domingo, 23 de janeiro de 2011

A ETERNA CONFUSÃO




“Queira ou não queira, o autor é um personagem de sua obra” (Lêdo Ivo)


Às vezes me pergunto pra que se dar ao trabalho de separar o autor do narrador, dos personagens, o eu lírico da pessoa do poeta, descaracterizar o autobiográfico, tentar um mergulho o mais fundo possível na opacidade da ficção (como se a realidade fosse menos opaca, como se lembrança fosse fidedigna e não seletiva e assaz distorcida, como se quem escreve soubesse onde está o scriptor (falo de fronteiras, limites) - espero, somente, da memória que possibilite uma recomposição fecunda e criativa do que aconteceu) para no fim, leitores e críticos especularem feroz e talvez, equivocadamente, sobre a relação entre vida e obra. Será que todo o processo (incluindo aí poética, metáforas e tudo o mais, os recursos disponíveis de praxe) seria apenas (?!) como disse Barthes, para se sofrer menos? Seria esse, afinal, o poder (para não falar função, porque isso seria reduzi-la) disso que se denomina uma 'linguagem inútil'? (Aliás, costuma-se atribuir tal adjetivação a Manoel de Barros, que muito bem a utilizou, diga-se de passagem, embora tenha sido Leminski quem primeiro cunhou o termo).

Que necessidade será essa de se esmiuçar um texto, de se especular sobre a possível relação entre ele e fatos concretos (chega-se ao cúmulo de se entrevistar um escritor com o objetivo de “esclarecimento”!), cotejá-lo com a realidade? Vã tentativa de aprisionamento. Pode até servir para aumentar nossa compreensão sobre o universo objetivo do sujeito, mas não necessariamente atestar alguma correspondência, mais provável que revele uma descontinuidade: não só não há reciprocidade, como escrever costuma ser a resposta da fantasia diante da indigência do real. Pior, em alguns casos, pode sim correr o risco de acabar com a mágica, revelar o truque, e, ainda por cima, dar um atestado de baixa potência das letras em questão, de sua incapacidade de cantar novos mundos, enfim, da dificuldade delas falarem por si só.

Por outro lado, será mesmo que quanto mais ficção mais literatura com L maiúsculo? O artista, como o Deus da criação, permanece dentro, junto, atrás ou acima da sua obra, invisível, clarificado fora da existência, indiferente, raspando as unhas dos seus dedos (Joyce, em Retrato de um artista). Estaria ele falando de uma meta a ser atingida, de um ideal? Pois é sabido que, não se considerando um deus da criação ex-nihilo (era mais adepto do nada se cria, tudo se transforma), usava e abusava em seus livros de nomes de pessoas com quem convivia, seus perfis de personalidade, de situações vivenciadas, claramente reproduzidas. Chega ao extremo de numa determinada passagem do Ulisses, num funeral, quando um tal de senhor Dodd é avistado, por na boca de Stephen, a seguinte afirmativa: “O diabo quebre suas costas”, agressividade injustificada e ininteligível dentro do contexto, até que Richard Ellman, seu biógrafo, explicasse que Dodd cobrava, com insistência, um dinheiro emprestado ao pai de Joyce, na chamada vida real. Diz ele: A verossimilhança é tão forte que Joyce tem sido ridicularizado como mais um mímico do que um criador, acusação que, sendo falsa, é o maior de todos os elogios.

Ilusão. Quando penso que falo/escrevo disso, na verdade, falo daquilo, de Outra coisa. Impossível distinguí-las: verdade e ficção encontram-se amalgamadas, fundidas. O escritor é mentiroso por vocação. E acredita em mentira, mesmo sabendo que mentira é. A literatura é um discurso que se alimenta da dúvida, da interrogação, pleno de uma ambigüidade que permite a confusão entre a invenção e a verdade. Tratamos o verídico como se da ordem do ficcional fosse, e damos voz de veracidade à fantasia. Como conseqüência, a certa altura, ficamos sem saber distinguí-los. Além do mais, é bom lembrar, assim como um lapso, a palavra-sentimento que desejamos reter, não externar é exatamente aquela que irrompe de forma abrupta e involuntária, contra a nossa vontade, e passa ao leitor (não a qualquer um, é claro, mas ao atento, ao privilegiado).

