domingo, 7 de junho de 2009

LIBERDADE, LIBERDADE



De que amanhã se trata? (Victor Hugo)

De três feridas narcísicas padecemos. Primeiro tivemos que reconhecer, graças a Copérnico, que a Terra não é o centro do universo. Depois veio Darwin, com a revelação: descendemos dos macacos. A terceira devemos a Freud e sua descoberta do inconsciente: não somos amos e senhores em nossa própria casa. Agora, um quarto golpe parece ter se abatido sobre a humanidade, especialmente sobre aqueles que fazem arte e literatura, deixando alguns senão desiludidos, perplexos, pois segundo um pensamento já dominante todos somos artistas e escritores se assim nos denominarmos: autorizamo-nos por nós mesmos, não mais dependemos de critérios canônicos pré-estabelecidos para definir nossas produções. Se as Brillo Boxes de Warhol eram arte, e as caixas normais de palha de aço não, meros objetos utilitários, qualquer coisa poderia ser arte, não haveria nenhum modo especial de ser da obra de arte, concluiu, em entrevista à Folha, Arthur C. Danto, filósofo, crítico de arte. E à pergunta de Giovanna Bartucci (psicanalista, ensaísta) Literatura com ele maiúsculo ou com ele minúsculo? Silviano Santiago, assim respondeu: As duas, ou as três ou as cinco manifestações de literatura, porque há que levar em conta também os produtos artesanais, os da Internet e as mercadorias da grande indústria editorial. Vivemos uma época de inclusão e não de exclusão... Finalmente o leque das possibilidades literárias foi aberto... Sua adjetivação (feminino, gay, étnico) coloca contra a parede a instituição ocidental conhecida como Literatura, que sempre teve pretensões universalistas, etnocêntricas e falocêntricas.

No princípio era o verbo. Nonada. Não há nada que não seja linguagem. Não nos servimos dela, só existimos através dela, e em seu cárcere somos prisioneiros. Vozes dos outros nos habitam desde sempre. É possível ignorá-las, refutá-las, rebatê-las? Delas desviar, depois de devidamente digeridas, cuspido seu bagaço, com ele construído uma singularidade? Ser mais do que uma câmara de ecos? Ator ao invés de simples reator de energia poética? Se estamos vivendo um desbloqueio da noção de literatura (como Santiago disse em A boa literatura incomoda) tanto que se fala mais em produção textual, também é certo que isso levanta um problema, o da qualidade (e enfatizá-la significa dar mais importância ao leitor do que ao consumidor): como reconhecê-la? Precisaríamos de um distanciamento histórico – que já se mostrou tantas vezes falho – para fazê-lo? Quem estaria apto para identificá-la? Os críticos? Os teóricos? Os professores? Tarimbados escritores de outras gerações? (Ezra Pound dizia que um poeta mais velho não devia opinar sobre os trabalhos dos jovens porque tenderia a gostar dos que são mais parecidos com os seus)

Não há mais limites para o texto literário? Urge uma reflexão sobre o seu estatuto na atualidade? E qual o seu futuro? A herança, é possível desprezá-la? A literatura encontrar-se-ia em estado de crepúsculo? De desconstrução, como postulou Derrrida, desenvolvendo (a partir da célebre frase de Victor Hugo citada no início) o conceito de herança como escolha, filtragem, interpretação? Não como algo que se recebe pronto e acabado, e sim com brechas onde se pode batalhar e desfazer os chamados momentos dogmáticos dos escritos anteriores. Tudo o que um verdadeiro mestre quer não é que o discípulo deixe de ser discípulo, o ultrapasse, o renegue, o esqueça? Aliás, até o mestre, de tempos em tempos tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas? (Assim falou Zaratrusta) Também não se trata de dizer o que ainda não foi dito, é pouco, talvez uma bobagem que vínhamos repetindo, visto que a verdade não é um fruto que se encontra em algum lugar só esperando para ser colhido; ela é, como o sujeito, um efeito do discurso.

