas mesmo isso não estanca a sangria, sabemos. Ilusões não são verdades.
Existem coisas a respeito das quais devemos nos calar? “Nunca falei/nunca vou falar”. Falar afeta o frágil equilíbrio do mundo. Não falar, afeta o meu. Mais um verso do poeta, que me traduz: “Não vou/me perdoar/pelo que fiz/Não vou/me arrepender/do que fiz”. Pura ambigüidade.
Das palavras não conseguimos escapar. Elas expõem a cisão que nos constitui. Escrever (poesia ou prosa, tanto faz) só roça o enigma, não pretende solucioná-lo. Não é inútil, embora também não sirva para nada (seria um sintoma do indizível?). Melhor não tocar no assunto. É mais prudente ficar em silêncio.

*Foi noticiado que o governo da Rússia não sabe se enterra o corpo embalsamado de Lênin, conservado num mausoléu da Praça Vermelha, desde 1924, exposto à visitação pública.

Ana Guimarães

Edmir, do site Ver-O-Poema publicou o meu texto, confiram: http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1260

10 comentários:

  1. então, ana emília - escreve - é isso que te dá identidade - e assina conforme o vento, uma vez pelo leste, outra pelo sul!
    besos

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  2. e se eu disser que, para mim, acima de tudo és ANUXA, amiga, franca, forte ou fraca, como todo o ser humano, mas que sabe, como poucos, expôr seus sentimentos(e ainda tens de lidar-e muito- com os dos outros) que te cercam por todos os lados? O que me dirias disso, vovó formosa, mãe admirável, esposa e companheira, amiga inesquecível, profissional de primeira... Tens mais do que direito de ESTARES COM LABIRINTITE.
    TE AMO E ESTOU COM SAUDADES.
    bjos,
    Tania

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  3. Ana minha querida!
    Olha, não sei qual dos personagens está escrevendo, mas sei dizer que é um encanto ler esses magníficos textos.
    Te admiro muito.
    Beijos!

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  4. Somos muitas e não somamos...
    Nos multiplicamos numa infinita capacidade de nos doarmos...
    Doamos nossos pensamentos, nossos sentimentos através da nossa voz na boca escancarada ou nas letras oudadas!
    Já não penso em quem sou, não pensemos...
    Na essência somos, apenas somos e quem somos? Sabe-se lá!!!
    Linda palavras as suas!!!!!!!!!!!!!

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  5. Ana Guimarães, te encontrei no mundo virtual e nos conhecemos através de palavras expressas de forma escrita.Com certeza elas me revelaram muito da Ana Emília. Sei que te admiro , que adoro te ler, palavras que sempre ficam gravadas e com as quais me beneficio e muitas vezes me divido.Mas são elas que a tornam viva para mim.
    UM beijão

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  6. Liria (escrever nos dá identidade!), Tania (sua amizade é ouro!), Mariano (quem está escrevendo é a autora), Dulceny (lindas palavras as SUAS!), Rosemari (idem, idem): muito obrigada a todos!
    Beijos

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  7. "Porque Eu é um outro." .."O poeta se faz vidente por meio de um longo imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura;buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só reter a quintessência."

    Escolhi uma palavra amiga, de outro poeta. Radical ao extremo. Buscou a língua da alma para alma. Não conseguiu, ninguém conseguirá.
    Entre enterrar ou não o cadáver, o tempo ajudará a aquietar as divisões; não, não encontrará respostas, mas encontrará o êxtase da dúvida, e uma forma de conviver com elas, nós que somos pós de estrelas, nada além disso. Surdos e cegos, com a vaidade de falar. Sem saber bem o quê. Beijos.

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  8. Ah, mas falar é muuuuito bom, Djabal! Acho que é a melhor coisa da vida, com todo o respeito pelas demais que eu tanto amo! :)
    beijo, amigo! Obrigadão pela presença e comentário.

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  9. Tenho visto uma significativa movimentação dos meios poéticos em relação ao Corsaletti.
    Sinceramente, seu texto me remete a Reinaldo Morais, de Tanto Faz, que, embora tenha surpreendido em sua época pelo prosaico e a linguagem algo fragmentária, não produz grande ressonância em mim.
    Embora seja uma opinião meio solitária, prefiro palavras mais robustas & consistentes. Há algo de efêmero nos versos de Corsaletti...

    Beijão.

    Ricardo Mainieri

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  10. Pode ser, meu amigo Ricardo: mas a vida também não é efêmera?
    A verdade é que nâo sei se esses versos do Corsaletti teriam produzido grande ressonância em mim se os tivesse lido fora do contexto, isto é, fora do texto do Castello.
    De qualquer forma, agrada-me sua presença e comentário aqui no meu blog.
    Beijo

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