Escrevo para tecer e destecer a mesma e enigmática trama: minha história. Não o que vivi, no sentido de experiência, mas o que senti, os fantasma que me perpassam, identificações parentais. Ponho, conscientemente ou não, uma nova roupagem (tradução: fantasia, máscara, disfarce) a cada tentativa, para camuflá-la e, ao mesmo tempo, por mais paradoxal que seja, para desvelar seu sentido – para mim, inclusive. Enquanto viver permanecerei escrevendo, montando esse interminável quebra-cabeça, cujo número de peças é infinito. Não conhecerei sossego algum da idéia, nada me aquietará o espírito, eterna escrava da inspiração. Patrão risca, a gente corta e cose (Guimarães, em Cara de bronze). O produto final será, sempre, um verdadeiro rizoma, na concepção deleuzeana: pontos aparentemente soltos que se inter-relacionam. Se quiser estar certa do caminho a percorrer tenho que fechar os olhos e tatear no escuro, tendo como bússola a intuição. Desprezar o racional, seguir os sinais que a percepção captar. Parodiando Sócrates, ao contrário: só sei que tudo sei, embora seja um saber que não se sabe. Ainda.

Ana Guimarães

20 comentários:

  1. Muito bom e ...

    Eu já comecei a ler.

    ResponderExcluir
  2. Por que escrever? Fica sempre tal indagação a correr nossas mentes. Prefiro crer na resposta condensada numa coisa: reinvenção de mundo. Assim, ficamos nós, mesmo que não admitamos, perseguindo o autoconhecimento.

    Teu texto caiu bem, querida! Bravo!

    Beijos de liberdade!

    ResponderExcluir
  3. Maravilhoso o texto, muito bom mesmo. E eu, nas minhas poetices, fico sempre querendo o olhar o verso e tão-somente ver algum traço do meu semblante nele...
    Beijos,

    ResponderExcluir
  4. o q eh a realidade senão uma grande ficção imbuída de convictas ilusões? q sentido teria a vida se não pudéssemos sonhar, ficcionar mundos de desejos cuja satisfação transcende até mesmo a (real)ização da concretude desses sonhos? o poder ter desejos não traz muito mais sentido que quaisquer realizações ou satisfações desses desejos em si?

    ResponderExcluir
  5. Muito legal. A paráfrase final tá sensacional.
    Abço

    ResponderExcluir
  6. Ana, querida, ah, que saudade de suas palavras!

    Seu texto reunifica a mente e o coração de cada palavra escrita... Mas esse "povo" tem mania de separar tudo, quando na verdade, "tudo" está amalgamado.

    Amei tudo.

    Beijos, Madalena

    ResponderExcluir
  7. Ana querida
    Seu texto sempre original e erudito me alegra a parte que mais gosto de mim: a mente. Fico feliz de ter você a me explicar como e porque se escreve. " fechar os olhos, tatear no escuro, tendo como bússola a intuição" é um achado.
    Beijos e carinhos
    Maria Lindgren

    ResponderExcluir
  8. Querida Ana...

    ...sempre digo que ...vivo e escrevo à mercê
    da bússola do meu coração.

    Por isso concordo com as tuas palavras :)

    Bj*
    Luísa

    ResponderExcluir
  9. Ana, querida, tomei a liberdade de colocar um link de sua prosa "esclarecedora de letras", no Dicas, do post de hoje do Flor de Morango. Obrigada - rsrsrs.

