quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O MEDO DA LUZ


O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê. (Platão)


Em um romance de Ítalo Calvino, Il Cavaliere inesistente, Agilulfo, uma espécie de Don Quixote, para se acalmar e não se dissolver na incerteza e no absurdo daquela época das Cruzadas dedica-se, compulsivamente, a contar objetos e a resolver problemas aritméticos, ao alvorecer. Cada um se arranja como pode. Os sintomas cumprem um papel metafórico, resta a interpretação, ou seja, a aproximação da verdade.

O passado influencia o futuro, a ponto de sobredeterminá-lo? Interessaria a alguém conseguir exterminar lembranças que permanecem intactas, com vívidas impressões sempre assombrando? Repetindo um auto-exílio, Eva parte para uma nova cidade em busca de recomeço, deixando para trás a família dividida e poucos vínculos que a distância ou a morte ainda não devastaram. Diz querer escapar de ultrajantes abandono e solidão, zerar sua vida que terá início ali e agora. Reconstruir a história, apagar da memória traições, ingratidões, a dor e a doença delas derivadas. Jogar fora o retrato e a moldura (o geográfico) que parecem aprisionar trágicas recordações.

Tal postura aliada ao hábito de idealizar relacionamentos a seqüestrará, de novo, do presente? Pois já fora assim há uma década atrás, terá esquecido? Na ocasião, fugiu de urubus que rondavam a carniça na qual se tornara logo após a separação pedida pelo marido depois de décadas de lutas, crises, mas também de cumplicidade, conquistas e filhos. Voltou da capital (local em que só fizera conhecidos, todos atrelados por circunstâncias profissionais e pelo luto de seus lugares de origem) para o Rio, berço natal onde continuavam a residir parentes e velhas amigas de infância que de certo a apoiariam.

Todos esperaram que o centro espírita que resolveu freqüentar e o psiquiatra ali indicado – não os remédios com os quais passou a se encharcar – iluminassem a ponta do sentimento que a perturba. Que conseguisse, além de enxugar o vazamento, descobrir a fenda por onde a coisa passa. Escavando, fizesse o caminho contrário, criativa travessia que sempre abre janelas para outros espaços, contraditórios, contudo arejados porque construídos por palavras. Que aceitasse, enfim, como falava Cioran, sofrer as conseqüências de ser ferida pela existência. Mas ela preferiu, outra vez, a saída de emergência, a única vislumbrada no desespero: o aeroporto.

Não nos livraremos de nossos destinos e da visão de mundo congelada, pétrea, intocável que (se a) carregamos nem se mudarmos de identidade, quanto mais de endereço. E porque a vida é movimento, a inútil censura promoverá, em algum momento, o retorno do recalcado. O que parece se desconhecer é que o obstáculo para suportar o inevitável mal estar na civilização não está no quadro que cada um mostra, mas no que subtrai. Muito fica de fora, talvez o principal. A parte ignorada é infinitamente maior do que a sabida, uma zona de sombra, fronteira com o indizível.

Não são os outros que a magoaram, que a decepcionaram os responsáveis pela depressão que a consome. O que contamos de nós imputando a terceiros nosso estado, mesmo revelação fiel dos fatos, subverte a realidade. Ao invés de capturar o real, o deforma, e quase ninguém tem consciência da fraude. Repetimos ad nausean: “sou/estou assim porque minha mãe... porque meu marido... meu filho... meu chefe... o governo do meu país...”, sem conseguir focar sobre o que fizemos com o que nos fizeram. Só a partir dessa pergunta poderemos desenhar, escrever, esculpir, pintar um renascimento. Seja lá onde for.

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz. (Platão)

Ana Guimarães

14 comentários:

  1. Olá Ana!

    A densidade do teu texto requer uma capacidade de análise e um conjunto de aptidões interpretativas que não são fáceis de usar e de operacionalizar. A personalidade de cada um parece que só se torna "complexa" quando é problemática. Estou convencido de que, se há coisa em que valha a pena investir, é no estudo e compreensão do homem, sua natureza e condicionalismos, a parte de nós que nos é revel e a parte que nos é dócil ou indócil e a nossa capacidade de "autogoverno" face às circunstâncias.
    Parabéns pelo trabalho.
    Abraço

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  2. Ana, fiz apenas a primeira leitura. Espero poder dizer, na próxima, algo que acrescente a mim ou a nós.

