domingo, 25 de julho de 2010

NÃO HÁ BANDA

Cada morte que canta
é um espanto
como se não soubéssemos
o que nos espera
essa “colheita comum
do capinar sozinho”

Fáustico é o esforço
para enfrentar os próprios crespos
organizar o caos
atravessar o inferno
exorcizar o diabo (o outro)
no meio do redemoinho

Tudo para evitar
o lugar
cheio de noite e silêncio
Para esquecer
ou tentar adiar
a hora derradeira

Mas o nada
independente do pacto
sempre chega

* referência a uma citação recorrente no filme de David Lynch, Cidade dos Sonhos

Ana Guimarães

20 comentários:

  1. Eu sei o que é capinar sozinho Ana! Muito bom!

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  2. Genial, Ana, como sempre. Faço coro com o seu leitor Menezes. Como "capino sozinha"...você nem imagina.

    Um beijo

    E.T. Espero e torço que tudo já esteja bem. Um beijo pra você,para o príncipe e, em especial,para a filha. Melhoras pra ela.
    Obrigada pela visita e pelo carinho.

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  3. Aninha, querida. Este poema me tocou muito. Acho que ninguém pode sentir-se alheio a ele. Pode, quando muito, passar por cima como se houvesse uma ponte sobre um campo que nos entristece e que nos mostra a realidade.
    Capinar sozinho... Cada vez mais estamos nessa.
    Como tu estás, minha linda? Espero que tudo esteja correndo bem.
    Muitas saudades.
    bjos

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  4. Ana Lúcia Vasconcelos26 de julho de 2010 01:55

    Ana muito bom o poema...como sempre vc falando as coisas certas na hora certa....abração.

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  5. "Como se não soubéssemos o que nos espera".
    O pacto sempre chega. Mas navegar é preciso.
    Pra pensar e apreciar.
    Abraços
    Luiz Ramos

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  6. Querida Aninhas
    Este é o poema da verdade...aquela verdade que muita vezes não queremos ouvir, nem ler...Será que a olvidando atrasamos a sua chegada?
    Como tens passado?
    Beijo
    Graça

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  7. O nada sempre chega. Ao final, desde o início e pelo meio do rio vida do ser ele impera como o vazio que o Oriente nos envia.
    Viver em um palco cheio de luz, ouvindo a voz de um louco cheio de fúria, muitas vezes nos torna crespos e ajuda naquela ciranda sarabanda.
    Alguma poesia ajuda a parar e ponderar, e quem sabe encontrando a palavra certa, como a tentativa de todo poeta, nós desapareçamos com alguma paz. Quem sabe?
    Bravo, bravo. Beijos.

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  8. Voe, voe, vá além, vá muito mais além! Finque suas raízes no solo da iluminação para adentrar a roda dos sofrimentos mundanos sem se perder em seu meio. Assim, poderá entrar e sair das trevas sem ser contaminada e mais uma a ajudar em vez de ser mais uma a ser ajudada. [Arayashiki - despertar o oitavo sentido, "ir ao mundo dos mortos e voltar vivo"]

    Vida e morte representam uma dinâmica de paradoxos em constantes mutações. É mister adquirir a paz em vida para que possa morrer em paz. Que nenhum cativeiroo material ou abstrato ( através da sutil dominação da subjetividade) aprisione a sacra liberdade de pensar, escolher, opinar, sejam quais forem as circunstâncias.Que o desdobramento do mistério prânico perdure ad infinitum.
    bijinhos ♥

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  9. Caríssimos amigos: serei eternamente grata pela presença de vocês aqui, no meu blog, comentando os meus textos! Sejam sempre bem-vindos! Muito obrigada pelas observações, considerações, reflexões. Vocês fazem parte de um tudo que anula o nada.
    Grande abraço em cada um!

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  10. Querida Ana, que alegria visitar seu blog!!

    Seus poemas sempre me levam a pensar em redemoinhos profundos, em que exorcismo (claro, do "outro diabo") e despertar levam ao centro de um "nada" - local medonho, contudo, com luz silenciosa no fundo do túnel, ou será, do redemoinho?

    Beijos felizes, com carinho,
    Madalena

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  11. Madalena querida, que saudade dos seus sempre fecundos comentários, muito obrigada! E que foto linda, hein? Parabéns!
    Beijo, minha amiga!

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  12. Ana, amiga de tempos...

    ... Dante(s) e depois dos teus infernos de enfrentar e vencer, há sempre tu. Querida, adimensional. Ainda tenho e conservo a minha carteirinha de fã da tua maneira de ser: o pensar e o escrever.

    Beijo enorme, sempre.
    RR

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  13. Quando a presença do "Nada" se faz presente em nossa vida, paramos para olhá-lo mais atentamente.
    No entanto, a morte está ocorrendo a cada dia. Células fenecem e outras nascem para recompor o equilíbrio. O orgasmo, conforme os franceses, foi apelidado de pequena morte. Ela, está, deste modo, em plena vida. Esse é o contraditório.
    No entanto, penso haver algum caminho além do Nada. Não nesta forma terrena, mas de uma outra forma energética.
    Como disse Drummond em um de seus poemas: o poeta deixou de tratar das coisas lindas/e começou a tratar das coisas findas.
    Este é teu caso e atesta, então, a maturidade poética.

    Beijão.

    Ricardo Mainieri

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  14. Renato e Ricardo: uma honra tê-los por aqui, com suas generosas palavras que orgulhosamente, mas, paradoxo, com humildade, agradeço. Não sabemos o que há - se há - quando essa vida termina, por isso dou valor ao "lado de cá": amizades, por exemplo, de gente de bem como vocês.
    Beijo amigo nos dois.

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  15. Querida amiga
    Uma verdade inquestionável! De quantos recursos necessitamos.
    Assim como a poesia, uma bela poesia que versa, que transita pelas bandas onde temos dificuldades de chegar.
    Parabéns
    Beijos

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  16. Ah, Salete, esse que você menciona, a poesia (a arte, de um modo geral) é o melhor dos recursos, mas nem sempre conseguimos acioná-lo!
    Beijos

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  17. Olá Ana!
    Se não acreditarmos na ressurreição, o sentido da nossa vida não pode ser mais deprimente. E se acreditarmos que todos os esforços e todas as artes serão reduzidas a nada e a um silêncio sem memória, como se a história nunca tivesse acontecido, tudo tem um interesse imediato de mera conveniência.
    Um poema perturbador que interroga directamente.
    Beijo

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  18. Sua interrogação foi que me perturbou agora, Carlos, obrigada. E também, por associação, lembrei de meu velho, querido e saudoso pai: "Vamos cuidar da vida, que a morte é certa".
    Beijo

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  19. Sempre há algo a se fazer em prol da Beleza, antes do Nada e depois também. Para além disso é o caráter inglório de se esperar perfeições.
    Belo poema amiga Ana, belo pensar.
    Beijos

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  20. Depois também? Isso é que é um belo pensar, Tere.
    Obrigada. Beijos

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