domingo, 19 de abril de 2015

MINHA SOMBRA E EU






MINHA SOMBRA E EU

Minha sombra e eu fizemos um trato
andamos lado a lado
como Sócrates e seus discípulos
nos jardins da vida

somos diferentes, é claro
sou radiante
ela é sombria
preciso da luz do dia
ela tem fronte lunar

governa-me o coração
ela, a razão
entrego o que me pedem
ela tudo mede, pesa, avalia

meu canteiro, com belas flores
volta e meia se enche de mato, é fato
no dela, nenhuma erva daninha
(também a terra é estéril,
nada germina)

minto, trapaceio
sou de extremos
dona sombra é um tédio, com o seu
"a virtude está no meio"

de qualquer barro 
faço Adões e Evas
amores ou amigos
para ela tudo é escarro, espinho
por ela viveria sozinho

quando fervendo, meu refrigério
maníaco, meu lado sério
preparo o pulo, ela o impede
se o considera por demais arriscado

pretendo-me eterno
ela me mostra mortal
quero saltar um abismo
e lá vem ela com o projeto da ponte
já em algarismos

quando exijo o real
me oferece a ficção
acha que a poesia me consola
o que é verdade, pero não toda

insiste que eu me cubra
com o manto da imaginação 
mas sei que esse canto
por mais doce 
é pura ilusão

por de sol algum, aqui ou ali pintado
consegue expressar a emoção daquela tarde
prazer que nenhum pavão da arte
encena

Ana Guimarães

2 comentários:

  1. Tanto tempo sem vir a este blog, topo por mero acaso com chamada no FB. Encontro este interessante poema, que sua sombra decerto ajudou a compor. Viajei nessas incríveis possibilidades de personificação para uma sombra aqui apontadas (a minha sempre foi só sombra, nunca conseguiu nem inspirar versos, que dirá fazer cálculos). Foi bom, pra mim, ter vindo. Todos os cumprimentos, Ana.

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  2. Fico feliz que vc tenha vindo e gostado, João! Obrigada.
    Ana

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