A pergunta “o que é literatura?” é feita para se efetivar, a cada instante, uma resposta diferente. Escrever é produzir onde tudo apontava para uma impossibilidade; é não desistir, é insistir, ousar. Encarar, corajosamente, o que os gregos chamavam de borboletas (psyché) e MD Magno (psicanalista, doutor em letras) cunhou como borboletras, aquilo que bate asas, às vezes não tão graciosamente, dentro da cabeça. Mudar fronteiras de lugar (entre a loucura e a sensatez): pra cima e pra baixo bordando a terceira margem do rio, seja na forma ou no conteúdo do texto. Equi-vocar, chamar igualmente os opostos – aí é o espaço, por excelência, da criação, sempre visitado por Machado de Assis, por exemplo, (explicitamente, em O Alienista), por Octavio da Paz: Tristeza de ter vindo/alegria de estar aqui, bem lembrado por Carlito de Azevedo no seu artigo Dia da Poesia: num minuto a poesia me devolvia a alegria, e o melhor, sem me roubar a tristeza. Num minuto eu podia ser a mosca e a aranha na teia ao mesmo tempo.

O inevitável mal-estar na civilização, percebido de modo errôneo como um vazio a ser preenchido, leva a adições, drogas literárias de auto-ajuda, essas que grassam nas livrarias, com uma demanda absurda: ao sistema interessa reabilitar o indivíduo para que ele, engrenagem, volte a mover a roda do espetáculo. Mas existem outras. Literaturas, digo. Aposto na que preserve a liberdade do leitor e não o deixe esperando do outro, neuroticamente, a “solução”. Difícil, porém, competir com aquela que apazigua, que anestesia, que não traz horror algum. O melhor, os bons livros estão no limbo, na obscuridade... Não são populares e nem estão atingindo o mercado (Santiago, ainda). Prefiro os polêmicos, os que dão mau exemplo, os que não impingem nenhuma ortopedia social, como dizia Foucault, nada de persuadir, adaptar ou oferecer-se como imagem ou modelo. Nada de submeter-se à censura de qualquer espécie, ao contrário, dar voz ao desejo: é na impossibilidade de se imaginar e verbalizar a violência – Sade nos mostrou – que corremos o risco de fazê-la se cristalizar no real. Cultivar o dissenso. A palavra é pluralidade, cada um que encontre a sua, a reinvente. É não seguir caminhos, trilhar os próprios, eles são tantos quanto os escritores. Grande Ser: tão veredas. (MD Magno)

Ana Guimarães


Texto editado a partir do original publicado em: http://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=1173
Também está na chamada de capa do site Ver-o-poema, confiram:

9 comentários:

  1. E nao seguir setas. Criar cada qual. É sofrido. Que Darwin nos tenha tirado do centro, vá lá! E essa agora na Literatura? Outro dia li "Todos podem ser gênios. Há drogas para a genialidade".Bevam todos, engulam. Pret-a-porter?

    O que nos reserva? Não há marcas. Se bem...Até que há. Melhor é não crer nelas e buscar o risco. Atrás do laço pode encontrar uma ponte. E nossa vida é risco, o mesmo lá das selvas. A linguagem dá pequenos oásis spo pra quem se arrisca. Mas , como você disse, vendem linguagem com selo de garantia.Leia, está salvo. rs

    Ninguém tem garantia. É pelo risco que se escreve. Quem lê risca e arrisca , junto. Se isso é Literatura?

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  2. Bom dia ANA boa semana. Da minha parte fico feliz ao ler tudo que escreves sera sempre com digo um aprendizado.

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  3. Agradecimentos de sempre, querida. Beijoca.

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  4. "Eu sou o medo da lucidez

    Choveu na palavra onde eu estava.

    Eu via a natureza como quem a veste.

    Eu me fechava com espumas.

    Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.

    Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.

    Nem era muito que eu me arrumasse por versos.

    Aquele arame do horizonte

    Que separava o morro do céu estava rubro.

    Um rengo estacionou entre duas frases.

    Uma descor

    Quase uma ilação do branco.

    Tinha um palor atormentado a hora.

    O pato dejetava liquidamente ali."


    Manoel de Barros, in o Guardador das Águas.