    Beijos, querida!
    Thaïs

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  3. Amiga, MARAVILHOSO!
    Parabéns!
    Bjs,
    Thereza

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  4. Passando para agradecer o convite para ler;voltarei com mais tempo e sem dor de cabeça,para ler mesmo.Bjssssssssssssssssss

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  5. Reger as próprias circunstâncias a partir do que é dado, do que é oculto, do simulado...Perceber e distinguir o inteligível e o sensível - quanto mais se agigantar o desejo de seguir descobrindo.
    Parabéns Ana, pela sintaxe!
    Beijos

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  6. Ana
    Ventos não percebidos, não sentidos tem mais poder do que os sentidos e percebidos. Sabemos o porquê, não?
    Conseguistes unir através de uma costura bem feita conhecimentos oriundos da psicanálise e a literatura enquanto vista por esse ângulo. Isso do ponto de vista da distinção de gênero literário que se faz.
    No entanto, sabemos nós, que todo o escrito cumpre um fim, podendo ser o começo, ou o meio. esse caso o presente.
    A brisa também é um vento. Aqui no sul do Brasil, os ventos estão fortes, fazem estragos nos jardins, nos pomares e fazem a temperatura baixar, quando em parte do dia ou em alguns outros o sol e sua iluminação mostra-se maravilhoso.
    Lendo teu texto, me deu vontade de continuar escrevendo sobre o tema, aqui não faço porque na minha percepção ele está sob medida.
    Parabéns pela bela e rica produção.
    Beijos

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  7. Ana, querida, a leitura de sua prosa é uma terapia de autoconhecimento. Conseguir enxergar nossa luz é um meio certo de trazer as trevas à beira da janela de um prédio de vinte andares. Rsrsr - lembrei-me de algo que li há muito tempo sobre alguém querer sair de casa para livrar-se dos fantasmas... O que esse alguém não sabia é que os fantasmas também fizeram as malas e o acompanharam - rsrsrs.

    Beijos.

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  8. Ana Lúcia Vasconcelos17 de outubro de 2010 13:32

    Ana ótimo texto-desculpe a demora em responder- só agora tive tempo de ler.Como já disseram aqui nos comentários boa junção de psicanálise com literatura e no mais nem sempre ou nunca a melhor saída é o aeroporto.Beijos
    Ana Lúcia

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  9. Gostei :-) bjs Claudia

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  10. Ai Ana, como gostei desse texto!
    Cai como uma luva a uma situação que vivi ontem e que por pouco não caio na armadilha de responsabilizar o outro pelos meus próprios sentimentos.
    Valeu a sessão de análise gratuita!
    Minhas idéias hoje estão mais claras, ainda mais depois de ler seu texto. Mas não antes de encarar de frente minhas sombras, durante uma noite mal dormida :)

    Besitosss en tu corazón!
    Quel

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  11. Caríssimos amigos, muito grata pela leitura e comentário desse texto, O Medo da Luz. Fico feliz que ele tenha tocado cada um de uma maneira própria, especial, diferente.
    Beijos

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  12. Cara Ana,
    Não nos conhecemos, por isso desculpe-me pela intromissão desajeitada.
    Estava a procura de um texto, e na busca fui direcionado ao seu blog.
    Caso possa auxiliar-me nessa busca, agradeço.
    trata-se do seguinte fragmento, de Kafka:

    "... Todas as suas necessidades, aliás, bem íntimas, eram atendidas por criados que se revezavam, vigiavam embaixo e faziam subir e descer, em recipientes construídos especificamente para esses fins, tudo o que era preciso lá em cima. Esse modo de viver não causava aos outros dificuldades especiais; era apenas um pouco incômodo que durante os demais números do programa ele ficasse lá no alto, o que não se podia ocultar; apesar de, nesses momentos, na maioria das vezes se conservar quieto, de quando em quando um olhar do público se desviava para ele."

    grato,
    Arnaldo Barreto
    mundodasletraz@gmail.com

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  13. Vim procurar esse meu texto e acabei encontrando algo diferente e muito melhor: o seu comentário.
    Obrigada, Arnaldo!

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  14. Desculpe a abrupta interrupção, mas continuando: sinto, mas não me lembro do trecho em questão, embora tenha lido tudo do Kafka, sou apaixonada pelo escritor, até estive em Praga, sua cidade natal em 2009, aí o link para a crônica de viagem:
    http://ogozodaletra.blogspot.com/2009/05/primavera-de-2009-na-europa-praga.html
    Abraços!
    Seja bem-vindo!

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