quarta-feira, 26 de novembro de 2014

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Ele está atrasado de novo. Difícil suportar papo de sala de espera de consultório dentário. Pego uma revista náutica e nela enfio o nariz. Deve ser o hobby de todo dentista milionário (que pleonasmo, diante dos altos honorários cobrados por essa categoria profissional). Navegação em mar aberto é o que mais se aproxima da idéia de imobilidade. Um navio dá impressão, pra quem está dentro, de estar imóvel. O horizonte é sempre igual, e aquele mundo de água que o circunda jamais se altera, é sempre o mesmo, transmite uma sensação de paralisia no tempo e no espaço. Talvez isso explique porque tantos entretenimentos a bordo. Para evitar que se caia num estado de vazio, de entre parênteses na vida.
Feito na cadeira do dentista: a fim de que o paciente (et pour cause) não fique entediado, ele passa horas – sem força de expressão – falando sozinho, enquanto trata dos seus dentes. Uma característica comum não só aos loucos, também aos escritores: escrever é uma forma de falar sem ser interrompido, diz o ímã na porta da geladeira. Mas ficar calado é diferente, é conversar com os mortos, já estar no meio deles. De ouro não tem nada, prefiro meu amor de prata, ave palavra!
Houve uma época em que fazia da cama meu avião. Tinha oito, nove anos, e adorava acordar, nas férias escolares, sem pressa de me levantar, olhando as nuvens no céu. Obcecada por elas, imaginava com o que se pareciam, nomeando-as a cada metamorfose, numa tentativa de apreender o não apreensível, o que não tem contornos definidos, o que está em constante transformação. Um jeito intuitivo de me preparar para as mudanças que o destino me reservara, quem sabe? Melhor assim.
Seria possível evoluir na calma? Não creio, nada de sentar à beira de uma estrada abandonada, sem movimento, em suspensão. Ou na encruzilhada, sem ir a lugar algum, verdadeira morte em vida. É como pescar: quieta, em silêncio, o dia inteiro, na expectativa de um peixe que, muitas vezes, não vem. Prefiro más notícias a isso.
Cansada de tanto esperar, recito, de pé, sob olhares entre assustados e divertidos, esses versos de Drummond: Aos navios que regressam marcados de negra viagem, /aos homens que neles voltam com cicatrizes no corpo ou de corpo mutilado, /peço notícias de Espanha/... Ninguém as dá./... cansado de vãs perguntas, farto de contemplação,/quisera fazer do poema não uma flor: uma bomba e com essa bomba romper o muro que envolve Espanha.


Ana Guimarães



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