    A poesia, a prosa, são momentos de beleza, de medo,de amor, de terror, que nos mostram que ainda somos humanos. Parece que estamos nos tornando, deficientes emocionais. Aos poucos, tudo se perde, na busca da resposta fácil. Do caminho suave. Acomodamo-nos?
    Pensar : não temos nada além disso, a beleza da palavra que corrompa tudo e todos e que, de repente, nos faça dizer um ah!. um simples ah, antes que o mundo termine num suspiro menor.
    Beijos.

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  5. Ana
    Seu texto é motivador e dá vida a todas as borboletras que se mantém em casulo dentro de mim.
    Escrever para mim significa reconstrução , depois de desconstruções importantes e significativas.
    EScrever é voar sempre para dar vazão a desejos , idéias e fantasias.
    Depois de começar a escrever conteúdos latentes me tornei uma outra mulher.
    Ana, não consegui ler o artigo que você me indicou pois não sou assinante UOL ou da folha de São paulo.
    beijos
    beijos

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  6. Ana,
    Sintonia. No comentário do texto anterior havia já mencionado, em alguns aspectos o que vem continuar esse texto.
    Nossas ocupações como pesquisadoras da alma humana, - nisso que culturas milenares - nos legaram enquanto refleção, quanto o que na contemporaneidade se questiona, ou que alguns afirmam.
    Apoio-medo segundo parágrafo desse texto:
    "No princípio era o verbo. Nonada. Não há nada que não seja linguagem. Não nos servimos dela, só existimos através dela, e em seu cárcere somos prisioneiros. Vozes dos outros nos habitam desde sempre. É possível ignorá-las, refutá-las, rebatê-las? Delas desviar, depois de devidamente digeridas, cuspido seu bagaço, com ele construído uma singularidade? Ser mais do que uma câmara de ecos?"
    Sem essa concepção, em nossa época constatamos que a arte é definida de acordo com a função que se tem da existência do humano. Fazer render em moedas, meramente aquela cambiavel por outro bem material. Lamentável não?
    Beijos, continuemos

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  7. Super interessante esta sua peroração. Nunca é de mais lembrar e pensar tão vivamente como a Ana o faz, que a liberdade e a independência são condições e atributos da literatura e das artes em geral. O problema é que elas, por si só, não são literatura nem arte, nem garante de qualidade, considerando nós que nem tudo é igualmente bom ou mau.
    Quanto ao que já está escrito, tender-se-á a uma apreciação referida a quaisquer padrões e gostos, sejam literários, políticos, sociais,ou outros e, o que muito agrada à «galeria» pode não agradar ao «cavaleiro», ao «nobre» e ao abastado.
    Quanto ao que está por escrever, de facto, cada um tomará à sua conta e risco o que quer fazer e o que fará.
    Eu creio que quem tiver algo a dizer, a cantar, a gritar, só precisará de "dominar" a linguagem adequada, ou bastante, para o fazer.
    E depende também de ter ou não ter em mente estes ou aqueles destinatários...
    As avaliações, essas, tenderão cada vez mais, como deduzo que bem diz no seu texto, a ser desinstitucionalizadas e descanonizadas...
    Parabéns pela escrita polemizante.
    Um abraço.

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  8. Ana,
    Literatura é ação,criação,inovação. É comunicação.
    Enquanto Você fala e brada por Liberdade, aqui, em seu texto, Tere (naquele seu personagem que brilha ao sol da praia) busca a Liberdade. E, sob um aspecto filosófico/tecnológico, Carlos Nepomuceno (http://nepo.com.br/2009/06/10/as-fronteiras-da-internet/) nos fala das nuances da Liberdade de comunicação através da Internet.
    E, graças à Internet, todos nos conhecemos e nos comunicamos.
    "O inevitável mal-estar na civilização, percebido de modo errôneo como um vazio a ser preenchido" será tratado convenientemente se soubermos fazer bom uso da inovação tecnológica que se nos oferece a cada dia.
    Abraços
    Luiz Ramos

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  9. Quem escreve risca e arrisca, como bem disse a Rose. Embora sempre valha a pena, aqui valeu mais do que nunca, obrigada a todos pelas pertinentes interlocuções. É um prazer tê-los como amigos.
    Beijo

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