segunda-feira, 17 de novembro de 2014

ANDORINHA


ANDORINHA

Odeio a amplidão que vislumbro agora, pois revela o quanto me contive. O quanto evitei o vazio porque temia não ser  capaz de preenchê-lo, mesmo que parcial e temporariamente. Como fugi do espanto da arte quando dava vertigens. A quem admirei para manter distante, inatingível. De lição em lição, a mesma treva. Nada aprendi por mais que repetisse. Primaveras esperançosas se foram. Todas as cores do arco-íris, em vão. Talvez retornem. E então, quem sabe encontrem, com sorte, um coração mais aberto, um criançar da alma, uma enxurrada de pétalas se abrindo. Ah, se pudesse me rebaixar como a gueixa e manter a altivez da garça, sua postura! O amante perceberia a jóia rara guardada num cofre a sete chaves, há sete anos, só para ele. Ou para outro qualquer por quem me apaixonasse. Exumaria ossos de antigos amores. Transformaria cemitérios em maternidades.
Ao invés do galo cantar, o cão ladrou anunciando a madrugada que já ia longe em seu silêncio. Gemidos de prazer ou de dor ainda podiam ser ouvidos, e a escuridão era como ter gazes nos olhos  depois da cirurgia. De repente, uma canção mal começada e logo interrompida avisava como uma vida pode ser, de forma brusca, ceifada. Sem sentido. Se todos saíssem às ruas com uma vela acesa nas mãos, nem assim, creio, iluminaria a alma dessa cidade, para sempre perdida. Meus perplexos olhos que, embora cansados, nunca se cansam de enxergar, vêem, às vezes,  que não há mais saída. Que tudo deve continuar assim até um fim que nunca virá.
Lembro-me bem, domingo era um dia tão lindo, apesar da missa obrigatória e do Faustão. Fui até a varanda, abri a janela, escancarei as asas, ensaiei um vôo, mas não consegui voar. Serão elas grandes e pesadas? Que me importa se caísse? Dois ou três pontos, um pouco de repouso e tiraria novo brevê, se preciso fosse.  No entanto, tenho medo. Mais do que medo (que instiga, provoca, desafia) prudência, que paralisa, justifica a inércia. Esse chão lá embaixo, onde pombas comem o milho atirado se parece com aqueles dias que ficaram para trás. Acontece que sou andorinha. Prefiro outro alimento e só preciso de bando no verão, as outras estações faço sozinha.

Ana Guimarães







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