domingo, 14 de abril de 2019

A FÉ NA FICÇÃO

Para sonhar não é preciso fechar os olhos e sim ler. (Foucault)

À parte as qualidades intrínsecas de cada um, a despeito de méritos literários, qualquer texto me seduz. Como Cervantes, lia até nos papéis rasgados das ruas. Desde cedo, um livro sempre foi o meu melhor companheiro, alguém em quem podia confiar, um porto seguro ou sólido navio na tempestade. Tormentas grassavam ao redor e, no entanto, quando começava a folheá-lo, tudo cessava, tudo se calava, tudo fazia sentido. Estimulantes desafios surgiam. Ora adentrava romances de cavalaria, lutava contra moinhos de vento, ora enfrentava poderosos jagunços. Temer algum mistério, terror ou sobrenatural nevermore, pelo menos não a ponto da paralisia.

O mínimo grau de dispersão ao ler era motivo de riso. Pequena ainda, nem percebi que o cachorro de uma vizinha, procurado à exaustão, tinha se instalado sob a minha poltrona, enquanto eu devorava Reinações de Narizinho. E quando, já mais velha,  um incêndio se alastrou numa Casa de Saúde próxima ao nosso prédio? Todo mundo passou a tarde assistindo de perto, enquanto eu só fui ser informada do ocorrido à noite, pelo noticiário, lendo que estava, numa sentada, Dublinenses. Paixão não compreendida pela minha mãe. Larga esse livro, menina, vá brincar lá fora, tomar sol, fazer um esporte! Vem ajudar aqui, já que você está à toa! Rogava que respeitassem meu jeito de ser, sempre com um exemplar à mão e outros tantos, novinhos em folha, na estante.

Apreciava habitar as entranhas da fantasia. Tanto, que via mais verdade aí do que nos fatos, pessoas, relacionamentos. Crianças (suas brincadeiras), adolescentes (seus jogos), adultos (suas conversas), muito interessantes, mas sempre menos do que essas viagens, onde podia dar asas a imaginação, um exercício libertário por excelência. Comecei a observar que o oposto da vida não seria a morte, mas o medo. Poucos querem correr o risco de soltar as amarras, velas ao vento. Por que não reagir às tragédias? Deveriam elas nos paralisar, bloquear nossa sensibilidade? Teríamos que nos curvar aos traumas que nos acometem? Rendermo-nos à afirmação de Adorno, segundo a qual escrever poesia após Auschwitz é obsceno?

Fui aprendendo a relativizar, a me rebelar contra o habitual e dominante pensamento maniqueísta, a conviver com características complexas e organicamente opostas. A escutar e aceitar a polifonia do mundo, vozes, à primeira vista, irreconciliáveis. A trocar toscas certezas por infinitas dúvidas, porém vivificantes. A interpretar n personagens, como se reencarnasse n vezes. Ousava perguntar: preciso seguir a rota que me foi imposta? Satisfeita ao ver, sobretudo, como eu, viajante, me modificava durante a travessia. Partia sendo uma e voltava sendo outra.

Como seria de se esperar, era ambivalente em relação a hóspedes. Aqui damos de comer e beber, sábio lema de alguns albergues que abrigam os peregrinos em Santiago de Compostela, ao longo do caminho. Apesar de curtir o ambiente aquecido pela conseqüente troca de afeto, pelas novidades, pelos ‘causos’ contados, ficava indócil, escrava de polidas sociabilidades, ansiando pela alforria do tempo que escorria. Tal qual uma bailarina se exercitando, necessito de muitas horas diárias para me dedicar ao mal de Montano do qual padeço, meu vicio, desde o o início. Mas afinal, pra que serve tanta literatura? Nenhuma finalidade ou intenção, puro ludismo. Embora não deixe de ser um ato de esperança, pois a fantasia é a sustentação do desejo, é ver a mais graciosa das mocinhas  onde há apenas um atleta peludobrincou Lacan. Nem divertimento nem evasão, só uma outra forma de examinar a condição humana.

Sempre me deixo afetar pelo que leio. Assim como ao despertar de um sonho tenho necessidade de associar a partir dele, ao ler dialogo com o autor, em intensa e constante interlocução. Grifo palavras, sublinho expressões, trechos, faço anotações em suas margens. Gostava de contar para alguém depois, compartilhar meu Eldoradomas nem sempre era bem-vinda. Descobri que o ouvinte se liga se quiser, para de acompanhar, pensa em outra coisa (pelo olhar ele se trai), se fixa mais em você, no seu jeito de ser, do que no que está sendo dito.

Uma ilusão pensar poder passar aquilo que sentira lendo, a emoção, através da leitura em voz alta. Como naquele ditado, eu apontava a lua e eles só viam o meu dedo. Se tanto. Recordo-me de um ensaio de Montaigne, onde ele fala que devemos morar num lugar com vista para um cemitério porque mantém as prioridades da vida em perspectiva. Pois bem, meu lar voltado para a ficção me fez prestar mais atenção à realidade, a ouvir mais e melhor o outro. E, muito cedo ainda, permitiu descobrir-me além de sujeito, mulher, esse conceito impermeável a todo saber que se produza a respeito.

Ana Guimarães

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