    Beijos.
    Madalena

    ResponderExcluir
  10. "Enquanto viver permanecerei escrevendo, montando esse interminável quebra-cabeça, cujo número de peças é infinito."
    Tudo se cumpre segundo o desejo mais puro.
    O que sobrará nos contará ou decantará!
    Beijo Ana querida e obrigada pela leitura de "Queda de Barreira".

    ResponderExcluir
  11. Amigos,
    Agradeço os comentários, reflexões, divagações, enfim, a fértil interlocução. Esse maravilhoso feedback só realimenta a minha escrita!
    Um grande abraço, obrigada!

    ResponderExcluir
  12. "Escrevo para tecer e destecer a mesma e enigmática trama: minha história." eis um trecho emblemático de um texto pregnante de sentires e de reflexões que, numa evocação de María Zambrano, me fazem pensar em "metáforas do coração". Muitíssimo interessante e interpelante. grato pela partilha,
    filipe

    ResponderExcluir
  13. Luís Filipe! Que prazer! E quanta honra! Muito obrigada - mesmo - pelo comentário.
    Um grande abraço!

    ResponderExcluir
  14. Porquê e para quê escrever?
    Escrevo por necessidade de estravazar tudo o que me vai na alma.... Cada palavra é uma tira, um fio que trabalho no tear de uma folha em branco... Talvez a vida seja um imenso tapete onde escrevo cada um dos meus dias. Cada letra que ponho, é um pequeno ponto neste tapete onde, provisóriamente, construo o Infinito...
    Um beijo
    Graça

    ResponderExcluir
  15. Exato, Graça, eu até escrevi um poema chamado Patchwork. Obrigada. "Construir o infinito" é muito bom!
    Beijo

    ResponderExcluir
  16. Mada, muito obrigada pelo link, desculpe só estar agradecendo agora. Tome essa liberdade quando bem entender, serei eternamente grata.
    Beijo

    ResponderExcluir
  17. Parabéns e obrigada pelo ótimo texto, caríssima Ana!!! Afinal, mais do que descobrir ou demarcar limites entre autor e obra, entre realidade e ficção, trata-se de transformá-los em limiares, sempre escorregadios, entre uma coisa e outra, já que a plenitude do(s) sentido(s) sempre escapa, como lembra Barthes!... A mágica da arte, e da palavra literária e poética, aí está: toca mesmo que de leve, no incapturável! Beijos alados e leves.

    ResponderExcluir
  18. "To steal ideas from one person is plagiarism. To steal from many is research."

    "Um lugar pertence a qualquer um que tenha um uso para ele."

    Dentre as várias manias que eu tenho, posso apontar a primeira delas, pelas duas frases acima. Gosto de colecioná-las, não para ter a resposta na ponta da língua. Mas para compreender o seu completo significado um dia.
    E por aí, começa a compreensão do seu texto, ou análise, ou iniciativa de uma diálogo.
    E a segunda é a perspectiva de que nada afasta o texto do autor. Ponto e sempre. A vida passa por ele, pela sua interpretação. Diante dos seus olhos.
    Não tenho nada para acrescentar além da minha concordância. Ambos gostamos do Joyce, e ele disse tudo e você completou o que eu penso com boas palavras.
    Se quisermos algo de novo temos que sair da pessoa que somos. (Gonçalo Tavares, via Castello).
    É e - julgo - muito difícil esse comportamento. No mais querer saber o endereço da escrita, o percurso, e o objetivo é matá-la; e à fantasia também.
    Ler é para se divertir.
    Sorrindo, chorando, ou qualquer outra ferramenta à disposição.
    Obrigado&Beijos. Sempre.

    ResponderExcluir
  19. (São sempre os pássaros os primeiros
    pensamentos do mundo).

    Giorgio Caproni: "Prima luce" / "Primeira luz": trad. por Aurora Fornoni Bernardini.

    Não podia deixar de complementar.

    Beijos&Felicidades.

    ResponderExcluir
  20. Analuka e Djabal, amigos e leitores queridos: meu muito obrigada pelas reflexões.
    Beijos

    ResponderExcluir